CHACON aponta como uma grande pretensão definir o rock em um conceito pronto e acabado. Ao contrário, o historiador mostra o rock dentro de um sentido bastante polimorfo no tempo e no espaço. Dessa forma, o que pretendemos apresentar neste capítulo é a maneira que o rock vai se recriando no tempo e no espaço desde o seu surgimento a partir dos anos 50 do século XX.
Desde o seu surgimento, o rock sempre foi associado à um tipo especial de música. Embora que para um leigo no assunto possa causar bastante estranheza, o rock não pode ser associado apenas ao ritmo ou a letra. Ao compreender sua história, podemos perceber que houve uma profunda penetração em uma parcela cada vez mais significativa da sociedade – principalmente com os jovens - e se tornou uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de comportamento.
O historiador Paul Friedlander afirma que em suas origens, o rock é essencialmente uma música afro-americana. Os ritmos sincronizados, a voz rouca e sentimental e as vocalizações de chamado-e-resposta características dos trabalhadores negros eram parte da herança da música africana e tornaram-se os pilares com os quais o rock foi construído. (FRIEDLANDER, 2008, p.31) Assim daremos neste capítulo um panorama das raízes musicais do rock, tanto as negras quanto as brancas.
É o rhythm and blues o principal pilar da música rock tal como conhecemos hoje. Reprimidos pela sociedade anglo-saxônica e protestante, a mão- de-obra negra, desde os tempos da escravidão, se refugiava na música e na dança para dar vazão, pelo corpo, ao protesto que as vias convencionais não permitiam. Nos anos 30 e 40 do século XX, após seus milhões de mortos, muitos negros começaram a se perguntar sobre o real valor da vida e sobre o sentido de se
defender um modelo de comportamento que levaria multidões ao holocausto. Foram esses questionamentos alimentados pela guitarra elétrica que iria atrair multidões de jovens, inicialmente americanos mas logo por todo o mundo ocidental que criaria um estilo de vida próprio.
Outra importante vertente do rock consiste na música country. Esta tipologia musical representou a versão branca para o sofrimento dos pequenos camponeses, na qual estaria ligada à música cowboy do oeste. O country deu origem a um estilo pouco penetrado pela música negra, mas teve um considerável peso no interior dos Estados Unidos. As letras cantadas no estilo country tinha na maioria das vezes características populares de dor, resistência passiva e lamento, e, por vezes, atingiam um tom bastante crítico e bem mais ativo no que diz respeito ao protesto.
Para FRIEDLANDER, o rock explodiu no cenário americano em meados dos anos 50. Inicialmente chamado de rock and roll, esta música se desdobrou em duas gerações. A primeira, predominantemente negra, era formada por Fats Domino, Chuck Berry, Little Richard e Bill Haley. Eles conquistaram sucesso nas paradas populares entre 1953 e 1955, iniciando a escalada como pioneiros do rock. Sua música, uma síntese dos estilos branco e negro e dominada por um forte acompanhamento de bateria, exibia letras que celebravam as experiências de vida dos adolescentes do pós-guerra, como amor, dança, alusões ao sexo e o próprio rock and roll.
Foi na segunda geração do rock onde o gênero atingiu um grande sucesso comercial chegando a superar a primeira geração rockeira, tendo como principal ícone Elvis Presley no começo de 1956. Este grupo predominantemente branco, teve nomes de grande sucesso como Jerry Lee Lewis, Buddy Holly e The Everly Brothers. Ao mesmo tempo em que garantiu ao rock and roll uma sucessão ao trono da música popular como um estilo, foi um pouco menos estridente que os roqueiros da geração negra, falando muito mais do amor entre os jovens do que suas angústias.
No início da década de 1960 ocorre uma profunda transformação no rock, onde este deixa de ser uma música basicamente estadunidense e ganha ares internacionais chegando também na Inglaterra.
FRIEDLANDER (2008), explica que em terras inglesas os Beatles trilharam um caminho que nunca tinha sido explorado antes. Sua música e letras os
levaram a direções desconhecidas e eles foram seguidos de perto por uma multidão de outras bandas e artistas musicais. Seu impacto no mundo ocidental foi enorme. Até então, nenhum rockeiro havia usando cabelos longos na altura dos ombros antes. Mas não houve apenas mudança estética: nas composições musicais foram abordadas novas questões culturais e políticas.
O grande sucesso dos Beatles aliado às explosões tecnológicas de comunicação e marketing, permitiram que os Beatles transmitissem suas mensagens musicais e culturais e o conteúdo de suas letras para um número muito maior de pessoas, o que nenhum outro artista havia conseguido antes deles.
Os Beatles criaram um som original que fundia elementos de todas as raízes musicais do rock and roll. Eles adotaram o formato de duas guitarras, baixo, bateria, assim como sua visão adolescente de amor, geralmente assexuada. O manejo das letras de rock lembrava Chuck Berry e as influências vocais eram de Little Richard e dos Everly Brothers.
Durante todo o ano de 1963 a popularidade dos Beatles cresceu a tal ponto na Inglaterra que, por volta do fim do mesmo ano o seu público estava totalmente fora de controle. Este fenômeno seria um pouco mais tarde denominado de Beatlemania.
Friedlander explica que
Os Beatles, assim como Elvis, foram parte de um momento. Sua popularidade coincidiu com a grande expansão da tecnologia das comunicações. [...]. A Beatlemania se desenvolveu nos cinco continentes. Devido à deificação da banda, assim como seu impacto significativo nas culturas britânica e americana, o marketing e a subsequente proliferação da cultura popular ocidental pelo mundo fizeram dos Beatles a força musical mais poderosa da história. (FRIEDLANDER, 2008, p.148)
Durante o período em que atuavam, os Beatles desenvolveram idéias musicais de forma original. O material produzido continha uma crescente complexidade harmônica e rítmica, além de uma instrumentalização bem diferenciada. O sucesso comercial até então alcançado assegurou a divulgação dessas idéias para um numeroso público.
Claramente pode-se observar que os Beatles tiveram grande influência do rock and roll dos anos 50 e com sua contribuição, expandiu as fronteiras do rock. Se apropriaram do rock clássico e fizeram inovações musicais importantes. Os temas e as idéias contidas em suas canções refletiam a consciência não só dos membros da banda, mas também da crescente contracultura da época.
Também na década de 60, juntamente com os Beatles, aparece no cenário inglês outra banda de grande importância para a história do rock: os Rolling Stones. No início do ano de 1963, enquanto os Beatles já alcançara grande sucesso de público, os Rolling Stones já estavam começando a fazer suas primeiras apresentações musicais.
Retirando o seu nome da música Rollin’ Stone, um blues de Muddy Waters, a banda capitalizou a agressividade e a crueza da música negra americana. Os Stones se diferenciavam dos demais músicos dos anos 60 principalmente pelo seu comportamento sexual, com agressividade e crueldade.
No campo musical, a banda reproduziu muito dos atributos estilísticos da música negra, principalmente pela preferência por músicos de rhythm and blues: a pronúncia arrastada e emocional, o vocal agressivo e sua presença de palco sensual e vigorosa.
Durante anos de atuações, os Rolling Stones criaram trabalhos multifacetados que estão entre os melhores da época. Iniciando seus trabalhos musicais tratando sobre temas como adolescência e sexualidade, os Stones também trataram de temas mais abrangentes que chegaram até uma abordagem introspectiva e social.
No final dos anos 60 e início dos anos 70 do século XX ocorre uma grande mudança na música rock. Este período é marcado pela expansão rápida de tamanho e poder da indústria musical. A vendagem de discos alcança pela primeira vez na história em 1967 a marca de um bilhão de discos e quatro bilhões em 1973, ultrapassando outras indústrias de entretenimento como o cinema e os esportes. Com isso, a música rock alcança um patamar de Grande Negócio.