Chapitre 2 : Conduit échangeur à triple paroi - prototypes et modèle
2.3. E SSAIS DE CARACTÉRISATION DES PROTOTYPES
2.3.1. Résultats des essais sur le CEDP-PI
Até aqui seguimos argumentando que, embora as re-existências produzidas pela militância possam não ganhar grande visibilidade, e ainda que, algumas vezes as experiências de luta sejam atravessadas por práticas reprodutoras da lógica de dominação, muitas existências são ressignificadas a partir da militância, ao tempo em que novas percepções sobre poder vão se formulando a partir dos contra-discursos. Neste sentido, compreendo a emergência do Movimento Mães de Maio, como um fato social associado às lutas empreendidas pelos movimentos precursores. O movimento surge no Brasil num contexto em que vozes dispersas já haviam injetado no tecido social o debate sobre a violência policial contra jovens. Dentre essas vozes o “Mães de Acari” deve ser sempre lembrado como importante precursor na história de movimentos protagonizados por mulheres/mães em luta contra a violência que atinge jovens. Chacinas como Acari, Candelária, Vigário Geral e outras começaram a acontecer na década de 1990, inserindo-se no espaço público de discussões a partir da denúncia de sobreviventes, segundo Fábio. A. de Araújo (2007, p.34). Dessa forma inauguram no Brasil um modelo de luta social no qual mulheres se colocam frente ao Estado em combate, motivadas pela violência que, ao ferir a sua maternidade, atinge as suas vidas.
O Movimento Mães de Maio é concebido, portanto, num terreno regado pelas lágrimas de muitas mães, lágrimas cujos agentes causadores se mantiveram no sistema que segue articulando o capitalismo e o racismo, produzindo novas vítimas. O movimento surge dos chamados “Crimes de Maio” que vitimaram 560 pessoas no ano de 2006 vem se caracterizando pela sua atuação numa abrangência geográfica que vai muito além das fronteiras onde ocorreu a chacina: o Estado de São Paulo. A reconhecida visibilidade do movimento faz justiça à incansável luta de suas militantes, seu engajamento e notável capacidade de articulação com diferentes segmentos da sociedade: jornalismo, organizações sociais, outros movimentos de mulheres, etc. Ao longo da sua primeira década de existência o Movimento Mães de Maio vem se inscrevendo na história de movimentos sociais, desenvolvendo características identitárias que parecem anunciar uma transição no modelo de militância.
Na sua origem, as motivações são comuns aos demais movimentos. De acordo com matéria “Mães de Maio: a reação contra a violência do Estado”,
publicada pelo Brasil de Fato, portal eletrônico, em 13 de maio de 2016: “O gritante número de assassinatos e o desinteresse da Justiça em punir os responsáveis deu origem ao movimento Mães de Maio, formado principalmente por familiares das vítimas do massacre.” Segundo a matéria citada, que toma como referência os números da ditadura a civil militar, 53 a chacina que deu origem ao movimento é maior do século 21 e talvez a maior do Brasil.
A iniciativa de criação do movimento surgiu de Débora Silva, mãe de um dos 560 jovens assassinados e que na época da chacina morava em Santos. Débora Silva define a iniciativa como um legado que recebera do seu filho Rogério, que teve a vida ceifada. Em depoimento ao livro “Mães em Luta: dez anos de crimes de Maio” (2016, p. 51) Débora Silva descreve a experiência que levou à formação do movimento: “O grupo nasceu de um legado do Rogério e quem me dá esse protagonismo é ele. Sou vítima do Estado não só no dia das mães, mas no direito de não mais comemorar o meu aniversário, como todas nós. O Estado destruiu a minha família”. A notoriedade que Débora Silva ganhou, transformando-se num símbolo nacional da dor e da luta das mães vitimadas, certamente está associada à sua dedicação integral às ações do movimento, à sua admirável disponibilidade de engajamento em ações realizadas em diferentes partes do Brasil e do mundo.
Os relatos sobre a atuação do Mães de Maio apontam para um enredamento da luta das mães vitimadas pela chacina com outras mães vítimas de outras chacinas e outros crimes, em diferentes Estados. Esta perspectiva é encontrada em alguns dos relatos de Débora Silva:
O Mães de Maio é um movimento de mulheres donas de casas, mas que aprendeu, ao longo desses anos, a trabalhar com esse sistema. E quando as donas de casa saem de suas casas e começam a militar perante o Brasil, acabam ultrapassando as fronteiras. O nosso grito é um grito que tem que ecoar porque nosso país é um país omisso. É inaceitável que em maio de 2006, no espaço de uma semana, se matem mais de 600 pessoas (Brasil de Fato, 13 de maio de 2016).
Neste sentido, o movimento esboça uma ramificação que se expande numa abrangência maior, perspectiva encontrada também nas palavras de Gisele Brito, jornalista que assina a matéria:
53 De acordo com a matéria do Brasil de Fato, a ditadura civil-militar vitimou, durante 21 anos, 434
pessoas. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2016/05/13/surgido-da-dor-maes-de-maio - se-tornam-referencia-no-combate-a-violencia-do-estado/>. Acesso em: 30 de novembro de 2016.
Mais do que justiça para os próprios filhos, as Mães construíram, ao longo dos anos de atuação e luta, um movimento social de combate aos crimes do Estado ocorridos durante o período democrático, e se transformaram em referência para outras famílias preocupadas com a marcha fúnebre que vitima milhares de pessoas todos os anos no Brasil (Brasil de Fato, 13 de maio de 2016).
O impulso que faz o movimento se expandir e ultrapassar fronteiras, diz respeito a uma característica metodológica marcante, a multiplicação, por sua vez indissociável das características do perfil de atuação de Débora Silva, presente também nos seus depoimentos ao livro Mães em Luta (2016): “De lá pra cá a militância ficou pequena. Fui pra São Paulo, ficou pequena. Depois pra Brasília. Também ficou pequena. Já fui três vezes este ano para os Estados Unidos.” (p.51). Deslocamentos, articulações interestaduais e até transnacionais, ampliação dos debates, construção de parcerias parece indicar a construção de um pensamento sobre uma forma específica de feminismo, um pensamento que agrega discussões sobre as matrizes de dominação, sobre como as formas de exclusão se articulam. As articulações em rede constroem agendas únicas de viagens, debates, ações, como veremos posteriormente. Durante evento de lançamento do livro Mães em Luta realizado na Reitoria da Universidade Federal da Bahia, em 6 de abril de 2016, Débora Silva afirmou que tem realizado viagens para realizar ações de formação com mães informando que tais ações irão se ampliar para a Bahia, onde pretende desenvolver formação com mães. O novo lugar, o lugar da mãe violada no seu direito à maternidade, da mulher vitimada pelo Estado, abarca todos os sentidos das experiências anteriores, onde se desenhavam as relações de poder, agregando- os aos novos sentidos produzidos pela perda.
Os encontros de formação se constituem numa busca de saber sobre si mesmas, e de compreensão sobre suas construções identitárias, na redefinição de lugares nas relações que estabelecem com o Estado, instituições, sociedade em geral. Este conjunto de relações se organiza segundo os sentidos que o gênero inscreve continuamente na história, mas também se altera pela força das tensões que as novas práticas produzem sobre este conjunto de relações. As pistas deixadas por Coulouris (2004) sobre o fato de que as relações de gênero "se consolidam enquanto continuidades históricas, mas também se alteram, se deslocam, se modificam em um processo ininterruptos de lutas e embates." (COULOURIS, 2004, p. 12) iluminam a reflexão sobre as transformações
flagradas no campo das lutas das mulheres/mães, bem como sobre instabilidades na ordem das relações.
Outras formas de mobilização são identificadas no universo de experiências de mulheres/mães que transformam em luta o luto pelo filho cuja vida foi ceifada. Descreverei a seguir uma experiência de que se consolidou no Estado do Espírito Santo e que representa um exemplo de como este tipo de militância pode ganhar contornos de organização social.
4.3.3 A experiência da AMAFAVV – Associação de Mães e Familiares