A família de Ayrton Senna teria zelo pela sua inserção na esfera pública, tomando os devidos cuidados de tratar a sua imagem, de promovê-lo, de conquistar financiadores para a sua carreira automobilística, fazendo assim com que o piloto pouco a pouco desenvolvesse o processo de tornar-se figura pública. Descrevo a seguir alguns passos desse processo.
Ao final de sua primeira temporada completa na Europa em uma categoria de acesso (Fórmula Ford 1600), Ayrton Senna volta ao Brasil em dúvidas sobre a continuidade de sua carreira automobilística, dúvida inclusive que se tornou pública em manchetes de jornais. Optar pela continuidade na carreira automobilística seguindo as devidas etapas na Europa ou se juntar aos negócios administrativos de seu pai eram as duas opções em jogo. A razão dessa dúvida se dava pela periculosidade da carreira automobilística e seus altos riscos e também pela falta de suporte financeiro. Quando a solução para o problema financeiro veio, Ayrton Senna tomou a decisão de retorno à Europa, dessa vez para a Fórmula Ford 2000, categoria automobilística um grau acima da anterior.
Essa solução financeira se deu através da criação da empresa “Ayrton Senna Promoções Esportivas” gerenciada por Armando Botelho. O suporte financeiro para a estadia na Europa e os demais custos envolvidos na competição automobilística se daria através da publicidade de empresas brasileiras. O propósito de Ayrton Senna e sua família era bastante claro: não pagar para correr. Uma prática muito comum no automobilismo, pelos seus altos custos envolvidos, contando com poucas probabilidades de retorno nos casos de não sucesso. O próprio Ayrton Senna viria a mencionar na entrevista do programa de televisão Roda Viva no final de 1986 que grande parte do
195 grid de Fórmula 1 era composto por pilotos pagantes. O desejo de Ayrton Senna e de
sua família era de que Ayrton pudesse a vir a se tornar um piloto profissional, ou seja, um piloto pago para fazer o que fazia.
Em 1982 o principal patrocinador de Ayrton Senna foi o Banerj (Banco Estadual do Rio de Janeiro). Posteriormente o Banco Nacional – curiosamente os dois bancos foram comprados e fundidos ao Banco Itaú. Além dos slogans dessas empresas estampados nos carros de corrida de Ayrton Senna e no seu vestuário principal de competição, seus macacões, capacete, luvas, bonés entre outros, a publicidade deveria partir de propagandas audiovisuais com fotos em jornais e vídeos gravados para a televisão. E toda essa publicidade teria evidentemente um duplo impacto profundo, sobre as disposições de Ayrton Senna e sobre suas representações. A partir de então Senna teria que lidar com o estatuto de “garoto propaganda”. Os pilotos profissionais no automobilismo recorrentemente citam seus patrocinadores em entrevistas, agradecendo- os pelo apoio. A postura nas relações públicas passa a mudar conforme pode se constatar pela pose, mirar um ângulo específico diante das câmeras a fim de aparecer os diversos patrocinadores do vestuário. Tony Stewart, piloto da Nascar por vários anos que se aposentou ao final de 2016, comumente aparecia em entrevista com uma garrafa de Coca-Cola em uma de suas mãos. Essas atitudes mais explícitas passaram a ser mais comuns de alguns anos para cá. Ainda nos anos 1980 era vista como vergonhosa e poucos se sentiam encorajados a tomarem atitudes tão explícitas. No caso de Senna, quando estava sem capacete andando pelos boxes dos autódromos e estando dessa maneira livre para ser fotografado a qualquer instante, comumente caminhava com um boné na cabeça com o logo do Banco Nacional. O Banco Nacional nunca estampou seus logos nos carros de Fórmula 1 de Senna, pois estes espaços publicitários eram mais onerosos, procurava-se, por outro lado, personalizar a publicidade. Em 1982 o BANERJ patrocinava tanto o carro de Senna quanto a figura personalíssima de Senna, como é possível ver no seguinte exemplo:
2 outubro 1982
Banerj: o aditivo do campeão
Sucesso atrai sucesso. Por isso, é muito natural que o Banerj e Ayrton Senna da Silva, o campeão Inglês e Europeu de Fórmula 2000, tenham recebido a bandeirada da vitória. O Banerj sabe que um carro de corrida e seu piloto não usam um tipo de combustível somente. É preciso um aditivo mais forte, um bom patrocínio.
196 Nós, do Banerj, acreditamos em Ayrton Senna. Um piloto que tem a marca dos campeões. Hoje ele chega ao Brasil. Mas por pouco tempo. Em novembro, enfrenta um novo desafio: estréia na Fórmula 3. E o Banerj estará ao seu lado, mais uma vez. Banerj e Ayrton: uma dupla imbatível.167
A publicidade de atletas esportivos procurou associar elementos de uma marca ou empresa a um atleta reciprocamente e mutuamente. “Sucesso atrai sucesso.” Os signos que um atleta esportivo é capaz de mobilizar suas práticas são mobilizados nessas publicidades como empreendimentos significantes das marcas estampadas, mas o sentido não se dá unicamente do atleta para a marca, dando se por vezes também da marca para o atleta, porque implicitamente o que essas publicidades revelam são as escolhas pautadas nos gostos desses atletas, posicionando-os no espaço social, guardando todas as correspondências homólogas com os consumidores dessas marcas. Assim as oportunidades de participação em espaços publicitários vêm a cumprir funções decisivas na construção de representações de atletas esportivos que possam encontrar seus correspondentes homólogos em outros espaços sociais distantes dos espaços sociais mais restritivos de suas práticas competitivas e profissionais. São nessas oportunidades como as participações publicitárias, entrevistas em talk shows, ou quaisquer outras apresentações públicas fora dos espaços mais restritos competitivos que dão toda a possibilidade dos atletas comporem o seu “caráter”, algo que pode ser visto sociologicamente como essa representação. Mas apesar de se desenrolar fora dos âmbitos e limites esportivos, essas representações são capazes de afinar os atletas aos seus torcedores, tendo impacto na produção de uma relação afetiva com suas consequências no desenrolar das práticas esportivas. Não em vão, com a ampla participação de Ayrton Senna nos espaços de relações públicas, sua representação vem a se constituir como a de um homem carismático, capaz até de contar com torcedores antes mesmo de sua primeira vitória, como pode se constatar nos Grandes Prêmios do Brasil de 1984 e 1985, em que partes da arquibancada gritam o nome de Senna e estendem bandeiras de apoio ao piloto brasileiro168.
167
FOLHA DE SÃO PAULO. Banerj: o aditivo do campeão. Folha de São Paulo, São Paulo, 2 de outubro de 1982.
168
FOLHA DE SÃO PAULO. Senna confia no carro e já é favorito do público. Folha de São Paulo, São Paulo, 7 abril 1985a.
197
Em 1983 Ayrton Senna se dedicava ao último ano de aprendizado antes de sua inserção na Fórmula 1 em 1984. Nelson Piquet, nessa época, estava concentrado na conquista do seu segundo título na Fórmula 1. Durante esse período, pôde se observar algumas reportagens destinadas à promoção da imagem de Ayrton Senna, enfim, à sua representação:
Esse moço que parece ter pudor em falar de si próprio e que, com gentil firmeza, passa ao largo de assuntos pessoais, é um nome consagrado no mundo frenético do automobilismo, habituado a conviver com os títulos, as taças e a fama: Ayrton Senna, campeoníssimo das pistas européias, nome virtualmente certo na próxima temporada da Fórmula-1.
“Sempre gostei de carros, desde garoto. Até certa época esse prazer era dividido. Minha infância foi igual à de todo mundo, com figurinhas, balão, bolinha de gude, futebol (batia com a esquerda). Mas em certo momento, decidi que era imperioso deixar tudo de lado. Era a dedicação absoluta ou a desistência. Hoje, o automobilismo significa tudo para mim. O resto secundário.”
Até parece frase decorada. Contudo, em nome dessa determinação, Ayrton Senna abandonou não apenas a perspectiva de uma vida abastada, à qual poderia se dedicar, plenamente (o casarão, os carros e a sala solene garantem isso). Ele pôs fim também a uma breve experiência de casado. E surpreende, ao falar sobre o episódio com a maior naturalidade.169
“Até parece frase decorada”, confessa assim o escritor do jornal Folha de São Paulo, a intimidade de Senna com o espaço midiático, “parece”, nesse caso, não quer dizer o mesmo que é. Aparenta ser um produto de uma dissimulação o que na realidade é a prática realizada com naturalidade, porque do aprendizado de Senna, algo ao qual desde cedo se acostumou, não havendo nele outro modo de agir que não esse precisamente afinado às estruturas desses espaços midiáticos. Piquet, por outro lado, não parecia em situações anteriores, preparado e acostumado para essas situações, tentando fugir delas, como se pode confirmar através da reportagem abaixo:
Piquet, um campeão mais humilde em 83
Quando Piquet conquistou seu primeiro título, no Grande Prêmio dos Estados Unidos, em Las Vegas em 1981, desapareceu por três semanas e voltou dizendo que estava em férias. Bernie Ecclestone, dono da Brabham, ficou horrorizado. Na época falou que se estivesse no lugar de Piquet voltaria rapidamente para o Brasil, a fim de colher sem mais demora os frutos da conquista (principalmente contratos publicitários milionários). Mas aquela atitude não significa que o brasileiro faz pouco caso do dinheiro e ou das coisas que ele pode comprar. Afinal dirige um luxuoso Mercedes Benz, tem um iate – o Gostosa – de 16 metros, ancorado em Monte Carlo e viaja em seu próprio avião.
169
SOUZA, Alci. Senna, um campeão tímido e humilde. Folha de São Paulo, São Paulo, 12 de abril de 1983.
198 “Poderia fazer contratos mais vantajosos – diz o bicampeão -, mas não me interessa. O que encanta é o automobilismo. A parte mecânica e o prazer de pilotar, o que espero poder continuar fazendo por mais 10 anos”.170
A trajetória de Ayrton Senna até a Fórmula 1 tem toda a aparência de ter sido cuidadosamente planejada e calculada, produto de uma intenção antecipadora do futuro, de uma visão capaz de enxergar etapa a etapa para se chegar ao objetivo final, que por um deslize aqui e ali, foi seguida à risca, sem quem qualquer grande risco tivesse afrontado-a. Aos quatro anos de idade Ayrton Senna recebeu de seu pai Milton um kart de apenas 1 cavalo de potência como um presente. Aos treze anos, Ayrton vai às pistas para competir estreando nas categorias menores de kart, passando por várias delas, em campeonatos locais de São Paulo e outros estados brasileiros, depois em campeonatos nacionais e internacionais, tendo chegado ainda antes dos vinte anos de idade a disputar mundiais de kart na Europa, fora do Brasil. Etapas são executadas, uma a uma, não há pulos, não há saltos, não há barreiras nem entraves. Aos vinte anos de idade, no ano que completaria vinte e um, é a vez de seguir rumo à Europa, à Inglaterra, para disputar as categorias de acesso à Fórmula 1. Assim, em 1981, Ayrton Senna disputa a Fórmula Ford e é campeão na categoria. O mesmo acontece no ano seguinte, ainda assim em 1983 disputa a Fórmula 3 inglesa para então se sentir pronto à Fórmula 1.
Seu procurador aqui no Brasil, também amigo da família, montou um esquema de divulgação junto à imprensa brasileira de todos os seus resultados na Europa, além de realizar os contatos junto aos seus futuros patrocinadores. Como uma empresa de pequeno porte, a “Ayrton Senna Promoções Esportivas” foi somando resultados àqueles conseguidos pelo piloto na Europa. O Banerj veio juntar-se a Tranzero e, a partir de então, o sucesso foi crescendo sempre até o resultado final do último sábado.171 Revelação do Campeonato de Fórmula-1 deste ano, Ayrton Senna, que trocou a Toleman pela Lótus, diz que planejou a carreira pacientemente. “Tudo foi programado. Era preciso estar nos lugares certos; nas horas certas. A F-1 não veio prematuramente, mas no momento exato, quando eu estava preparado psicologicamente para entrar numa competição dificílima.” O jovem piloto lembra que a temporada de 1984 foi uma espécie de adaptação onde aprendeu muito.172
170
FOLHA DE SÃO PAULO. Piquet, um campeão mais humilde em 83. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 outubro 1983.
171
PAVORETTO, Cecilia. Senna chora emocionado com a festa da chegada. Folha de São Paulo, São Paulo, 4 de outubro 1982.
172
FOLHA DE SÃO PAULO. Senna está onde planejou chegar. Folha de São Paulo, São Paulo, 15 novembro 1984.
199
Essa trajetória aparece como oposta a de outros pilotos. Muitos pilotos da Fórmula 1 dos anos 1970 e 1980 só vieram a disputar competições organizadas depois dos vinte anos de idade. É o caso de Nelson Piquet. Piquet não teve, ao contrário de Ayrton, um sonho desde cedo de se tornar piloto de Fórmula 1. Com uma criação familiar diferente, foi a contragosto do desejo dos seus pais que Piquet se tornou piloto. Ayrton ao contrário teve orientação de seu pai Milton, sua família preocupada com os perigos da prática do automobilismo por vezes dificultou anseios no Ayrton que ela mesma projetou para ele. Mas na generalidade Ayrton foi orientado, foi ilustrado a ele qual caminho deveria ser seguido, e cada uma das etapas aparecia como um plano a ser seguido por Ayrton, um plano que ele era capaz de projetar e de se ver nele em sua imaginação, imaginando o futuro, de forma diferente a que Piquet não poderia projetar um futuro semelhante, vendo a sua vida rumar para o automobilismo apenas no meio do caminho e não antes da trajetória ser percorrida.
O cálculo (o surgimento das instituições e seus participantes) é resultado de uma modelação dos corpos dos agentes participantes desse processo que podem crer que esse esforço valha à pena, que possam vir a serem saciados em suas vontades, que tomaram a forma de um cálculo sendo na realidade disposições a serem saciadas apenas por uma finalidade a qual não se questiona o seu valor. Por que a Fórmula 1 é uma finalidade na vida dessas pessoas nunca se questiona, ganhando assim a forma de um cálculo as disposições para essa finalidade em que os fins conquistados são vistos como racionais. A generalização dessa disposição aparentemente racional, que se formaria sem as transgressões de estruturas emocionais nos corpos, faz emergir uma série de instituições voltadas para um mundo racionalizado, ou seja, a partir da generalização da disposição que tem como fim à chegada à Fórmula 1, surgem uma série de instituições em que em diferentes posições diversos agentes contribuem para essa finalidade, seja ela própria, ou de outros. Não são diferentes do universo financeiro, das disputas de mercado, todas vistas como produtos de um cálculo racional não produzido pela história, em que as justificações sempre aparentam prontas, não havendo a necessidade de levantá-las. Pois fazem parte de um grupo de condutas que orientadas por uma finalidade que nunca se questiona, pela sua aparência de eternidade, como se fosse uma razão eterna para a existência humana. Por outro lado, as práticas que vão em direção contrária são recorrentemente questionadas para apresentarem suas justificações, e quando as justificações, que não podem fugir muito dos princípios reguladores dessa razão
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(histórica que apagou a sua história), fogem aos regulamentos da razão imposta, as práticas são descredibilizadas, vistas pelos outros como produtos de uma irracionalidade, não sensatas, e muitas vezes classificadas com os adjetivos contrários ao da razão imposta, ou seja, classificadas como emotivas e não pensadas, produtos de tudo aquilo que a razão imposta procura distanciar, não as sendo, no fundo, tão distantes. A aparência de cálculo ou de racionalismo sempre existirá quando uma prática se realizar completamente adaptada a uma situação que, não sendo exatamente idêntica, é semelhante a outras que fundamentaram os princípios regulares dessas próprias práticas. Quando há essa consonância entre as estruturas de um corpo e as estruturas institucionais, há toda a probabilidade das práticas aparentarem racionais.
“Bem o Ayrton é uma pessoa que vive da profissão dele, ele vive, come, dorme, bebe Fórmula 1, corrida, e adora isso”. Essas foram as palavras de Maurício Gugelmin em entrevista para a TV Cultura em 1987173, quando perguntando sobre vida de Ayrton Senna. Maurício era então um pretendente a um posto na Fórmula 1, Ayrton Senna já estava preparando-se para a terceira temporada pela equipe inglesa e sua quarta na Fórmula 1, já possuindo até então um total de quatro vitórias na categoria e sendo observado por outros pilotos como alguém que por uma questão de tempo viria a se tornar campeão. Ayrton Senna já havia aparecido várias vezes na TV, dessa vez, em uma pequena reportagem para o programa Vitória, transmitido pela TV Cultura, é Maurício Gugelmin que é convidado a falar de Senna. Ele faz uma piada, menciona Senna como uma pessoa que tem sua vida regida pela sua principal atividade profissional, mas logo em seguida, Gugelmin faz questão de alegar que a vida de um piloto profissional também envolve um descanso e de que Senna não o deixa de exercer. No entanto, a fala de Gugelmin, que vem de supetão, coloca para fora a impressão de que muitos outros tinham de Ayrton Senna, um homem completamente focado e que fazia da vida competitiva da Fórmula 1 a sua própria vida, colocando em secundário as outras esferas da vida. Este retrato, aqui pintado e delineado por Gugelmin, é um retrato de quem como iniciante já tinha uma distância para com aquele de quem ele fala, que já havia se consolidado. Gugelmin poderia ser encarado naquele instante como uma promessa, tal como Senna havia sido encarado de maneira mais ou menos semelhante anos antes, mas com enormes diferenças. Porém nada que fizesse os outros olharem