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Quantification de l'aide

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VIII. APPRECIATION DE L'AIDE 8.1 Existence de l'aide

8.2 Quantification de l'aide

Por tudo o que já foi exposto e, sobretudo, pelo caráter perturbador, por vezes violento das fan fictions aqui analisadas, cabe retomar ainda, da teoria psicanalítica, o início dos anos de 1920, quando Freud apresentou outras articulações entre a sublimação e suas teorias pulsionais, em especial com a obra Além do princípio do prazer (FREUD, 1920), em que se encontra pela primeira vez formulado o conceito de uma pulsão de morte. Até esse ponto, a obra freudiana havia estabelecido uma distinção entre as pulsões ligadas à autoconservação, associadas a tendências envolvendo a alimentação e o autocuidado, e aquelas de finalidade vista como sexual, entendidas como pulsões eróticas, às quais corresponderiam os investimentos libidinais passíveis de dessexualização, por exemplo, pela via da sublimação.

Toda essa compreensão passa por uma ampla modificação teórica após a ampliação do conceito de narcisismo (FREUD, 1914b), já abordado na seção 2.4 por referência ao processo de constituição da chamada instância do Eu. Refletindo mais detidamente sobre o narcisismo, a psicanálise freudiana passou a pressupor a existência, no aparelho psíquico, de uma espécie de “(...) grande reservatório de libido, do qual essa é enviada para os objetos, e que está sempre disposto a acolher a libido que reflui dos objetos” (FREUD, 1923a, p. 305). Assim, as tendências de autoconservação também passaram a ser vistas como ligadas à energia libidinal, circunscrevendo os impulsos chamados narcísicos, em que a libido toma o próprio Eu por objeto, enquanto as pulsões até aqui ditas sexuais envolveriam, em geral, sua destinação a objetos externos. Assim, em vez de insistir numa oposição entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação, Freud passou a tratá-las como correlatas, ambas ligadas a componentes libidinais, diferenciáveis, em princípio, apenas por uma distinção entre a chamada libido objetal (amor a um objeto externo) e a libido do Eu (amor a si mesmo como objeto). Estes arranjos compõem, na segunda teoria pulsional freudiana, o campo das denominadas pulsões de vida, também descritas como “pulsões do Eros” (FREUD, 1923a, p. 308), cuja contrapartida estaria em outra espécie de força pulsional: a das pulsões de morte.

A complexa definição das pulsões de morte mereceria um trabalho tanto ou mais detalhado que este, razão pela qual reconheço que a apresento aqui apenas de forma superficial, tendo sempre por foco específico a compreensão das fan fictions cuja análise posteriormente se apresenta. Para tanto, penso ser fundamental acompanhar Freud (1923a, p. 306-308), quando,

num esforço igualmente sintético, descreveu as pulsões do Eros como ligadas às dinâmicas construção e associação empreendidas pelos organismos, ao passo que relacionou as pulsões de morte a processos de desconstrução que, trabalhando quase que em silêncio na matéria viva, parecem buscar não a sua manutenção, mas sim a própria desagregação. Correspondem, para ele, às pulsões de morte todos os movimentos agressivos que se voltam contra objetos externos e/ou ao próprio Eu, neste último caso em dinâmicas, por exemplo, autopunitivas, que aliás só se dão a ver em raros casos, como o das práticas sexuais masoquistas (relatadas, é verdade, num bom número das fan fictions tomadas por corpus neste trabalho).

A complicada reflexão sobre as pulsões de morte ocorre simultaneamente a outros importantes desenvolvimentos teóricos da obra freudiana, que podem auxiliar em seu entendimento, sobremaneira quanto à formulação da chamada “segunda tópica” de esquematização do aparelho psíquico. Outrora amparado tão-somente numa distinção entre um sistema inconsciente e um sistema pré-consciente/consciente, Freud (1923b) passa a falar, nesse momento, em um aparelho psíquico tripartido nas instâncias do Id, do Eu e do Super-eu19, que

se encontram em complexa interação com a dinâmica pulsional.

O domínio do Id seria o das paixões, dos elementos pulsionais que atuam sobre os sujeitos sem atingir a superfície consciente do Eu, expressa por sua vez em representações que são articuladas de modo a se tornarem inteligíveis, através de pensamentos formulados em palavras (representações verbais), por exemplo. Numa espécie de continuum, Freud parece entender o Eu como uma extensão do Id modificada pelo contato direto com a realidade exterior; assim, situa no Eu o controle da capacidade motora e, por conseguinte, da possibilidade de transformar ou não em ato concreto as tendências advindas do Id. Para este, haveria apenas o princípio do prazer, enquanto que, para o Eu, a adequação à realidade agiria mais fortemente, manifestando-se, assim, por meio de todas os processos defensivos que caracterizei nesta tese ao tratar dos mecanismos de recalque, com todas as deformações envolvidas (FREUD, 1923b, p. 31).

Mas a segunda tópica freudiana descreve ainda a existência de uma porção do Eu mais ligada ao inconsciente e, portanto, mais aproximada da dinâmica de funcionamento do Id: o Super-eu, instância derivada da interiorização, pelo Eu, de princípios morais, culturais e sociais, por sua vez associados a objetos outrora investidos de libido, mas posteriormente

19 Adoto, aqui, como na maior parte das citações desta tese à obra freudiana, a tradução proposta por Paulo César

de Souza (cf. notas de tradução em FREUD, 1923b), para os termos empregados por Freud em alemão, quais sejam, respectivamente, Es, Ich e Über-Ich.

abandonados ou perdidos pelo Eu, que então os reincorpora a si mesmo. Num processo de transformação da libido objetal em libido narcísica, pode-se perceber, na constituição da instância do Super-eu, o mecanismo psicanalítico da identificação, em que “(...) o Eu assume os traços do objeto, como que se oferece ele próprio ao Id como objeto de amor, procura compensá-lo de sua perda, dizendo: ‘Veja, você pode amar a mim também, eu sou tão semelhante ao objeto’” (FREUD, 1923b, p. 37). Freud descreve, com essa consideração teórica, a constituição de uma forma ideal do Eu, uma espécie de imagem de perfeição internalizada pelo Eu, com a qual este se mede constantemente, avaliando-se, controlando-se e, às vezes, até punindo-se.

Como já se pode intuir, a discussão dos processos de identificação que geram tal noção de uma idealização do Eu têm para Freud estreita relação ao complexo de Édipo, de modo que me reservo neste momento apenas a mencioná-los, para aprofundá-los no capítulo seguinte, em que abordarei mais diretamente a constituição de um quadro de referências literárias e psicanalíticas a respeito do incesto. Por ora, proponho apenas que se perceba a existência de certa aproximação, em Freud, entre as transformações de libido objetal em libido do Eu (narcísica) e o próprio processo de sublimação, uma vez que abandonar um objeto externo idealizado, sobre o qual recaía um tanto de energia libidinal, envolve, em alguma instância, uma transformação das metas sexuais a ele conectadas, razão pela qual Freud (1923b, p. 37) sugere estar aí o provável caminho da sublimação em geral. Nesta nova compreensão do mecanismo, Freud (1923b, p. 37) afirma corrigir algumas de suas reflexões anteriores, indicando que o grande reservatório de libido do aparelho psíquico não seria o Eu, tal qual dito anteriormente (FREUD, 1914b), mas o Id. Isso porque a essa instância seria possível investir libidinalmente, em substituição a determinado objeto externo inacessível, certos traços deste incorporados ao próprio Eu, de modo a encontrar alguma satisfação quanto a tal objeto, ainda que sob a forma de metas desviadas das funções tipicamente associadas ao sexual.

É desse modo, a meu ver, que Freud sugere que a libido narcísica possa ser entendida como um quantum de energia erótica dessexualizada, portanto “sublimada”, passível dos deslocamentos envolvidos com a busca por “evitar represamentos e facilitar descargas” (FREUD, 1923b, p. 56). Articula-se, assim, a sublimação tanto às pulsões de vida quanto às de morte: no primeiro caso, pela participação do processo sublimatório na constituição de uma unidade do Eu, obtida através da incorporação, por este, dos objetos em si; no segundo caso, pelo caráter dito dessexualizante da sublimação, ao qual corresponderia não apenas o rebaixamento da atividade erótica, mas também a liberação de um tanto da agressividade destrutiva que o aparelho psíquico de outro modo não se vê capaz de dissipar. Como explica

Freud, na constituição do Super-eu, com toda a sua idealização, “[o] componente erótico não mais tem a força, após a sublimação, de vincular toda a destrutividade a ele combinada, e esta é liberada como pendor à agressão e à destruição”, de modo que “o Eu, tendo controlado a libido por meio da identificação, receberia em troca a punição do Super-eu, através da agressividade misturada à libido” (FREUD, 1923b, p. 68-69).

Talvez até aqui não se tenha dado a ver de maneira suficiente a razão pela qual um processo identificatório desperte a agressividade, algo que também explorarei melhor adiante; basta que se perceba, no momento, a sugestão, por parte de Freud, da mesma ambivalência já discutida na seção 2.3, na abordagem da relação conflituosa entre amor e ódio. Entende-se, a partir daí, a respeito do Eu, que, “(...) como seu trabalho de sublimação tem por consequência uma disjunção pulsional e liberação dos instintos de agressão no Super-eu, ele se expõe, em sua luta contra a libido, ao perigo dos maus-tratos e da morte” (FREUD, 1923b, p. 71), o que encontra expressão, por exemplo, nos comportamentos autopunitivos e suicidas.

Este esclarecimento pode sugerir uma explicação para o aparecimento, no corpus de fan fictions aqui analisado, de uma série de relatos cruamente violentos, em que o componente erótico aparece associado a fantasias mais claramente agressivas e destrutivas. Se a princípio tal associação assusta ou desperta reações confusas, a reflexão teórica aqui empreendida permite compreendê-la nos termos da expressão de uma espécie de persistência dos impulsos agressivos que a dessexualização sublimatória não logrou dissipar. Tudo se passa como se a agressividade inerente aos processos sublimatórios em questão precisasse encontrar alguma via de apresentação, numa espécie de retorno ao objeto externo incorporado, o que se dá, no caso, pela via mesma da expressão artística.

Creio ter chegado, aqui, à proposição crucial pretendida com este recurso ao conceito sublimação em Freud: trata-se de que o empreendimento sublimatório talvez constitua uma das vias de dissipação não apenas de impulsos eróticos, mas também de impulsos destrutivos, por não envolver necessariamente um processo de dessexualização total, mas também de apoio em fantasias perversas, dolorosas, traumáticas. Nesse sentido, talvez se escreva uma fan fiction sobre incesto com cenas de intensa violência por revelar-se aí uma maneira muito menos danosa, ao próprio sujeito, de formalizar, a um só tempo, tanto impulsos eróticos proibidos quanto sua contrapartida punitiva e destrutiva. Compreendo que tal proposição, ainda que se afaste um tanto das considerações freudianas, pode encontrar nelas espaço de sustentação, e reitero que não sou o único a pensar desta maneira, como se verá, por exemplo, através do conceito de pulsão de ficção, por meio do qual considero possível estabelecer uma síntese bastante produtiva das discussões realizadas até aqui.

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