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Règles d’échantillonnage et d’extrapolation

Dans le document Programmation 2014-2020 (Page 42-49)

A Revolta dos Urubus

A terra beijando os defuntos Um beijo gelado

Um beijo profundo Estão sugando o sangue Que corre em tuas veias E não esperneia

E ainda existe mistérios Ninguém sabe por que

Os urubus invadindo necrotérios E devorando alguns defuntos velhos E ainda sobrevoam os cemitérios E não encontrando nada pra comer Matam pessoas e esperam a apodrecer Coisa do Diabo

Coisa do além Coisa do inferno Coisa igual não tem São uru urubus ei ei ei São uru urubus ei ei ei...

O Grupo Capú tem no ano de 1982 a primeira experiência com a censura do regime militar após a tentativa de apresentação da música “A Revolta

dos Urubus”, no Festival Acreano de Música Popular do mesmo ano.

A música “A Revolta dos Urubus” apresenta uma temática bem peculiar, no que diz respeito a sua temática. Esta música estava programada para ser apresentada no FAMP assim como outra música intitulada “S.O.S”.22

Embora ambas as músicas possuíssem temáticas bastante contestatórias, principalmente no que diz respeito a política que estava implantada no país e também ao sofrimento que a população vivia no período, curiosamente somente a canção “A Revolta dos Urubus” não teve permissão para ser apresentada.

O músico Clenilson Batista comenta que quando estava prestes a apresentar a música, em um show em frente ao Palácio Rio Branco:

Aí, a gente, pô, ensaiando a música em cima do palco, aí chega o cara: - atenção, músicas que não poderão ser tocadas nesse palco: tal, tal, tal, tal e

“A Revolta dos Urubus”. (...), E S.O.S passou e ninguém entendeu como é que passou pela censura.23

Clenilson Batista ainda lembra que quando a música foi impedida de ser apresentada, todo o grupo ainda tentou argumentar que a música se consistia apenas em uma paródia do filme de um filme de terror. Mas os censores, logo ao verem o conteúdo da música logo constataram o teor subversivo da música.

A música “A Revolta dos Urubus” de autoria de Clenilson Batista, foi uma música composta especificamente para mostrar ao público a política do medo e o terror praticado Regime Militar instaurado no Brasil no dia 1° de abril de 1964. Esta música se constitui em uma metáfora tendo como comparação o filme “Os

Pássaros”24, dirigido por Alfred Hitchcock.

O filme “Os Pássaros” apresenta uma história em que, numa determinada cidade começa a aparecer, de repente, pássaros que passam a atacar a população com bastante violência sem um motivo explicitamente aparente. No filme não há a presença de um assassino ou vilão, o que faz surgir um medo psicológico e o medo das dores causadas pelos ataques dos pássaros.

Assim como no filme, em “A Revolta dos Urubus”, o compositor tem o foco principal o medo psicológico das pessoas de algo que não deveria oferecer perigo. Assim, os urubus são comparados aos militares que, com sua política fortemente opressora, passam a atacar a população sem um motivo aparente.

A parte inicial da música demonstra todo o sofrimento que o Brasil estava passando com a política da ditadura militar. Nos versos “a terra beijando

defuntos/um beijo gelado/um beijo profundo”, o autor denuncia o assassinato de

diversas pessoas que tinham ideias avessas ao regime militar. Mais adiante, nos versos “estão sugando o sangue/que corre em tuas veias/e não esperneia”, demonstra que além dos vários assassinatos, a política ditatorial brasileira se mantém inflexível com a implantação dos Atos Institucionais que estão cada vez mais suprimindo a liberdade civil dos brasileiros.

No final da música o autor enfatiza que o Brasil está passando por uma realidade nunca vista antes, uma realidade inimaginável, coisa do diabo, coisa do

além.

23 Entrevista realizada no dia 12 de dezembro de 2013.

24 PASSAROS, Os. Direção de Alfred Hitchcock. Roteiro de Evan Hunter. Produção Universal Pictures. Distribuição Espaço Filmes. 1963. Duração 119 Minutos.

O músico Clenilson Batista demonstra um carinho especial pela música “A Revolta dos Urubus”, pois em determinados momentos em que não era possível cantar a canção na sua forma literal, o artista procurava cantar a música de forma que fosse possível ser apresentada, utilizando o recurso de cantar a música de forma invertida.

isso é uma das formas que a gente encontrava pra fazer as coisas, (...) como por exemplo, cantar algumas músicas como se fosse em inglês, como “A Revolta dos Urubus” cantar ela ao contrário. Você tá disparando ela do mesmo jeito, só não tá dentro da coisa correta. Essa é uma forma de burlar e curtir com a cara dos caras. (...), essa era uma saída também bastante interessante.25

O uso de outros recursos como a inversão na forma de cantar as músicas demonstra, além da riqueza poética que “A Revolta dos Urubus” possui em sua composição, apresenta também uma riquíssima criatividade na sua forma de apresenta-la ao público.

S.O.S.

A espaçonave vai cair, vai cair Do espaço sideral

E assombra esse povo, esse povo Que mendiga capital

E então pede socorro nosso povo Que ainda paga pra nascer (bis) ê ê ê la lauê, la lauê iê iê iê (bis) Se lhe imitasse a inflação, a inflação A vida ia melhorar

Pobre ia ter o que comer, o que comer Carne, arroz, café e pão

Mas então pede socorro nosso povo Que hoje vive por viver (bis)

ê ê ê la lauê, la lauê iê iê iê (bis) Se lhe imitasse o dinheiro americano A vida ia melhorar

E o Cruzeiro ia ter nome de dinheiro E o Brasil uma lição

Mas então pede socorro o nosso povo Que hoje vive de aluguel (bis)

A música intitulada “S.O.S” se constitui em uma das músicas de maior destaque do Grupo Capú. Composta por Clenilson Batista e Clevisson Batista em

1981, a música foi defendida no FAMP do mesmo ano. Na ocasião, a música foi premiada com o segundo lugar, o que demonstra um relativo destaque do grupo na cidade de Rio Branco.

A música foi escolhida pelo grupo para concorrer no FAMP juntamente com a música “A Revolta dos Urubus”, mas apenas “S.O.S” não foi censurada pelos militares. Pode-se observar que a não-censura da música demonstra um certo “afrouxamento” da perseguição por parte dos órgãos repressores.

“S.O.S” foi composta a partir de um evento histórico que ficou conhecido mundialmente em vários lugares do planeta: o anúncio da NASA de que o Skylab26 havia saído de órbita e iria cair na terra, o que espalharia medo e terror a grande parte da população mundial.

Já no título da música, o compositor nos remete a um sinal de emergência: o anúncio da queda de uma espaçonave traz para o povo brasileiro uma preocupação adicional além do seu principal assombro: a sobrevivência. O compositor já nos versos iniciais nos dá um impacto com a realidade em que o país está vivendo, onde o povo “mendiga capital”.

Além da pobreza, outro grave acontecimento está sendo denunciado pelo autor. Nos versos “e então pede socorro nosso povo/que ainda paga pra

nascer” é explicitado a alta taxa de impostos que a população está pagando. Mais à

frente, o compositor, tendo como parâmetro o estado norte-americano nos traz uma dica de que se o Brasil “lhe imitasse a inflação/a vida ia melhorar”. Para o autor, não seria necessário o Brasil construir espaçonaves, mas somente imitar o dinheiro americano, fazer com que a moeda brasileira tivesse um maior valor.

É importante ressaltar as graves dificuldades que o Brasil estava passando no período final da ditadura. O governo do general João Batista Figueiredo foi marcado por grandes dificuldades de controle da inflação. A economia mundial entrava em crise aumentando consideravelmente a quebra da economia brasileira.

“S.O.S”, possui harmonia marcada pelo compasso quatro-por-quatro, com vocalizações sincronizadas e ao fim das estrofes são cantados os “la lauês”

26 Literalmente “Laboratório Espacial”, foi uma estação espacial norte-americana lançada em órbita no ano de 1973 para realizar estudos e observações solares. Medindo 36 metros de comprimento e com peso superior a 90 toneladas, o Skylab saiu de órbita e destruiu-se prematuramente em 1979, caindo no oceano índico e parte da Austrália. O projeto é considerado uma das grandes trapalhadas da NASA.

característicos do som dos Beatles. O que faz dessa música uma clara produção de influência dos garotos de Liverpool. Ao mesmo tempo em que é agradável aos ouvidos com melodia beatlemaníaca, esta música nos permite compreender, ainda que de forma sucinta, o contexto em que o Brasil estava passando no início dos anos 80.

Seringal Astral

Somos da via látex Somos da via látex E é do, E é do Seringal, Seringal Seringal Astral Seringal Astral Do Planeta ouryço Da constelação castanha Que fica no ramal No ramal eletrônico Na colocação astral Espiritual e Místico Místico uôôu Místico uôôu Somos da via látex Somos da via látex E é do, E é do Seringal, Seringal Seringal Astral Seringal Astral Temos palhoçalab Na borracholândia Nossas Sernambi-naves Na beleza panorâmica Energia sonora E borrachas cósmicas Cósmica Uaaau Cósmica Uaaau Somos da via látex Somos da via látex E é do, E é do Seringal, Seringal Seringal Astral Seringal Astral

Das estradas de luzes E porongas fluídicas Das fontes luminosas De cores harmônicas Do bosque da música Das astrais sinfônicas

Sinfônicas Uaaau Sinfônicas Uaaau Somos da via látex Somos da via látex E é do, E é do Seringal, Seringal Seringal Astral Aqui é do Acre Aqui é do Acre Acre iiii Acre iiii...

Em “Seringal Astral”, a apresentação musical do Grupo Capú passa a ganhar a concepção de um espetáculo. Aqui, o ato de “cantar” se torna apenas mais uma das formas de levar a mensagem para o público. A partir do ano de 1985, os irmãos Clenilson Batista e Clevisson Batista compõe a música “Seringal Astral” e com esta música, passam a incorporar ao Grupo Capú a teatralização musical.

No ano de 1985, “Seringal Astral” foi apresentada pela primeira vez no SESC em Rio Branco. Esta música é apresentada ao público através de um espetáculo intitulado “Jornada Cósmica”, se tornando a primeira ópera-rock exibida na cidade rio-branquense.

Nesta música, Clenilson Batista parte para uma temática musical jamais abordada dentre os compositores acreanos, criando uma nova concepção cosmológica, uma nova dimensão do real. Através de experimentalismos, adicionando temas fantasiosos, o Grupo Capú convida o público acreano para conhecer o “Seringal Astral”.

No espetáculo “Jornada Cósmica”, através da música “Seringal Astral”, é contada a história de uma pessoa que, durante a apresentação da música morre, e vai parar em uma outra dimensão chamada Seringal Astral. E no momento em que ela morre, passa a descrever como é o Seringal Astral, através de uma transmissão chamada “rádio mental”. No espetáculo, o sujeito que morre só pode ressuscitar ao som de música e com fortes energias cósmicas enviadas pelo público.

Toda a descrição de Seringal Astral é recebida pelo público a partir do momento “o ente morto” de dentro dessa outra dimensão, passa a transmitir o que é o Seringal Astral. Este, tem sua localidade dentro da via látex, no planeta Ouryço, dentro da Constelação Castanha. Nestes versos, podemos perceber a mistura de elementos regionais, com narrativas indígenas misturados a características científicas e tecnológicas, onde se chegava através de um ramal eletrônico. Com

a música Seringal Astral, podemos perceber a utilização do regional e do universal. O autor se apropria da linguagem universal do rock e toda a sua filosofia e faz experimentalismos com a cultura amazônica, onde no seringal astral existem “naves espaciais feitas de sernambi”.

No documentário intitulado “A História do Grupo Capú”, em depoimento, Clenilson Batista comenta como surgiu a ideia de criação do espetáculo “Jornada Cósmica”:

(...), eu entro com uma linha Kardecista e Espírita, aí eu trago a ideia de um espetáculo chamado “Seringal Astral”, onde as pessoas só entrariam dentro dele se acreditasse em Deus e tivesse amor no coração. (...), e foi o momento em que eu tomava então, começava a tomar partido de uma linha de pensamento, uma linha filosófica, de pensar. E o Seringal Astral, ele vem com essa ideia de transformação social, mostrar a ideia das coisas.27

O momento de criação do espetáculo de “Jornada Cósmica” foi um momento crucial na história do Grupo Capú, pois significava para o grupo a tomada de uma linha de pensamento. Essa linha filosófica incorporada por Clenilson Batista, também trouxe algumas significativas mudanças no conjunto, pois significou a saída de João Veras do Grupo Capú.

Enquanto Clenilson Batista incorpora elementos transcendentais para o grupo, João Veras, por não possuir a mesma linha de pensamento tem sua participação no grupo interrompida, já que tinha forte influência marxista.

Esta nova concepção idealizada por Clenilson Batista trouxe forte impacto a todos os músicos do grupo. O que fez com que houvesse brigas e desentendimentos, principalmente entre os irmãos compositores. Embora Clevisson Batista tenha escrito a música junto com Clenilson Batista, não houve um consenso sobre do que se tratava realmente o Seringal Astral.

Posicionado como principal liderança do Grupo Capú, Clenilson Batista sentiu a necessidade de reinventar a temática musical do grupo, o que seria compreensível as dificuldades em criar Seringal Astral.

Dans le document Programmation 2014-2020 (Page 42-49)

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