VIII. APPRECIATION DE L'AIDE 8.1 Existence de l'aide
8.1.1 L'augmentation de capital
Ainda que somente em 1915 tenha se dedicado a uma abordagem mais sistemática de sua teoria pulsional, Freud já havia apresentado, anteriormente, algumas reflexões bastante
semelhantes no sentido da insuficiência da atividade sublimatória para a dissipação da inquietude pulsional. Em 1908, por exemplo, o artigo A moral sexual “cultural” e o nervosismo moderno (FREUD, 1908b), já reconhece a parcialidade das pulsões sexuais e as diferencia do instinto sexual animal, sublinhando nelas o caráter de constância e a imensa disposição de energia que oferecem. Indica que, pela via do deslocamento, torna-se possível ao aparelho psíquico modificar as metas pulsionais sem que haja forçosa redução de intensidade, abrindo- se a possibilidade, à energia libidinal, de destinar-se em grande medida às realizações culturais (FREUD, 1908b, p. 369). Ressalva, contudo, que nem toda energia libidinal pode ser sublimada, asseverando a existência de um limite para os deslocamentos associados à pulsão sexual e, por conseguinte, a necessidade de que um tanto de satisfação direta (realização) venha a ocorrer em alguma medida.
Freud indica, nesse momento da obra, a possibilidade de compreender a sublimação como toda sorte de associação da energia libidinal a metas não consideradas diretas, compreensão que fundamenta a percepção da sublimação como um processo bastante difuso, presente não apenas na atividade artística, mas nas realizações científicas, na busca por conhecimento e, em meu entendimento, nas atividades culturais como um todo. Aliás, é bem por isso, creio eu, que se faz necessário questionar a possibilidade de uma sublimação completa dos impulsos sexuais:
(...) pode-se dizer que dominar um impulso tão poderoso como o da pulsão sexual por outra via que não a da satisfação é uma tarefa que talvez solicite todas as forças do indivíduo. Dominá-lo pela sublimação, desviando as forças pulsionais sexuais da meta sexual para metas culturais mais elevadas, é conseguido apenas por uma minoria, e, mesmo assim, só temporariamente, e mais dificilmente na época do ardente vigor juvenil. (FREUD, 1908b, p. 375-376)
Vislumbra-se, assim, uma perspectiva um tanto pessimista de Freud a respeito do sucesso da sublimação, que ele vê, nesse momento, como ocorrência rara, quase que a título de exceção, em relação a certa inevitabilidade da satisfação direta. A mesma abordagem pode ser percebida na discussão de Freud a respeito da vida e da personalidade de Leonardo da Vinci (FREUD, 1910), em que a sublimação é associada tanto à arte, quanto a uma espécie de pulsão de investigação, presente, nesse artista, desde a infância. A partir da análise dessa biografia específica, Freud (1910) detalha sua proposição, já desenvolvida em outros momentos (FREUD, 1905a, 1908c, 1909b), de que a busca infantil por conhecimento também tem origem na pulsão de olhar, e se associa a uma tentativa de compreensão dos enigmas da sexualidade, que incluiriam a origem dos bebês (e a própria origem, por exemplo), a diferença entre os sexos,
a organização corporal e a estruturação das dinâmicas sexuais e reprodutivas. Para Freud (1908c, 1910), as pesquisas infantis a esse respeito podem desembocar, por vias substitutas, em atividades científicas e culturais que às vezes perduram por toda a vida.
O caso de Da Vinci, para a interpretação freudiana, é ilustrativo de um deslocamento intenso nesse sentido, uma ocorrência bastante rara em que a libido é vivida como autorizada a fluir massivamente pela via da pesquisa e da investigação intelectual e artística (FREUD, 1910), encontrando uma força de sublimação bastante expressiva que parece ter por contrapartida a (supostamente total) rejeição de Da Vinci à satisfação sexual direta, por exemplo. Não se pode dizer, ainda num caso como esse, que o grande artista e pesquisador tenha sido inteiramente capaz de sublimar toda sua energia libidinal: um tanto dela permanece associado, como discute Freud (1910) a partir dos diários do ilustre pintor italiano, a certos comportamentos sintomáticos obsessivos; outro tanto, ao estabelecimento de relações homossociais substitutas (provavelmente nunca concretizadas) com seus jovens (e belos) aprendizes; outro tanto, ainda, ao caráter compulsivo da própria atividade investigativa, que acessava toda sorte de conhecimentos, mas por meio da qual parecia se barrar qualquer possibilidade de aproximação ao sexual e ao mero conhecimento de questões relativas à sexualidade.
Entendimento parecido será percebido na famosa obra O mal-estar na civilização, em que Freud (1930) empreende nova síntese, muito rica, de suas teorias pulsionais, dedicando mais uma vez à sublimação o caráter de um destino pulsional que favorece os empreendimentos artísticos, científicos e culturais de modo geral. Nas palavras dele:
A vida, tal como nos coube, é muito difícil para nós, traz demasiadas dores, decepções, tarefas insolúveis. Para suportá-la, não podemos dispensar paliativos (...). Existem três desses recursos, talvez: poderosas diversões, que nos permitem fazer pouco da nossa miséria, gratificações substitutivas, que a diminuem, e substâncias inebriantes, que nos tornam insensíveis a ela. (FREUD, 1930, p. 28)
Desenvolvendo tal reflexão, Freud (1930) indica que a solução mais atraente para o dilema humano parece ser a de satisfação completa de toda necessidade ou impulso que experimentemos, mas ressalva que tal forma de proceder traz em si um bom tanto de desprazer como resultado rapidamente perceptível. Intoxicações por substâncias inebriantes também constituem uma via bastante experimentada na busca pela eliminação da frustração inerente à vida humana, e o mesmo se pode dizer da tentativa, algo estoica, de dominação dos impulsos internos que geram a sensação de necessidade. Nesse quadro bastante complicado, a sublimação, alcançada por meio dos mecanismos psíquicos de deslocamento da libido,
ofereceria um dos resultados mais claramente satisfatórios, desde que associada a alguma forma de potencialização do ganho de prazer alcançável a partir do trabalho artístico e intelectual.
Ainda que reconheça tal possibilidade, porém, Freud (1930, p. 35) a caracteriza como uma espécie de satisfação que, de forma geral, resulta pouco eficaz, tanto por sua raridade, quanto por seu efeito físico, uma vez que não alcançaria o corpo de maneira tão profunda quanto a tentadora realização direta das pulsões:
A satisfação desse gênero, como a alegria do artista no criar, ao dar corpo a suas fantasias, a alegria do pesquisador na solução de problemas e na apreensão da verdade, tem uma qualidade psíquica especial, que um dia poderemos caracterizar metapsicologicamente. Agora, podemos dizer apenas, de modo figurado, que ela nos parece “mais fina e elevada”, mas sua intensidade é amortecida, comparada a satisfação de impulsos pulsionais grosseiros e primários; ela não nos abala fisicamente. A fraqueza desse método, porém, está em não ser de aplicação geral, no fato de poucos lhe terem acesso. Ele pressupõe talentos e disposições especiais, que não se acham presentes em medida eficaz. Também a esses poucos ele não pode assegurar a completa proteção do sofrimento, não lhes proporciona um escudo impenetrável aos dardos do destino e costuma falhar, quando o próprio corpo é a fonte do sofrer. (FREUD, 1930, p. 35-36)
Notam-se, no trecho, duas ressalvas à sublimação, referentes tanto a seu caráter restrito, causado pela suposta exigência de pré-requisitos específicos para sua realização (“talentos”), quanto à própria natureza da satisfação que oferecem, dado o seu grau de “amortecimento” e sua baixa expressividade em relação às experiências corporais mais diretas. Ao mesmo tempo em que lhe confere caráter especial, elevado, Freud reconhece, ainda nessa passagem, a necessidade de definições mais precisas quanto à natureza da satisfação sublimatória, algo que sabidamente nunca chegou a desenvolver plenamente em sua obra. Deixa, a esse respeito, algumas questões, incluindo a de uma relação não explorada entre sublimação e trabalho, a dúvida sobre a própria consistência dos “talentos e disposições” necessários à atividade sublimatória e a forma como pode ser vista a associação entre esta e as sensorialidades envolvidas em todo processo artístico, por exemplo.
Este ponto de vagueza teórica é de especial interesse aqui. Ao enxergar as práticas envolvendo fan fictions como objetos artísticos, literários, inclino-me a ver, em contraste com a exigência de capacidades artísticas sugerida por Freud, a possibilidade de que a satisfação sublimatória também se dê, de algum modo, já no próprio mecanismo do fantasiar ¾ algo que a teoria freudiana parece sugerir em outros momentos, quando compara, por exemplo, o mundo de fantasia a uma espécie de “reserva natural” do psiquismo:
O ser humano, contudo, sempre teve dificuldade em renunciar ao prazer; não consegue fazê-lo sem alguma espécie de compensação. Por isso, reservou para si uma atividade psíquica na qual concede a todas as fontes e vias abandonadas da obtenção de prazer uma nova vida, uma forma de existência na qual se veem livres das demandas da realidade e daquilo a que chamamos “prova de realidade”. Todo anseio logo alcança a forma de uma ideia de realização [de que foi realizado]; não há dúvida de que deter-se na realização da fantasia traz consigo uma satisfação, embora isso não turve o conhecimento de que não é a realidade. Na atividade fantasiosa, portanto, o homem segue gozando da liberdade frente a toda pressão exterior, liberdade a que, na realidade, renunciou há muito tempo. Ele consegue ser, alternadamente, um animal de prazer e, de novo, uma criatura sensata. (FREUD, 1916-1917, p. 401-402)
Se a fantasia possibilita ao homem sentir-se, novamente, esse “animal de prazer”, penso ser possível, ainda, associar aos deslocamentos afetivos por ela implicados alguma forma de prazer corporal, visível, por exemplo, na própria mecânica das atividades artísticas, que por vezes são bastante plásticas. Pintar, esculpir e, por que não?, escrever não deixam de envolver toque, contato com outros entes, manipulação sensorial dos objetos, tudo isso de forma fortemente associada à excitação do olhar e do mostrar, para não falar da conexão, mais visível ainda, entre a realização erótica e as artes performáticas, como a dança, o teatro e o cinema.
Tal percepção não é ignorada pelo próprio Freud em seus ensaios sobre estética, o que leva a crer que sua descrição da sublimação como “satisfação amortecida” talvez derive da mesma inclinação que o leva a postular o primado da realização genital como destino desejável para todo desenvolvimento sexual. Trata-se de uma visão algo marcada pelas concepções da época de Freud, constitutivas do caldo cultural de formação da própria psicanálise, que não se pode ignorar, tal como apontado por Foucault (1985), por exemplo (numa crítica que, ainda que muito relevante, não cabe aqui retomar). Pode-se mesmo supor que a própria dificuldade de Freud em apresentar uma formulação metapsicológica para o conceito de sublimação tenha a ver com tais barreiras culturais, que talvez também o tenham impedido de abordar mais detidamente a clara possibilidade de associação entre libido e trabalho, observável, por exemplo, nos percalços das escolhas profissionais como um todo.
Nesse caminho, proponho enfatizar o efeito psíquico da sublimação, tomada em caráter amplo, sobretudo por sua estreita correlação com procedimentos de materialização de elaborações fantasiosas sob formas culturalmente valorizadas e tranquilamente passíveis de disseminação, na direção do outro, posicionado como seu intérprete em atividades de fruição, por exemplo. Tal consideração está em consonância com a própria reflexão freudiana, quando diz que, pelo mundo da fantasia, torna-se possível a satisfação de nossos desejos menos concretizáveis, bem como seu compartilhamento:
Entre essas satisfações pela fantasia se destaca a fruição de obras de arte, em que por intermédio do artista se torna acessível também aos que não são eles mesmos criadores. Quem é receptivo à influência da arte nunca a estima demasiadamente como fonte de prazer e consolo para a vida (FREUD, 1930, p. 37)
De forma semelhante ao que propusera já em 1908, Freud nos permite supor, aí, uma cumplicidade entre autor, texto e leitor na constituição de fantasias mutuamente reconhecíveis, ainda que inconscientemente, algo que penso claramente visível nos textos de fan fiction. A existência ampla e múltipla destes permite imaginar que a criação literária não é tarefa restrita a poucos privilegiados, mas constitui dimensão própria ao humano, claramente observável se abandonados certos preconceitos estéticos acerca do que constitui efetivamente “a literatura”. Ademais, é preciso enfatizar que as fan fictions eróticas aqui analisadas certamente provocam, no leitor, reações que vão além do intelecto: pode-se supor, com relativo grau de consistência, que as cenas descritas nesses textos despertem reações físicas, corporais, afetivas, envolvendo não apenas o nojo e a angústia, mas a própria excitação sexual.
De forma resumida, nosso percurso teórico até aqui apresentou a satisfação direta, o recalque e a sublimação como alguns dos mecanismos humanos de busca por prazer e satisfação, experiências correspondentes, por sua vez, ao rebaixamento dos estímulos internos, excitações originadas no corpo. O dilema humano, em suma, está em que a realização direta de todos os componentes de sua busca por prazer não pode alcançar resultado positivo, por envolver impulsos ambivalentes, contraditórios, que o aparelho psíquico se vê obrigado a conciliar, ora ocultando alguns de seus elementos na instância do inconsciente, ora tencionando ligá-los a realizações ditas sublimadas, não associadas à satisfação direta, mas valorizadas socialmente, como a pesquisa científica e as artes. De todo modo, o insucesso dessa tentativa de compromisso é, no entanto, inevitável, dado que um tanto de realização direta parece indispensável, na concepção freudiana.
A literatura e, por extensão, a escrita e a leitura de fan fictions, se vistas como fonte de efetivação sublimatória, poderiam, portanto, compor o quadro dos mecanismos de satisfação que driblam o recalque, sem consistir em concretização direta, o que lhes garantiria um papel interessante, até mesmo preponderante, na economia libidinal dos que se envolvem em tais práticas. Se a lógica da sublimação for, contudo, a de obtenção de prazer, ainda que deslocada, resulta ainda incompreensível que, na produção sublimatória, abordem-se justamente questões altamente complexas envolvendo a sexualidade, as vivências infantis e o jogo de fantasias que aí se constitui. Com essa discussão, parece-me ter atingido um limite em relação ao que propõe a teorização freudiana sobre o conceito de sublimação, com uma exceção: sua articulação à
complexa noção das pulsões de morte, que mais adiante, terá grande importância na compreensão lacaniana do quadro ora analisado.