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CONCLUSIONS

Dans le document COMMISSION EUROPÉENNE (Page 58-74)

A articulação entre conceitos psicanalíticos de Freud a Lacan é tema de uma infinidade de trabalhos bastante complexos no campo da psicanálise e da filosofia, a exemplo dos de Safatle (2006) e Metzger (2017), para citar apenas duas das produções que me inspiraram esta abordagem. Portanto, antes de empreender qualquer incursão no pensamento lacaniano, quero reconhecer, com ênfase, o caráter limitado do recorte por meio do qual me proponho aqui a retomá-lo. Ainda assim, creio que tal procedimento sintético encontra amparo e relevância, porquanto esta não é uma tese em psicanálise, mas em Linguística Aplicada, de modo que se inspira na proposta transdisciplinar característica desse campo de estudos nos últimos anos para propor aportes teóricos de outras formas do conhecimento, conforme suscitados pelo próprio objeto pesquisado. Evidentemente, não é possível aqui revisar por completo nem a teoria freudiana, nem a ampla contribuição e a rediscussão que a ela oferece Lacan, mas penso ser possível consolidar, a partir de reflexões específicas deste último acerca do inconsciente e da sublimação, uma complementação ao dispositivo teórico-analítico aqui engendrado em vistas de uma observação mais rica das fan fictions em discussão.

Para tanto, é preciso iniciar, ainda que de forma drasticamente abreviada, por alguma compreensão clara e utilizável acerca dos registros do Imaginário, do Simbólico e do Real na reflexão lacaniana, que os apresenta de maneira transversal ao longo de sua obra. Com esse objetivo, atenho-me aos dois primeiros nesta seção, principiando pelas considerações sobre o narcisismo associadas ao que Lacan chamou de “Estágio do Espelho” (LACAN, 1948, 1949), bem como na conferência nomeada justamente por O Simbólico, o Imaginário e o Real (LACAN, 1953), e no escrito que detalha o sentido de se pensar que o inconsciente tem funcionamento estruturado como linguagem (LACAN, 1957).

A formulação dos três registros de inscrição da experiência subjetiva pode ser entendida como um resgate, no pensamento de Lacan, do tratamento freudiano ao inconsciente, enquanto instância psíquica de funcionamento sistemático, organizado sobretudo, como abordado na seção 2.2, pelos mecanismos de deslocamento e condensação. Em sua elucidação,

acompanharei, como na sugestão de Safatle (2007), uma retomada de inspiração cronológica, uma vez que é comum, nos estudos de Lacan, a percepção de que sua obra debruçou-se, por longos períodos, primeiramente na questão do Imaginário, seguida por elaborações mais claras acerca do registro do Simbólico e, finalmente, em discussões mais focalizadas na instância do Real, tomado por relação à sublimação na seção 2.8, que segue a esta. Faço notar, ainda, que a leitura lacaniana a respeito do complexo de Édipo e do incesto propriamente dito serão incorporadas ao capítulo 3, que tem essa discussão como enfoque específico.

A princípio, pode-se pensar, com a noção de Imaginário, a existência de um acordo teórico entre Freud (1914b) e Lacan (1948, 1949) no que diz respeito à constituição do Eu: ambos o compreendem não como instância já dada de antemão, mas construída ao longo do processo de desenvolvimento da criança humana, sobretudo por meio de sua relação com aquele que lhe oferece os cuidados fundamentais, posição usualmente referida como a da Mãe, ou da função materna. Para Lacan (1949), um dos momentos fundantes da constituição desse Eu, correspondente ao que Freud (1914b) indicou como um primeiro momento do narcisismo, é o chamado “Estágio do Espelho”, metáfora especular por meio da qual Lacan (1949) oferece um primeiro esclarecimento sobre o que viria a constituir sua noção de Imaginário. Tal estágio, que se dá em geral entre os seis e os dezoito meses de vida da criança, refere-se ao momento em que esta passa a reconhecer-se como totalidade na própria imagem refletida em um espelho, processo que só é possível por meio da relação com um outro ser humano, que oferece ao bebê, de maneira fundante, testemunho desta visão de completude de si (LACAN, 1949).

Embora Lacan (1949) se baseie, para tais colocações, em estudos sobre as diferentes reações que os humanos, em contraste com outros primatas, demonstram diante da própria imagem refletida em espelhos, a concepção do estágio em questão é independe, em verdade, de um real contato material com superfícies espelhadas: a imagem especular totalizante refere-se, em sua teorização, à presença de um semelhante humano, por meio de quem se apresenta ao bebê uma imagem completa do que seria seu Eu, algo que essa criança é, então, até fisiologicamente incapaz de experimentar por si só. Assim, no momento em questão, o sujeito humano em formação vivencia antecipadamente, pela via da “identificação espacial” a uma imagem completa, a sensação de uma “totalidade ortopédica” (LACAN, 1949, p. 100), que vem a recobrir a fragmentada experiência concreta através da qual vive seu corpo, então (des)governado pelas dinâmicas pulsionais.

A esta totalidade dita ortopédica pode-se pensar que corresponde, pois, o registro lacaniano do Imaginário, inaugurado por uma primeira impressão de completude que, contudo,

rapidamente revela seus próprios conflitos, a partir da relação dual com este outro que o constitui:

O que é o Estágio do Espelho? É o momento em que a criança reconhece sua própria imagem. Mas o Estágio do Espelho está bem longe de apenas conotar um fenômeno que se apresenta no desenvolvimento da criança. Ele ilustra o caráter de conflito da relação dual. Tudo o que a criança aprende nessa cativação por sua própria imagem é, precisamente, a distância que há de suas tensões internas, aquelas mesmas que são evocadas nessa relação, à identificação com essa imagem. (LACAN, 1956-57, p. 15- 16)

Penso, portanto, que, na concepção lacaniana, a constituição primária do narcisismo, que Freud (1914b) descreveu pelos termos do chamado “Eu ideal”, pode ser interpretada, na teorização do Estágio do Espelho, como a constituição de um engodo, em que a criança humana, ao receber as cenas e imagens que o outro lhe oferta, passa a identificar-se com uma unidade ilusória de si mesmo, alienando-se de sua própria subjetividade (LACAN, 1956-57). Por isso, Lacan empregará, para se referir a esse tecido idealizado de imagens, a noção de fantasma, descrevendo-o como uma espécie de revestimento imagético que estrutura a percepção do Eu, por si mesmo, como objeto ¾ evidenciada, textualmente (LACAN, 1948), pelo uso do pronome oblíquo da primeira pessoa (em francês, moi), por oposição à sua forma no caso reto (je).

Com essa compreensão do Imaginário, Lacan (1956-57) indica que a díade entre o bebê e este outro em função materna será a origem de uma infinidade de conflitos, uma vez que, na sua perspectiva, o sujeito humano, apesar de não coincidir com a imagem que lhe é oferecida de si mesmo, está vinculado de modo inevitável, por sua condição de desamparo, fragilidade e impotência, a esse que lhe oferece os cuidados fundamentais. Assim, passa a destinar ao moi amplos investimentos de sua libido, o que se evidencia, por exemplo, na alegria com que um bebê costuma reagir ao ver (neste caso, concretamente) a própria imagem refletida num espelho. Nos próprios termos de Lacan, “[e]ssa relação erótica, em que a pessoa se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e a forma de onde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu” (LACAN, 1948, p. 116), tomada como condição à manutenção do amor do outro e, por conseguinte, como peça indispensável à evitação do desamparo. Assim, Lacan (1948) vê aí a própria origem de diversos embates envolvendo a inveja, a rivalidade e a competitividade do sujeito, despertada nos momentos em que os ideais que compõem o moi são associados a outros sujeitos, vistos então como inimigos a serem eliminados, supostamente por reunirem em si elementos que garantiriam a preferência por parte da Mãe, por exemplo, com consequente abandono do Eu do sujeito.

O caráter falseado do Imaginário, ao indicar que o sujeito humano não é idêntico à imagem que faz de si mesmo, implica justamente postular, como Freud, a existência de algo para além do Eu, algo que lhe escapa, algo que nos faz menos indivíduo, no sentido etimológico do termo, entendido enquanto entidade indivisível, autônoma, dotada de uma intencionalidade clara a guiar suas ações. Para Lacan (1957), a grandeza da descoberta freudiana está justamente na indicação, sugerida por meio do Imaginário, de que o sujeito humano não é um indivíduo, precisamente porque está dividido, submisso à ordem de seu inconsciente, que se manifesta, sobretudo, em fenômenos como o sonho, chiste, o lapso de fala e o sintoma psicanalítico. Trata- se de um sujeito excêntrico, descentrado, porque tomado pelas determinações de algo outro que fala em si:

Qual é pois esse outro a quem sou mais ligado que a mim, visto que no seio mais consentido de minha identidade a mim mesmo, é ele que me agita? Sua presença não pode ser compreendida senão a um segundo grau da alteridade, que desde então o situa ele própria em posição de mediação em relação a meu próprio desdobramento de mim mesmo como de um semelhante (LACAN, 1957, p. 247, com união de dois parágrafos contíguos).

Nessa acepção, é lícito observar que Lacan destaca a partir de Freud, com radicalidade, o papel da alteridade na constituição subjetiva do humano, indicando que é por meio dela que se recebem, por um lado, o conjunto fantasmático das imagens originárias que constituem a ilusão do imaginário, bem como esse “segundo grau da alteridade”, que, em Lacan (1957) é indissociável da relação humana com a linguagem. Assim, se o registro do Imaginário é associado à chamada função do cuidado materno, a este semelhante mais próximo da criança, o registro do Simbólico, por sua vez, é associado ao chamado grande Outro da teoria lacaniana, por referência, justamente, a todo o conjunto de disposições sociais pré-estabelecidas às quais cabe ao sujeito, quando chega ao mundo, conformar-se. A instituição dessa ordem, deste grande Outro do Simbólico, corresponde, pois, à inserção da linguagem no processo de subjetivação enquanto fator organizador da experiência humana, no sentido de que o inconsciente se organiza e se dá a ver justamente pela via dos símbolos.

É de fato assim que devemos entender o simbólico de que se trata na troca analítica. Quer se trate de sintomas reais ou atos falhos, ou o que quer que seja que se inscreva no que encontramos e reencontramos incessantemente, e que Freud manifestou como sendo sua realidade essencial, trata-se, ainda e sempre de símbolos, e de símbolos organizados na linguagem, portanto funcionando a partir da articulação do

significante e do significado, que é o equivalente da própria estrutura da linguagem (LACAN, 1953, p. 23)20

Aqui, percebe-se um tanto da discussão de Lacan a respeito da linguística saussureana (SAUSSURE, 1916), reconhecida como fonte da perspectiva estruturalista que dominou diversas das ciências humanas ao longo do século XX. Por essa via, Lacan formula que o Inconsciente, da maneira como o descreve Freud, é estruturado como linguagem, e de uma forma tal que o sujeito humano não se encontra em lugar de fazer uso dessa linguagem enquanto instrumental, mas antes está em posição de sujeição a ela, uma vez que “(...) o sujeito, se parece servo da linguagem, ele o é mais ainda de um discurso em cujo movimento universal seu lugar já está inscrito desde seu nascimento, ainda que seja apenas sob a forma de seu nome próprio” (LACAN, 1957, p. 226).

Antes de esclarecer em que consiste o registro lacaniano do Real, cabe apontar uma implicação fundamental que essa maneira de entender as reflexões freudianas pode oferecer ao que já constituí, ao longo desta tese, em relação à escrita e à leitura de fan fictions a respeito do incesto. Ocorre que, em Sperber (2002) e, há que se dizer, até no próprio Freud (1908a, ou mesmo em 1914a), a análise de peças artísticas e literárias pode incorrer na leve sugestão de que a realização artística se dá de forma deliberada, como se o escritor, por exemplo, lançasse mão da linguagem enquanto ferramenta para traduzir os elementos desordenados que lhe dominam o inconsciente, aí visto não como linguagem, mas como um conjunto de disposições caóticas de manifestações pulsionais.

Ora, a esse respeito, Sperber (2002, p. 285) sugere que a pulsão de ficção parece buscar estruturar pensamentos ainda não formulados, em princípio bastante obscuros, pela via da narrativa. Para Lacan (1957), contudo, o inconsciente, lugar do Simbólico, não constitui uma tal instância de obscuridade, mas estrutura-se, ele próprio, como linguagem, porque não conhece senão os elementos do que a linguística chama de significante (LACAN, 1957, p. 253), nos quais vem a sustentar-se o significado, a ser produzido sempre pelo próprio ordenamento em relação a outros significantes.

Por isso, pode-se dizer que Lacan empreende uma subversão da leitura clássica da linguística saussureana, para a qual a língua devia ser entendida (SAUSSURE, 1916) como sistema de signos, cada qual correspondente a uma associação entre um significado e um

20 Como se vê, Lacan (1953) se refere, aqui, como em boa parte de sua obra, ao contexto específico da situação de

análise (“troca analítica”). Cabe frisar, nesse sentido, nosso gesto de transposição, a partir do qual, na esteira de outros pesquisadores como Safatle (2007), Metzger (2007) e a própria Sperber (2002), lançamos mão das reflexões lacanianas para compreender outros contextos, que não a clínica.

significante específicos. Para Lacan (1957), a demonstração saussureana a esse respeito é lida com excessiva ênfase na dimensão do significado, de forma tal que ao significante ficaria relegada certa fixidez, como que uma obrigação de corresponder a um determinado significado, donde resultariam os traços mais relevantes da significação a ser apresentada como resposta ao problema do sentido21. De forma similar, mesmo com todas as contribuições que oferece ao

formular a primazia do inconsciente sobre o humano, o próprio Freud (1914a), ao analisar obras de arte, chega a afirmar que sua interpretação efetiva se resume em “(...) primeiramente descobrir o sentido e conteúdo do que é apresentado na obra de arte”, uma vez que “(...) aquilo que nos emociona fortemente pode ser apenas a intenção do artista, na medida em que conseguiu expressá-la na obra e torná-la apreensível para nós” (FREUD, 1914a, p. 375).

Trata-se, pois, de uma compreensão da análise estética bastante associada à ideia de uma intencionalidade, que parece sugerir certa consciência, por parte do artista, em relação ao que produz, concepção bastante em acordo com o contexto em que viveu Freud, mas que se revela ineficiente à compreensão, por exemplo, das vanguardas artísticas que caracterizaram, no século XX, o descentramento da figura do artista enquanto manipulador consciente da matéria artística. Esta primeira visada sobre os registros do Imaginário e do Simbólico resulta, pelo contrário, em que se considere talvez mais adequada à descoberta freudiana uma análise do processo sublimatório não centrada numa suposta intencionalidade do artista, nem na decifração de quais são os conteúdos supostamente “obscuros” a partir do qual ele veio a criar um texto, por exemplo. Assim, proponho, a partir de Lacan, uma leitura da obra de arte mais atenta à cadeia dos significantes, donde se sugere que o texto literário produzido pelos escritores de fan fictions, enquanto encadeamento significante em si mesmo, possa ressoar, ainda que por vias imaginárias, algo de uma função simbólica.

Não se trata de uma visão incoerente com a de Sperber (2002) ou as do próprio Freud (1908a), mas é preciso renomear alguns de seus termos para que correspondam a tal interpretação. Assim, não falarei, aqui, em termos de fantasias que o autor tencione compartilhar a partir de seus escritos, como diz Freud (1908a); opto em lugar disso por entender a escrita literária como busca por articulações significantes, processo do qual participa, portanto, a ordem simbólica, razão pela qual é possível perceber nela os ecos da própria cadeia significante que constitui a matéria dos pensamentos inconscientes. Proponho, ademais, uma

21 Como indicado, trata-se aqui de uma leitura mais clássica de Saussure, a partir do Curso de Linguística Geral,

sabidamente organizado não diretamente por ele, mas por seus discípulos. Talvez outra análise da própria perspectiva de Saussure fosse cabível a partir de seus manuscritos, que só recentemente vieram a público, com a obra Escritos de linguística geral (2002).

outra compreensão para algumas das colocações de Sperber (2002), de modo a tratar o que chamam de “pensamentos obscuros” como pensamentos inconscientes, porque não estão desordenados em si mesmos, mas apenas velados, ocultados à consciência, ainda que nem por isso deixem de afetá-la profundamente.

Retorno, assim, a uma questão fundamental: em que consiste, pois, essa estruturação linguística do Simbólico, do inconsciente? No pensamento de Lacan (1957), essa consideração se sustenta justamente sobre a relação fundamental, apresentada por Saussure (1916), entre significante e significado, desde que entendida a partir de uma primazia daquele sobre este. Para Lacan (1957), é preciso partir do significante, e “(...) a estrutura do significante está, como se diz comumente em linguagem, em que ele seja articulado”, donde resulta que “(...) suas unidades, de onde quer que se parta para desenhar suas imbricações recíprocas e seus englobamentos crescentes, são submetidas à dupla condição de se reduzirem a elementos diferenciais últimos e de os comporem de acordo com as leis de uma ordem fechada” (LACAN, 1957, p. 231-232).

Dessa forma, associam-se à psicanálise lacaniana diversos enunciados já abordados pela linguística saussureana do Curso, ainda que em caráter modificado ou inverso. Primeiro, entende-se que todo significante, visto não enquanto matéria de fala ou escrita em si mesmo, mas enquanto imagem mental dessas vias de formulação, resulta de um corte, uma secção sobre o contínuo material a partir do qual se projeta, podendo assumir formas concretas variadas, desde que não se confundam com as de outro significante ¾ daí a afirmação de que os significantes seriam “elementos diferenciais últimos”. Para ilustrar essa colocação, cabe o exemplo dos fonemas, oferecido pelo próprio Saussure (1916) e retomado em Lacan (1957): o fonema /t/, enquanto abstração, é um significante que comporta realizações orais e escritas variadas, desde que não venham a se confundir, por exemplo, com as que correspondem a outro fonema, como /d/. Ressalto, nesse sentido, que se pode pronunciar o /t/ da palavra tia, por exemplo, de diversas maneiras, como estuda a sociolinguística, mas não se pode pronunciá-lo como dia, situação em que estaríamos diante de outro significante.

O segundo princípio linguístico aí evidenciado está na necessidade de que os significantes se estruturem em composições guiadas por uma ordem fechada, a chamada “cadeia significante” (LACAN, 1957, p. 232). Aqui se encontra, pois, a originalidade de sua leitura da linguística, ao destacar a precedência que a psicanálise deve dar, com base na técnica freudiana, às relações entre os significantes em cadeia. Para Lacan (1957), pois, é isso que Freud (1916-17) indica ao propor suas técnicas de interpretação dos sonhos e de livre

associação como regra fundamental para a condução da interpretação das formações do inconsciente.

A esse respeito, a concepção lacaniana propõe compreender o sentido como decorrente de efeitos, produzidos por sua vez por articulações entre significantes, que se dão, concomitantemente, no nível horizontal (em cada sintagma, em cada construção particular de encadeamentos significantes) e no nível vertical (a partir das associações que tal significante comporta simbolicamente, ao sistema da língua). Nas palavras de Lacan, “[n]ão há, com efeito, nenhuma cadeia significante que não sustente como pendendo na pontuação de cada uma de suas unidades tudo o que se articule de contextos atestados, na vertical, por assim dizer, desse ponto” (LACAN, 1957, p. 234). Só pela via de uma leitura sistemática, combinatória, das relações entre os significantes nesses dois eixos é que se podem perceber os efeitos dessas associações sobre a significação, entendidos por “efeitos de sentido”.

Para Lacan (1957), tais perspectivas amparadas no desenvolvimento da Linguística não estavam acessíveis a Freud quando formulou o método psicanalítico, mas já se encontram previstas por ele quando menciona que os pensamentos inconscientes, em quase tudo semelhantes aos conscientes, caracterizam-se por encadeamentos associativos da ordem do deslocamento e da condensação (FREUD, 1915c, p. 127). Enquanto em Freud, o primeiro procedimento se descreve pelo deslizamento associativo em que uma ideia passa a representar

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