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O pensamento de Ludwig Feuerbach, em A Essência do Cristianismo, é útil para compreender de que forma os primeiros mártires cristãos investem no sofrimento como forma de expressão identitária. O culto do sofrimento é necessário para o cristão, em contradição com a cultura romana politeísta dominante, que se regia pelo culto sinestésico dos deuses:

Sofrer é o supremo mandamento do cristianismo – a história do cristianismo é mesmo a história do sofrimento da Humanidade. Enquanto que, entre os pagãos, ao culto dos deuses se misturava o júbilo do prazer sensível, entre os cristãos – naturalmente os antigos cristãos – os suspiros, e as lágrimas do coração sofredor, do ânimo, fazem parte do culto divino. (Feuerbach, 1994: 123)

É facto que, na citação apresentada, Feuerbach se refere ao cristianismo e ao politeísmo de um modo geral48. No entanto, seguindo de perto o pensamento deste autor, tal afirmação serve para compreendermos em que sentido a perspectiva do sofrimento está tão profundamente associada à prática cristã, e de que forma esse sofrimento molda a sua mentalidade e identidade, sobretudo aquela que se manifesta nos primeiros mártires

48 A visão deste autor sobre o cristianismo distancia-se de uma interpretação de Deus como

esperança ou felicidade, de dignificação dos pobres, dos marginais ou dos perseguidos. No Sermão da Montanha (5,1-7,29) no Evangelho segundo São Mateus e no Evangelho segundo São Lucas (fragmentado ao longo de todo o livro), a mensagem bíblica não se centra tanto no sofrimento de Cristo, conforme Feuerbach faz parecer. Aí se encontra um discurso de esperança e felicidade para todos os que são, de alguma forma, oprimidos: “Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam” (Mt 5:12). Assim, A Essência do Cristianismo é sobretudo uma hiperbolização do sofrimento existente no cristianismo, como único e extravagante modo de prestar culto a Deus. Deste modo, o presente estudo reconhece que a referência é útil e estratégica precisamente porque evidencia um aspecto dos mártires (embora não sendo o único) na prática do cristianismo que interessa à investigação: a necessidade e o júbilo no sofrimento.

desta religião. Porque é afinal o sofrimento tão determinante na manifestação identitária do cristão, e porque estão os mártires tão intimamente seduzidos pela ideia e prática do sofrimento?

Para os primeiros cristãos, o momento da morte de Jesus na cruz (e consequente ressurreição) é o episódio que mais anima as suas práticas religiosas. O evento da crucificação de Cristo49, que resulta no episódio mais simbólico da vida do Salvador e que é descrito nos Textos Sagrados50, conta como Jesus Cristo foi condenado à crucificação51 por apostasia, mais imputada do que declarada.

Nos textos que encontramos sob a denominação de Acta Martyrum, a atitude perseverante dos mártires perante a sua acusação é acompanhada por um discurso muito mais declarativo, mais impositivo e afirmativo do que aquele que se verifica no discurso do protomártir Jesus Cristo. “Christianus sum!” é a afirmação entusiasta que é comum a vários dos processos dos mártires no momento da acusação do seu crime52.

A esta perseverança na afirmação da religião cristã surge associado o processo de dor lenta e dolorosa dos mártires. Sobre isto nota Kyle (1998:168) o seguinte: “Victims of crucifixion died slow agonizing deaths, and they were guarded – certainly until dead and longer”: sentenciar um réu à crucificação não pretende uma morte imediata do sujeito condenado, mas antes uma extensão, exposição e publicação53, no tempo, da dor que lhe é infligida54. Assim compreendemos que este evento, o da crucificação, seja precedido

49 A crucificação de Cristo está presente nas Sagradas Escrituras em Mt 27, 27-31; Mc 15, 16-20;

Lc 23,1; Jo 18,28.

50 Mc 14:65, Jo 19:1, Lc 22: 63-65, Mt 27:26.

51 O Direito Romano prevê diferentes penas para diferentes delitos de acordo com a “categoria”

do condenado, havendo um código penal romano diverso do código penal aplicado a todo o não romano, sendo este último regido por maior violência e penas infamantes e insultuosas aos olhos romanos. A flagelação e a crucificação são das penas mais duras previstas no Direito Romano, jamais aplicáveis a um cidadão romano.

52 São exemplo disto as actas de São Cipriano, São Átalo, ou Santa Blandina, apenas para referir

alguns entre vários.

53 Existem, nos episódios da Bíblia referentes à crucificação de Cristo, alusões aos comentários

dos transeuntes (“os que passavam injuriavam-no” Mc15:29), o que revela que a execução das penas é evento público, e que Jesus Cristo terá tido a sua audiência no momento da morte.

54 Descreve-nos, a propósito disto, Bueno (2012: 123): “El juicio y, sobre todo, la tortura de un

reo era un público espectáculo, grato a aquellas gentes embrutecidas, chusmas romanas, incapaces de sufrir con el que sufre, incapaces de compasión”.

por um episódio anterior de sofrimento, que agudiza e estende a pena do condenado: o da flagelação. Entre os romanos, a flagelação precedia, normalmente, a crucificação. Os romanos aplicavam a crucificação como pena capital aos criminosos de vários tipos e a escravos55. A flagelação aparece depois da sentença de condenação, como habitualmente sucedia, para debilitar as forças dos condenados à cruz; em São Lucas, a flagelação é anunciada como um castigo prévio, em São João tem o carácter de mais um expediente para evitar a sentença de morte contra um inocente: um rei tão abatido e esfacelado não constituía perigo para ninguém56.

De acordo com São Marcos, Jesus terá demorado seis horas a expirar57, não sem antes ter sido chicoteado, vestido de púrpura e coroado com uma coroa de espinhos, para a seguir carregar a sua própria cruz. Pelo caminho, terá ainda sido agredido e insultado pelos soldados responsáveis por levar a sua execução avante.

Seja qual for a passagem bíblica, o sofrimento e a dor de Cristo pela tortura é facto comum a todos os evangelistas. E todos eles reconhecem que foi por via desta Paixão que Jesus se salvou em Deus, sacrificando-se. Tal episódio de suplícios, que começa bem antes do momento determinante da crucificação de Jesus, toma extensão e detalhes mínimos suficientes passíveis de inspirar os crentes mais acérrimos, cujo culto, no caso daqueles que se virão a tornar mártires, tem a pretensão de ascender à condição de Jesus Cristo na cruz, mimetizando a sua Paixão.

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