O rock chegou ao Brasil através de um veículo de bastante influência no país: o cinema. “The Blackboard Jungle”, do diretor Richard Brooks, no ano de 1955 foi estreado no Brasil. Batizado de “Sementes da Violência”, este filme trazia como trilha sonora um grande sucesso gravado um ano antes pelo conjunto Bill Haley and His Comets. Devido ao seu grande sucesso e a sua forte influência no Brasil, não demorou muito para que um cantor brasileiro gravasse uma canção de rock and roll no país. Nora Ney canta a música-trilha em português.
No ano de 1956, o diretor Fred F. Sears lança outro filme que causaria um considerável impacto em terras brasileiras. Chamado de “rock around the clock” (no balanço das horas), este musical trazia performances de Bill Haley and His Comets, Little Richards e The Platers, entre outros. Após este filme, surgiria algo mais do que apenas versões “aportuguesadas”. Dessa vez, surgiria no ano de 1957 a primeira canção de rock de cunho nacional. “Rock and roll em Copacabana”, de Miguel Gustavo, interpretada por Cauby Peixoto.
Transformações como estas, fez com que pouco a pouco o Brasil - principalmente através das rádios e dos programas de TV - permitisse a entrada e expansão do Rock and Roll no país. No final da década de 50 já começava a surgir programas tanto no rádio como na TV dedicando exclusivo espaço para o novo gênero musical, como o caso do “Clube do Rock” na Tupi, apresentado por Carlos Imperial e “Os Brotos Comandam” (na Guanabara). Fato este que despertou grande interesse nas gravadoras que passaram então a correr atrás desse novo estilo musical.
No ano de 1959 surgem os primeiros astros de rock no Brasil. Os irmãos Celly e Tony Campelo lançam Estúpido Cupido28, uma versão de Stupid Cupid de
Neil Sedaka. Com este grande sucesso, Celly transforma-se em ícone da juventude e passa a apresentar o programa “Crush em Hi-Fi” na TV Record de São Paulo. Após o grande sucesso alcançado pelos irmãos Tony e Celly Campelo, passam a surgir casa vez mais novos cantores de rock influenciados pelos programas de rádio e TV. Arthur Dapieve afirma que
28 Esta música causou tanto sucesso entre os brasileiros que daria título a novela de mesmo nome, de Mário Prata, pela TV Globo no ano de 1976/77.
Além dos astros solo, o sucesso dos Campello foi espalhando pelo país uma constelação de grupelhos, quase todos com nomes em inglês – The Fevers, The Pops, Renato & Seus Blues Caps, The Clevers (mais tarde Os Incríveis), The Sputniks. (DAPIEVE, 1995, p.13)
No ano de 1965 acontece um fato que trará implicações fundamentais na história da música no Brasil. Os clubes de futebol proíbem as transmissões de seus respectivos jogos na TV nas tardes de domingo. Através deste espaço disponível na TV, o proprietário da TV Record, Paulo Machado de Carvalho ocupou este horário vago para transmitir o programa “Jovem Guarda”. Este consistia em um programa de auditório que tinha como seus principais representantes, astros como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia Salim, Renato & seus Blue Caps, Martinha, Golden Boys, entre outros.
No final da década de 1960, surge o Tropicalismo. O movimento tropicalista tinha à frente a dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil no qual fizeram uma releitura da Bossa Nova, incorporando inovações na linguagem, no visual e na performance. Parece ter sido, do ponto de vista intelectual e mesmo como referência a questões colocadas pela escola de Frankfurt, um dos mais significativo para a música brasileira.
O tropicalismo tinha como principal objetivo trabalhar além de uma nova forma musical, propunha também uma inovação na temática das músicas, o que consequentemente causaria um rompimento com a Bossa Nova. Assim, não importava se o movimento estivesse ligado à direita ou à esquerda. Por não ter um caráter esquerdista ou conservador, o movimento não foi compreendido por grande parte dos músicos, pois a Tropicália passou a ser fortemente criticada.
O Tropicalismo funcionou como uma espécie de fusão entre rock e a tradicional MPB. E foi justamente a incorporação das guitarras elétricas à música popular brasileira, que produziu ema espécie de ódio entre a comunidade roqueira e os músicos combatentes do estrangeirismo.
Assim, a importância de tal movimento pode ser descrita como uma reviravolta nos conceitos empregados até então para classificar algo como regional ou global, tendo em vista que por meio da apropriação de elementos estrangeiros, somando-se o que vinha de sua própria terra, foi criado algo novo, não se limitando a uma linha apenas, mas unindo elementos diversos e contraditórios, como a cultura do consumo e o socialismo, o hippie e o capitalista, o dadaísta e o empresário.
Foi nos anos 70 que emergiu no cenário musical brasileiro um dos melhores músicos e também “pensadores” que surgiu em terras brasileiras – Raul Seixas. Baiano de Salvador, nasceu em 1945, portanto a quase uma década do surgimento do rock nos Estados Unidos, e, por isso, desde muito jovem teve contato e foi influenciado pelo rock.
Raul Seixas foi um músico que além das misturas do rock and roll cinquentista de Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley e dos anos 60 com Beatles e Rolling Stones, também sofreu influências de vários músicos brasileiros, principalmente Luiz Gonzaga. Raul deixou uma contribuição para a música brasileira, já que o baiano produziu centenas de composições.
Na obra do baiano, pode-se observar uma rica variedade musical que muitas vezes nos remetem a diversos estilos como o Brega, o Baião, a MPB, a
Jovem Guarda e também ao rock and roll.
Além das variadas temáticas musicais, outra grande qualidade artística no músico consistia na forma de como a música é cantada. A entonação da voz do artista modificavam significativamente as músicas de tal forma, que, nos dá um entendimento prévio da música sem a necessidade de ouvi-las. Algumas músicas como “Guita”, percebemos um clima místico na música, onde o cantor aparece como um profeta nos alertando de acontecimentos. Outras músicas, como “Metrô Linha
743”, no qual Raul Seixas assume um papel social de um crítico, cantando através
de falas cotidianas.
Foi durante os anos 70, através de Raul Seixas que começaram a surgir músicas que tinham uma temática com engajamento político e com crítica ao capitalismo e a política brasileira. Grande parte das composições de Raul Seixas foram escritas durante a ditadura. Dessa forma, o cantor viu de perto a crise em que o Brasil estava mergulhado. Os anos 80 chegaram e as expectativas de um futuro melhor estavam cada vez mais distante. E foi com pessimismo que o Raul Seixas saudou a chegada dos anos de 1980:
Anos 80
Hey, anos 80!
Charrete que perdeu o condutor Hei, anos 80!
Melancolia e promessas de amor (...)
Dividida entre Ipanema E a empregada do patrão
Varrendo o lixo p’rá debaixo do tapete Que é supostamente persa
P’rá alegria do ladrão29
Todo esse pessimismo demonstrado na música de Raul Seixas está vinculado principalmente a vida política do país. A política do governo militar havia colocado o país em uma profunda crise econômica, principalmente pela alta inflação. E no período de profunda crise que o país passava que vai surgir uma espécie de “explosão” do rock nacional. Por todo o país apareceram bandas que se tornaram rapidamente conhecidas, pois além da sonoridade, traziam em suas letras respostas ao questionamento dos jovens principalmente naqueles primeiros anos em que se dava a abertura política, onde o regime militar no Brasil jé se encontrava em profunda crise e bastante fragilizado. Assim, os rumos da música se constituíam por meio dessa crise.
Bandas como o Barão Vermelho, Legião Urbana, Ira!, Titãs, Capital Inicial, RPM, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Engenheiros do Hawaii e outras foram não apenas a trilha sonora dessa geração, mas a voz contida em uma ideologia novamente jovem, de transformação e principalmente, atitude.
O chamado “rock dos anos 80” foi um fenômeno impactante para a história musical do Brasil, tanto pelas diversas bandas que foram surgindo, quanto pelo seu teor poético e ao mesmo tempo contestador, que passaram a observar o país com outros olhos. Diferentemente dos ritmos anteriores, os anos 80 foram formados por bandas exclusivamente de rock, composta geralmente por jovens que cantavam seus sentimentos, suas angústias, sempre através de uma experiência urbana.
Neste período, a MPB passava por um período em que estava ficando cada vez mais ficando burguesa, com músicas cada vez mais complexas em sua forma, dando um tom erudito ao estilo, o que foi criando uma antipatia com parte do público brasileiro, principalmente com os jovens. Diferentemente da MPB que se preocupara com a forma, o rock produzido nos anos 80 estava cada vez mais se preocupando com a mensagem, com as letras.
Dentro desse contexto, o primeiro grupo a gravar um disco e fazer sucesso foi o Barão Vermelho. Este conjunto, liderado pelas figuras de Cazuza e Roberto Frejat, tinha como principal característica a espontaneidade, tão característica dos jovens. Arthur Dapieve comente que “O Barão Vermelho foi o
primeiro porta-voz de sua geração e, neste sentido, a primeira banda do BRock, o
rock brasileiro que chegou (em grande estilo) ao disco na década de 80.” (DAPIEVE,
1995, p.68)
O grupo Legião Urbana surgiu na cidade de Brasília, com Renato Russo como vocalista e principal compositor do grupo, além de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Dentre todos os grupos surgidos nos anos80, o Legião Urbana foi o conjunto que melhor produziu músicas politizadas e também construiu temáticas relacionadas a pesadas críticas a aspectos variados da sociedade brasileira.
Com o primeiro disco lançado em 1985, o Legião Urbana logo ganhou projeção e, atingindo sucesso rapidamente, o grupo de Renato Russo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde criou uma legião de fãs por todo o Brasil. No ano de 1987, o grupo lançou um disco que trouxe canções que, até os dias atuais é ouvida entre roqueiros amantes de músicas politizadas. A música era “Que País é Este” e trazia os versos “Nas favelas, no senado/sujeira pra todo lado/ninguém respeita a
constituição/mas todos acreditam no futuro da nação”.
A estudiosa Mônica Nogueira de Assis, analisando a poesia das canções de Renato Russo e Cazuza comenta que
toda esta euforia política das letras de “Que País é Este” só fez aumentar a aura messiânica que rondava a Legião, especialmente Renato Russo. Até mesmo porque nos shows, entre uma música e outra, Renato fazia discursos clamando pela conscientização sociopolítica de seu público. (ASSIS, 2005, p.49)
O grupo Legião Urbana, desde as primeiras apresentações, manteve a preocupação da postura consciente, pois suas músicas atingiam em grande maioria jovens. Para Renato Russo, não era apenas mais uma música que ele estava cantando, mas uma mensagem que precisava ser ouvida aos diversos lugares do Brasil.
Já o Barão Vermelho compôs músicas que se transformaram em grandes sucessos, chegando até mesmo a ser reconhecidos por cantores mais reconhecidos como o caso de Ney Matogrosso, que regravou a música “Pro Dia Nascer Feliz" e
Caetano Veloso que incluiu a música “Todo amor que houver nessa vida" em seu repertório.
Mônica Nogueira de Assis ainda enfatiza que
as letras de Renato Russo e Cazuza era um verdadeiro espelho de suas próprias personalidades. Mesmo falando de problemas comuns da sociedade, (...) suas composições revelavam toda a necessidade de representar o grito urgente de uma geração e de si próprios. Ambos encontraram no rock o veículo para transmitir suas mensagens, fossem elas otimistas e esperançosas, ou pessimistas e niilistas. (ASSIS, 2005, p.49) A vida transgressora de Renato e Cazuza não deixou de ser retratada em suas letras, uma vez que tudo o que viviam servia de fonte de inspiração para comporem suas músicas. Assim, temas como drogas, homossexualismo, amor entre outros são músicas intimistas, onde os artistas mostram ao mundo suas vidas e suas angústias.
Além de Legião Urbana e Barão Vermelho, emergiram diversos outros grupos que se distanciavam cada vez mais da MPB e passam a direcionar a temática de suas músicas para a crítica aos problemas sociais do Brasil.
O BRock era formado por bandas de diferentes partes do país. Formada por jovens geralmente de classe média, foram influenciadas principalmente pelo
punk rock surgido na Inglaterra. De Brasília, além de Legião Urbana, surgiram outras
bandas de destaque como Capital Inicial e Plebe Rude. Da região sul do Brasil emergira bandas renomadas como Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós. Houve também as diversas bandas oriundas do centro-sul, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro, como Kid Abelha, Ira!, Titãs, Ultraje a Rigor, Biquíni Cavadão, Os
Paralamas do Sucesso entre outros.
A maior contribuição do rock brasileiro nos anos 80 foi, principalmente produzir uma música que possuíssem uma temática que nos permitisse fazer uma reflexão dos problemas sociais existente no Brasil.
CONSIDERAÇÔES FINAIS
A redescoberta do Grupo Capú, através de suas atuações durante a década de 1980 e de suas músicas configuraram em um importante elo que esteve perdido na História da Música no Acre.
Através da compreensão de suas semelhanças com o rock brasileiro e também com o rock mundial, percebemos como houve a formação musical do Grupo, principalmente através do cinema e do rádio, pois foram através destes que o conjunto acreano dialogaram e criaram uma maneira própria de fazer música na cidade.
Ao de identificarem com o rock, uma música que mundialmente foi abraçada pelos jovens, o Grupo Capú transforma o rock, trazendo para o cenário musical acreano elementos específicos da realidade em que estes sujeitos sociais viveram, com suas angústias, suas perspectivas de mudanças e seus descontentamentos.
A criação das músicas do grupo contribuiu significativamente para o desenvolvimento de uma maneira própria destes sujeitos enxergarem a realidade em que viveram.
Abraçando o rock, um estilo musical que permitiu a difusão de suas ideias, o Grupo Capú emerge no cenário musical acreano indo de encontro a outros músicos acreanos, compuseram grande parte de suas músicas influenciados pela Música Popular Brasileira. Dessa forma, o conjunto aparece na cidade criando uma nova maneira de fazer música na capital.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
ALVES, Magda. Como escrever teses e monografias. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
ASSIS, Francisco Pinheiro de. Migrações: Migrantes do Nordeste aos seringais, e
dos seringais à periferia de Rio Branco/Ac (Bairro Taquari). Dissertação de
Mestrado. Universidade Federal de Pernambuco. 2002.
ASSIS, Mônica Nogueira de. Cancioneiro Transgressor: um estudo sobre a poética
da Canção em Renato Russo e Cazuza. Dissertação de Mestrado. Departamento de
Letras. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2005.
BRANDAO, Antônio Carlos e DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos Culturais de
Juventude. São Paulo: Moderna, 2004.
CALIXTO MARQUES, Maria do Perpétuo Socorro. A cidade encena a floresta. Rio Branco: EDUFAC, 2005.
CHACON, Paulo. O que é rock? Coleção Primeiros Passos n 68. Editora Brasiliense. FRIEDLANDER, Paul. Rock na Roll: Uma História Social. 5ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2008.
DAPIEVE, Arthur. BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos – O breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
MORAIS, Maria de Jesus. Acreanidade: Invenção e Reinvenção da Identidade
Acreana. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense. Programa de pós-
graduação em Geografia. Doutorado em Geografia.
MUGGIATI, Roberto. Rock, O Grito e o Mito: a música pop como forma de
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é contracultura. São Paulo: Brasiliense, 1988.
ENTREVISTAS:
BATISTA, Clenilson. Entrevista concedida no dia 12 de dezembro de 2013. VERAS, João. Entrevista concedida via e-mail no dia 29 de março de 2014.
DVD
A História do Grupo Capú. Documentário. Produzido por Mazé Oliveira.
FILMES:
PASSAROS, Os. Direção de Alfred Hitchcock. Roteiro de Evan Hunter. Produção Universal Pictures. Distribuição Espaço Filmes. 1963. Duração 119 Minutos.