Segundo McLuhan (1977: 160), “O simples aumento na quantidade do fluxo de informação favoreceu a organização visual do conhecimento”. A grande quantidade de texto escrito alfabético no jornal acentua essa necessidade de
uma classe composta por aqueles que sabiam ler e escrever e que, por serem os únicos a dominar a escrita, eram os responsáveis por realizar e organizar os registros escritos referentes à administração da nação.
Com o alfabeto ficou mais fácil aprender a ler e escrever e, assim, os monarcas deixaram de depender dos escribas para realizar estas tarefas e
organização, feita por meio da construção de uma hierarquia e também por meio da identificação e diferenciação. As variações dos tipos de fonte e do tamanho, o uso do negrito e a diagramação são as ferramentas utilizadas para o estabelecimento da ordem e da hierarquia, este espaço de encontro do caráter sucessivo do verbal escrito com a simultaneidade do visual e ponto de articulação dessas diferenças.
Tanto a Folha quanto o Estadão organizam o fluxo de leitura por meio de um texto de identificação construído pela tipografia, que organiza e classifica a informação dos textos alfabéticos. Todas as chamadas (incluindo a manchete) são impressas com uma tipografia escolhida especificamente para elas; o corpo das notícias, por sua vez, são todos impressos com uma outra tipografia usada apenas neste tipo de texto; já as legendas das fotos e as indicações das páginas possuem uma terceira tipografia específica, que identifica este tipo de texto, ao mesmo tempo em que o diferencia dos textos anteriores.
Analisando apenas os tipos presentes na primeira página já podemos identificar, agrupar e classificar os textos ali contidos: chamadas, corpo das notícias e informações complementares (legendas e paginação). O tamanho dos tipos estabelece uma hierarquização desses diferentes textos: a manchete é impressa em tamanho maior, as chamadas num tamanho intermediário, seguidas das legendas e do corpo das notícias. Tais características não-discretas e tipográficas da escrita alfabética integram a diagramação do jornal, funcionando como um elemento da linguagem gráfico-espacial dele.
puderam ganhar uma maior autonomia. Mas esta democratização da escrita instaurada pelo alfabeto não atingiu apenas os monarcas, ela se espalhou por todas as classes, fazendo com que a escrita deixasse de ser um privilégio da aristocracia.
Figura 5: Detalhe do jornal a Figura 6: Detalhe do jornal o Estadão 17/03/2006
Folha 26/02/2006
Na Folha, a manchete nem sempre é posicionada no topo da página, local em que a leitura tem início. Mas como o tipo usado para imprimi-la é bem maior do que o tipo dos demais textos ali presentes, ela se destaca e chama a atenção, sendo percebida e lida primeiro em relação aos textos posicionados antes dela no fluxo regular de leitura. Já na primeira página do Estadão, o posicionamento da manchete na parte superior reforça a ordem de leitura estabelecida pelo tamanho do tipo. As diferenças no posicionamento da manchete de um jornal para o outro explicitam que a ordem de leitura é orientada mais pela gradação do que pelo posicionamento do texto na página, até porque o conjunto dos elementos é percebido de forma simultânea.
A construção dessa ordem e hierarquia se dá tanto dentro de cada jornal, na ordem construída pelo enunciatário, quanto entre jornais diferentes, nas
Como já foi dito antes, o alfabeto fenício se disseminou, se modificou e incentivou outros povos a criarem seu próprio alfabeto, como o fizeram os hebreus, que desenvolveram o seu baseado no dos fenícios, inclusive mantendo a mesma ordem e os nomes do abecedário. Outro exemplo são os arameus, que desde o século IX a.C. também adotaram a escrita fenícia para
diferenças de ordem estabelecida por enunciadores distintos. É através da compreensão desta hierarquia que podemos verificar como cada tipo de jornal constrói sua estruturalidade específica e, a partir desta percepção, analisar pontos de convergência e divergência entre os diversos enunciadores que este meio de comunicação apresenta.
A hierarquia da legenda fotográfica apresenta diferenças da Folha para o Estadão, refletindo uma divergência na forma de apresentar a fotografia, nas relações estabelecidas por ela e na posição da legenda dentro da hierarquia dos diferentes textos do jornal. Ambos os jornais utilizam uma fonte diferenciada nas legendas das fotografias para facilitar a identificação deste tipo de texto mas, enquanto a Folha imprime a legenda das fotos em um corpo de fonte maior do que o utilizado no texto das matérias, em negrito e, em alguns casos, localizada ao lado da foto, o Estadão utiliza um tamanho muito próximo do empregado no texto das notícias, além de não fazer uso do negrito e de posicionar as legendas embaixo das fotografias. As características tipográficas e de localização espacial da legenda na Folha conferem a este tipo de texto um maior destaque dentro da diagramação gráfico-espacial. A legenda se sobressai mais do que o corpo das matérias, destacando o caráter informativo e noticioso da foto, portadora de significado próprio e não apenas um elemento de ilustração da notícia. Na Folha, a fotografia adquire um espaço próprio que, embora dialogue com o corpo da notícia, é independente deste. Já no Estadão a relação dialógica é reforçada, sendo fotografia, legenda e corpo da notícia elementos indissociáveis, a legenda não se destaca do texto, mas funciona como elemento harmonizador e integrador
os registros escritos da sua língua e, através de suas caravanas, deram continuidade à disseminação desse alfabeto. As inscrições aramaicas faziam uso de uma escrita derivada da cursiva fenícia e, mais uma vez, o suporte vem provocar mudanças: as folhas de papiro, gravadas com cálamo largo e curto pelos arameus, tornaram a escrita fenícia mais pesada e rígida do que seu
da notícia com a fotografia, articulando ambas de maneira a transmitir a informação de forma conjunta.
As características não-discretas da escrita alfabética aqui analisadas funcionam para organizar a informação e seu fluxo. A visualização da página do jornal por inteiro, com sua diagramação, o conjunto de linguagens que a constroem (espaço, texto, tipo, foto) e sua estruturalidade, permite ao leitor identificar os textos que serão lidos primeiro (como a manchete) e os textos que complementam outros (como a legenda, que complementa a fotografia). Essa organização nada mais é do que a configuração da estruturalidade desta mídia e, portanto, a construção de sua linguagem, que não é apenas alfabética e reconfigura o verbal escrito com características não-discretas e uma nova estruturalidade, diferenciando a escrita do jornal da encontrada em outros meios.