Chapitre 2 : Conduit échangeur à triple paroi - prototypes et modèle
2.3. E SSAIS DE CARACTÉRISATION DES PROTOTYPES
2.3.2. Résultats des essais sur le CETP-PI
O panorama de violência que marca o contexto social no Espírito Santo mobiliza, de acordo com Rebeca Valadão Bussinger (2010, p. 43) “atores sociais empenhados na luta em oposição a um sistema injusto e discriminador” O estudo empreendido pela autora com mulheres/mães vitimadas pela violência policial no Espírito Santo esboça características de uma pesquisa situada, interessada em investigar as relações de poder que se expressam através da violência policial contra jovens de classe pobre. O encontro da autora com as mulheres/mães, sujeitos da pesquisa, foi facilitada pela Amafavv – Associação de Mães e Familiares de Vítimas da Violência do Espírito Santo.
A Amafavv surge, de acordo com Rebeca V. Bussinger (2010, p. 44), da necessidade de dar diligência às investigações sobre crimes praticados contra jovens e adolescentes. Segundo ela, as mães buscavam isoladamente a justiça seja nos órgãos responsáveis ou nas entidades ligadas aos Direitos Humanos. Da relação entre as mulheres/mães e os grupos ligados aos Direitos Humanos vai emergindo a coletivização da luta, facilitada pelas participações em encontros, reuniões, etc, nos quais as mulheres vão se aproximando e implicando-se nas lutas de seus pares.
A Amafavv, que segundo a autora, foi fundada em 20 de junho de 2010, é concebida com contornos de organização social com modelo estruturado: possui endereço fixo, uma sede ampla e possui um cadastro formado por 250 mães e familiares associados. A sustentabilidade dessa organização é assegurada pelas parcerias que mantém e que viabilizam a infraestrutura para o desenvolvimento da agenda de atividades: eventos, reuniões, etc. Além disso, a associação capta recursos por meio de contribuições dos associados, parceiros e pessoas em geral. (Bussinger, 2010, p. 44).
Rebeca Bussinger avalia que, mesmo o reconhecimento por parte do Estado da injustiça praticada, ainda que inclua indenizações como forma de a reparação, não são suficientes para se dimensionar a amplitude ética, social e política que movimentos desta natureza possam vir a assumir, movimentos que, na sua percepção, insistem em não se resignar ante as injustiças, tendo como ideologia a “resistência à arbitrariedade, à opressão e à violência cometidas pelo Estado e o fortalecimento daqueles que defendem a vida” (BUSSINGER, 2010, p. 47). A autora realizou entrevistas com mulheres/mães que integram a Amafavv, todas elas vitimadas pela violência praticada por antes do Estado, tendo recorrido ao conceito de representação social54, oriundo da Psicologia Social, para analisar o universo dessas mães, universo que segundo ela “ se constituiu de um evento violento e marcante em suas vidas” (BUSSINGER, 2010, p. 48). Ela considera que a realidade tomada para análise apresenta um “universo simbólico complexo em que se intercruzam movimentos de reprodução, de resistência e de transformação dos atores e das práticas sociais” (BUSSINGER, 2010, p. 48), e neste sentido o conceito de representação social é uma ferramenta na busca de compreensão desta complexidade, ou, em outras palavras, do sistema de valores e significados que fazem parte do grupo estudado.
Segundo Bussinger (2010), as representações têm, na abordagem adotada, uma função prescritiva ou instituinte, na medida em que é resultado de uma combinação das estruturas que são anteriores ao pensamento com uma certa tradição, que determina o que deve ser pensado. Nestes termos, ela produz deslocamentos, alterações, mudanças, nas formas de pensar ou agir. Está relacionada com os aprendizados construídos na experiência o que significa dizer que a representação social é uma categoria útil à compreensão sobre a reconstrução que vivem as mulheres/mães no luto e na luta. No presente estudo, defendemos que tais experiências e aprendizados, ao produzirem deslocamentos, sofreram a ação da articulação de marcadores sociais gênero, raça e classe, que, ao acionarem a consciência sobre a opressão e produzem o ativismo. É a própria autora quem nos oferece elementos para esta análise quando, ao descrever o perfil dos grupos em questão, os define como constituído por “mulheres residentes em grandes centros urbanos, em sua
54 Rebeca V. Bussinger adota no seu trabalho o conceito de representação social originado da Psicologia
maioria nas periferias, com baixa escolaridade e desempenhando tarefas quase sempre ligadas aos tradicionais papéis femininos: donas de casas, babás, domésticas, entre outras funções” (BUSSINGER, 2010, p. 48). Tal descrição faz referência aos lugares subalternizados da sociedade, sempre destinados às mulheres negras. Esta descrição cumpre um importante papel no sentido nos fazer compreender tais movimentos como coletivos que, embora constituídos de mulheres cujas experiências são exemplos de arranjos interseccionais, são exemplos de deslocamentos de significados, sentidos, conhecimentos, etc. A consciência sobre a opressão de gênero, raça e classe é o capital que circula nos movimentos, potencializando os sentidos de justiça, produzindo o ativismo através das suas variadas formas. Embora limitada, a análise aqui desenvolvida sobre a Amafavv, fornece indicativos de que esta organização conquistou visibilidade ao longo da sua história. Verificamos a sua presença em matérias jornalísticas sobre ações das redes de enfrentamento à violência.
Na pauta de reivindicações deste movimento, encontra-se, entre outros, os seguintes pontos:
construção de um laboratório para exame de DNA no Espírito Santo, para atender famílias carentes que, porventura precisam identificar restos mortais de familiares desaparecidos; disponibilidade de dois advogados – um criminalista e um civil – pagos pelo Estado para atender às famílias carentes que necessitam do seu serviço e investigação de crimes praticados por policiais pela Polícia Federal (BUSSINGER, 2010, p. 45).
Considero que os pontos em destaque, assim como os demais citados pela autora, são representativos no sentido de expor características comuns entre movimentos de diferentes Estados. São perceptíveis, no grupo que será descrito a seguir, o Grupo pela Vida, de Salvador, semelhantes inquietações e angústias, aquelas tomadas como pontos de reivindicação pela Amafavv/ES.