Théorie des cordes en espace-temps courbe
III.2. Quantification des cordes dans AdS 3
2.1 – Os Gêneros e Elementos Carnavalizantes
Como foi feito no capítulo anterior, para apresentar os conceitos que
servirão de base para a análise proposta do texto de Nelson Rodrigues, será necessário um retorno à Antigüidade Clássica. Esse regresso será fundamental para a elucidação do termo carnavalização, desenvolvido pelo teórico Mikhail Bakhtin, na década de 20, no que se refere aos estudos da Literatura e da Crítica Literária.
Retornando aos antigos gregos, existiam, de acordo com Bakhtin, vários gêneros que abrangiam as manifestações literárias daquela época. Dentre todos, havia aqueles que possuíam características mais expressivas: os que abarcavam o campo sério-cômico, isto é, aqueles que, como a tragédia e a epopéia, se opunham às particularidades das expressões ditas mais sérias. O sério-cômico era a fusão do cômico e do filosófico, estava intrinsecamente ligado às festas folclóricas carnavalescas e unia três importantes peculiaridades, sobretudo pelo tratamento que deu à revelação da verdade como forma de apreciar, interpretar e representar a realidade. A representação no sério-cômico passou a apresentar uma confluência temporal “viva do cotidiano”, na qual os heróis dos antigos mitos e lendas recebiam formulações atualizadas. A segunda peculiaridade do sério-cômico foi sua consagração pela experiência e pela fantasia livre no ato de criação literária. E, por fim, a mescla de estilos e “variedades de vozes”, que se opôs ao princípio da unidade estilística de outros gêneros. Este último caráter do sério-cômico, conforme Bakhtin (1997, p. 108): “Caracteriz[ou-se] pela tonalidade da narração, pela fusão do sublime e do vulgar, do sério e do cômico [...] do discurso da prosa e do verso, [no qual] inserem-se dialetos e jargões vivos [...]”. É a partir desses três princípios dos gêneros do sério-cômico que se aprofundou a cosmovisão do discurso carnavalesco, servindo como determinantes para a evolução da prosa ficcional.
Dentre os gêneros que melhor representaram o campo sério-cômico, Mikail Bakhtin elegeu o discurso socrático e a sátira menipéia. Estes, na visão bakhtiniana,
foram os elementos constituintes da carnavalização, porém, para se compreender esta, é importante examinar em que incidiam e como se formaram tais gêneros.
O diálogo socrático foi difundido por vários filósofos, na antiga Grécia, e teve como base as atividades didático-filosóficas de Sócrates. Esse gênero tinha por finalidade o esclarecimento da verdade, mas possuía em si um alto grau da cosmovisão carnavalesca. Fruto, principalmente, da transição do “estágio socrático oral”, no desenvolvimento desse gênero, para a sua fase literária, transformou-se em um gênero de natureza memoralística, já que as palestras de Sócrates foram organizadas por seus discípulos em anotações de tom narrativo.
No discurso socrático, a busca pela verdade se dava pela dialética entre o perguntar e o responder. Sócrates vagava pelas ruas e campos com o intuito de dialogar com as pessoas, fazia-se de desentendido a fim de conduzi-las à reflexão consciente sobre os mais variados assuntos, divulgando um discurso irônico ao responder com outros questionamentos as perguntas feitas a ele. Esse “método” partia do pressuposto de que o filósofo nada sabia, portanto todos os homens nada sabiam. Com essa atitude, a subjetividade de cada um era exposta, o que representava uma ameaça para a sociedade, pois, por meio desse pensamento, se nada se sabia, conseqüentemente não se conhecia a religião, nem tampouco as leis que regiam o Estado.
Os homens eram então, para [Sócrates], de uma importância infinita, e quanto mais ele se mostrava inflexível em não se submeter ao Estado, tanto mais flexível, tanto mais maleável ele era no trato com os homens [...] Ele gostava igualmente de falar com agricultores, alfaiates, sofistas, homens do Estado, poetas, com jovens e velhos, falava facilmente sobre todos os assuntos, porque em toda parte encontrava uma tarefa para sua ironia. (KIERKEGAARD, 2005, p. 142).
Juntamente com essa dialética entre o saber e o não-saber, Sócrates desenvolvia um caráter mítico em seus discursos. Ao colocar os indivíduos frente à pátria e aos costumes, desenvolvia o princípio de conscientização de uma vontade própria, que julgava e tomava decisões. Tratava-se de um “demônio interior” que comandava cada um dos homens, como uma divindade, cuja voz advertia e exaltava sua subjetividade.
Na antiga Grécia, as leis eram como imperativos divinos, que regiam a vida em sociedade e o próprio destino humano, conforme será explicado posteriormente. Os indivíduos ainda não tinham uma consciência interior, deixavam suas decisões subjetivas para o outro, no caso, o oráculo. Nos discursos de Sócrates, esse demônio passa a assumir o lugar do oráculo, pois ambos, ao serem comparados, como afirma Kierkegaard (2005, p. 131): “Tinha[m] a configuração de um saber que ao mesmo tempo estava[m] vinculado[s] a uma inconsciência”. O demônio socrático não era a total consciência do indivíduo, mas o provocador dessa tomada consciente e a rejeição de uma ordem já estabelecida no terreno religioso. Ao emancipar-se das forças divinas e do Estado, o homem alcançava, por meio de sua subjetividade, a ignorância e esta, por sua vez, acreditava Sócrates, conduzia o indivíduo à sabedoria. Sob essa perspectiva, para muitos daquela sociedade que acreditavam no perigo iminente dos diálogos de Sócrates, como afirma Kierkegaard (2005, p. 137): “Era como se os deuses irados tivessem virado as costas para os homens [...] Mas num outro sentido, os homens é que se haviam afastados dos deuses e se aprofundado em si mesmos”.
A liberdade atribuída ao indivíduo, por meio da sua subjetividade, apartava- o das leis da sociedade, da religião e, até mesmo, da vida familiar. A visão socrática, conforme Kierkegaard (2005, p. 147), “[...] dissolvia a lei da determinação natural em que cada membro individual da família se baseava em toda a família [...]”. Assim, pode- se observar que o questionamento dos relacionamentos familiares vem de longe e que, em particular na obra de Nelson Rodrigues, tal problemática é aprofundada. Se, na visão socrática, a família é enfocada como controladora do indivíduo, no texto rodrigueano, a traição e o incesto colocam abaixo o ideal da instituição familiar.
Sócrates, cujo método consistia em se desprender das forças exteriores, fez com que fosse perseguido e condenado pelo Estado. Sua “vocação divina” era persuadir os indivíduos acerca deles mesmos e, sobretudo, conferir o julgamento individual de todas as coisas.
Para provocar este agir individual, ele moralizava; ‘mas não era uma espécie de pregação, exortação, ensinamento magistral, moralismo sombrio, etc’ [...] tais coisas não combinavam com a urbanidade grega. Pelo contrário, este moralizar se exprimia no fato de que ele levava cada um a pensar sobre suas obrigações. Com jovens e velhos, sapateiros, ferreiros, sofistas, políticos, cidadãos de qualquer tipo ele entrava na discussão de seus interesses, fossem interesses domésticos
(educação dos filhos) ou interesse do saber, e orientava o pensamento deles a partir do caso determinado rumo ao universal, ao verdadeiro e belo que vale em si e por si. (KIERKEGAARD, 2005, p. 173).
O diálogo socrático foi concebido como o “saber que nada sabia”, colocado como um processo investigativo da interioridade e apresentado das seguintes formas: - por ser um método dialógico, a idéia de verdade nesse gênero não era única, ou seja, era resultado do diálogo entre vários indivíduos. Não é à toa que Sócrates, em seus discursos, reunia muitas pessoas e propunha discussões a fim de estabelecer a verdade;
- pelos procedimentos da síncrise e da anácrise, sendo o primeiro o confronto entre opiniões e pontos de vista em relação a determinado objeto, e o segundo a técnica de provocar a palavra, de levar o interlocutor a expressar suas opiniões. Tais procedimentos eram fundamentais para o diálogo socrático, porque instauraram definitivamente a réplica no pensamento humano;
- pelo princípio da “experimentação da verdade”, já que esse gênero transformou em ideólogos os que disseminaram e participaram do diálogo socrático, a começar pelo próprio Sócrates, seus interlocutores, discípulos e outros indivíduos; - pela intenção de gerar uma atitude criativa que libertasse a palavra do automatismo e da objetivação, revelando o caráter profundo da personalidade e do pensamento do homem; e
- pela experiência dialógica de trabalhar as idéias, o que proporcionaria “imagens embrionárias” das mesmas nas representações feitas pelo ser humano por meio de outras idéias em diálogo, o que cumpria o papel da ironia no discurso socrático, pois, segundo Kierkegaard (2005, p. 165), “[...] a ironia é, assim como a lei, uma exigência e a ironia é uma exigência enorme, pois ela desdenha a realidade e exige a idealidade”.
Foram estes os elementos formadores do diálogo socrático, responsáveis pela consideração deste gênero como constituinte do procedimento irônico na Literatura. A ironia do discurso socrático era reveladora de ações ambíguas, entre o perguntar e o responder, a dialética e o mítico, e na representação do que era algo negativo para o Estado, mas positivo para a “significação da consciência” do indivíduo, por meio de um saber especulativo. Ao ser penalizado com a morte, a punição de
Sócrates remete à de um herói trágico e, também, a um ato irônico e ambíguo, porque, para o filósofo, a “ignorância” também tangia à morte, já que dentre seus questionamentos pairavam dúvidas sobre o que acontecia com quem morre. Portanto:
É verdade que o herói trágico não teme a morte, mas reconhece nesta um sofrimento, uma passagem pesada e dura, e neste sentido tem validade sua condenação, mas Sócrates não sabe simplesmente nada, e neste sentido é uma ironia sobre o Estado, que o condena a perder a vida, e com isso crê que o puniu. (KIERKEGAARD, 2005, p. 235).
Porém, o diálogo socrático não teve vida longa e, no decorrer de sua “desintegração”, constituíram-se outros gêneros literários, dos quais se destaca a sátira menipéia.
Foi Menipo de Gádara, que viveu no século II a.C., o responsável pelo desenvolvimento desse outro gênero, a sátira menipéia, cuja denominação provém do nome desse filósofo grego. Suas origens provêm, também, do folclore carnavalesco e, da mesma forma que o diálogo socrático, essa modalidade do sério-cômico foi defendida por outros autores, contemporâneos de Menipo, e estabeleceu-se, com outras denominações, em períodos posteriores, marcando presença, na Literatura, desde a Era Medieval até os dias de hoje, com diferentes variações. Foi, porém, na Antigüidade que a sátira menipéia foi definida, constatando-se nela a existência das seguintes características:
- a presença maior do cômico;
- a presença da liberdade de criação e da fantasia, livre do conteúdo histórico-memoralístico e das lendas, enfim, descompromisso com a verossimilhança; - a audácia da fantasia na criação de circunstâncias extremas, cujo intuito é a busca da verdade em forma de provocação e experimentação livres. De acordo com Bakhtin (1997, p. 114): “Com este fim, os heróis da menipéia sobem os céus, descem ao inferno, erram por desconhecidos países fantásticos, são colocados em situações extraordinárias reais”;
- o ajuste orgânico da fantasia, do simbólico e do místico-religioso com a realidade do submundo e do grosseiro, ou seja, o choque entre as idéias elevadas e as perversões e vulgaridades mundanas;
- o diálogo entre a criação fantástica e o “universalismo filosófico”, como visão apocalíptica de mundo que, segundo Bakhtin (1997, p. 115): “Procura apresentar, parece, as palavras derradeiras, decisivas e os atos do homem, apresentando em cada um deles o homem em sua totalidade e toda a vida mundana em sua totalidade”;
- a ação e o confronto das idéias, que ocorrem universalmente nos seguintes planos: na Terra, no Olimpo e no Inferno. Esta estrutura triplanar foi bastante utilizada nas narrativas da Antigüidade Clássica, Idade Média e na Literatura Renascentista;
- o “fantástico experimental” como forma de se compreender determinado objeto pela óptica do inusitado;
- os estados morais e psicológicos do homem, mostrados pela primeira vez em uma representação anormal, na qual a loucura, o devaneio, as paixões obsessivas, o suicídio e a fantasia são situações limítrofes na perda da perfeição e na revelação de um outro destino, de uma outra visão acerca do ser humano;
- o escândalo, o comportamento excêntrico e o discurso inoportuno caracterizam a sátira menipéia, liberando o comportamento do indivíduo das regras, da etiqueta e do sagrado;
- as discrepâncias e os jogos paradoxais. Como diz Bakhtin (1997, p. 118): “A menipéia gosta de jogar com passagens e mudanças bruscas, o alto e o baixo, ascensões e decadências, aproximações inesperadas do distante [e] casamentos desiguais”;
- a utopia social por meio dos devaneios ou de viagens a lugares obscuros; - o hibridismo dos gêneros no conteúdo da menipéia: verso, prosa, epístola e outros;
- como continuidade da característica anterior, a pluralidade dos gêneros focaliza a palavra enquanto expressão literária e dialógica; e
- o enfoque destrutivo e atual dos acontecimentos sociais e ideológicos, decorrendo daí o teor jornalístico atribuído a esse gênero na Antigüidade greco-romana. As especificidades acima relatadas levam a crer que a sátira menipéia provocou a transformação do conceito de narrativa, incorporando e instaurando outros gêneros discursivos. Com essa renovação, a menipéia recebeu um status bastante
significativo, embora sua concepção venha de um momento de crise do pensamento humano.
[A sátira menipéia] se formou na época da desintegração da tradição popular nacional, da destruição daquelas normas éticas que constituíam o ideal antigo do ‘agradável’ [...] numa época de luta tensa entre inúmeras escolas e tendências religiosas e filosóficas heterogêneas, quando as discussões em torno das ‘últimas questões’ da visão de mundo se converteram em fato corriqueiro entre todas as camadas da população e se tornaram uma constante em toda parte onde quer que ser reunisse gente [...] (BAKHTIN, 1997, p. 119).
As características de tal gênero se estruturaram em um momento de transformações religiosas e filosóficas, tidas como novas “visões de mundo”, marcado pelo rompimento da idéia trágica do homem daquele período, concepção esta que será abordada a seguir, e pela intensa conscientização do pensamento humano. Não é à toa que muitos desses elementos se incorporaram em outros gêneros literários mais tarde. A sátira menipéia não poupou o mundo divino. Luciano de Samósata, cujas atividades literárias atingiram o apogeu no segundo século d.C., foi o sátiro que melhor desenvolveu esse gênero e colocou em dúvida as crenças e a religião de sua época. Em suas obras, como paródia ao método socrático, ele fundou um pensamento filosófico, expondo “o sério a serviço do cômico”.
Luciano zomba de tudo e de todos, filósofos, deuses, charlatões, falsos profetas, sábios, loucos e até dos céticos, dos cínicos e dele mesmo. Uma derrisão tão radical acaba em sabedoria debochada diante da ‘imensa idiotice dos homens’, em uma terra em que ‘ninguém faz nada por nada’. A moral da vida é ‘deixar passar rindo a maior parte dos acontecimentos sem levar nada a sério’, nem a terra nem o céu nem o inferno. (MINOIS, 2003, p. 66).
O poder do riso, que outrora era dos deuses, para melhor manterem o temor dos homens, com Luciano, volta-se contra aqueles. Esse erudito, visto pelos cristãos como a encarnação do diabo, fez a eles diversos questionamentos, como uma forma de conscientização, já que, em suas críticas, qualquer um poderia se fazer passar por Cristo e zombar daqueles que renegaram os deuses gregos, adoraram um “sofista crucificado” e passaram a viver de acordo com os princípios deste. Por isso, Luciano considerava os cristãos, conforme Minois (2003, p. 68), “[...] um bando de crédulos ingênuos que [...] têm uma pressa infatigável de se fazer matar, oferecendo-
se, estupidamente, ao martírio [...] convencidos de que serão imortais e viverão eternamente”. Para o povo cristão, Luciano era o demônio zombador, mas o riso contido em suas obras estava vinculado ao infernal, à morte e à liberdade de espírito e da palavra e, da mesma forma, era evocador de um caos que o homem desejava organizar, tal qual o demônio socrático, questionador e revelador das certezas e incertezas de uma sociedade que se distanciava do primitivismo. Por isso, o teor filosófico-ideológico da sátira menipéia, da mesma forma que o diálogo socrático, estava na experimentação de uma verdade carnavalizada.
Na observação dos aspectos desses dois gêneros discursivos, o discurso socrático e a sátira menipéia, Mikhail Bakhtin desenvolveu sua teoria da carnavalização como procedimento literário. Recurso este, segundo o teórico russo, bastante utilizado a partir da Literatura Renascentista e, sobretudo, nas produções contemporâneas, como é o caso do corpus em análise, e que, a seguir, será abordado. Antes, porém, faz-se necessário desenvolver o conceito de carnavalização nas expressões literárias, que é, segundo Bakhtin (1997, p. 122), “[a] transposição do carnaval para a linguagem da literatura [...]”. Portanto, para se entender como funciona essa literatura carnavalizada, é necessário compreender o que é e como se organiza a festa carnavalesca.
2.2 – Carnaval e Carnavalização
O carnaval, de acordo com o calendário católico romano, é o momento que antecede a ressurreição de Cristo. Caracteriza-se como um rito geralmente noturno, no qual as praças e as ruas são os locais das manifestações. Pode-se classificá-lo como uma festa informal, cujo período de realização é “preparatório” para uma série de penitências e arrependimentos que virão adiante, na época da Quaresma, em que o comportamento das pessoas é controlado pela abstinência de carne e dos vícios. As festas carnavalescas, conforme DaMatta (1997, p. 48), “[...] são momentos muito mais individualizados, sendo vistos como propriedade de todos, como momentos em que a sociedade se descentraliza”.
Essa manifestação popular exige uma atuação de todos os seus participantes. Entretanto, essa participação reflete uma “vida às avessas” ou um “mundo às avessas”, devido aos desvios habituais que o carnaval proporciona; desvios das regras que determinam a vida do homem, pois, durante o carnaval, tudo é permitido: as pessoas se fantasiam, ou seja, assumem outra identidade, ficam mais alegres, cantam, dançam e esquecem seus problemas cotidianos.
As leis, proibições e restrições, que determinavam o sistema e a ordem da vida comum, isto é, extracarnavalesca, revogam-se durante o carnaval [...] O comportamento, o gesto e a palavra do homem libertam-se do poder de qualquer posição hierárquica (de classe, título, idade, fortuna) que os determinava totalmente na vida extracarnavalesca [...] O carnaval aproxima, reúne, celebra os esponsais e combina o sagrado com o profano, o elevado com o baixo, o grande com o insignificante, o sábio como o tolo, etc. (BAKHTIN, 1997, p. 123).
A relação entre Deus e o homem é a marca fundamental do carnaval. O profano e o sagrado aproximam-se, integrando o céu e o inferno, o pecado e a salvação, o sexo e a castidade, os abusos e as continências. Essas contradições pertencem a toda humanidade, conduzem à conjunção ou disjunção com o religioso e conferem liberdade ao indivíduo, tornando-o semelhante ao outro. No carnaval, ricos e pobres compartilham de um mesmo momento, tornam-se todos nobres no carnaval, havendo uma “trégua entre dominados e dominantes”.
Note-se, aliás, em relação a isso, que as coletividades tipicamente carnavalescas são [...] modos relativamente ‘espontâneos’ de associações, onde todos são parentes, amigos, vizinhos [...] Talvez seja o momento da vida social brasileira onde se possa expressar de modo aberto e sem censuras os laços de vizinhança, parentesco [...]. (DAMATTA, 1997, p. 68 – 69).
Por ser uma festa tipicamente alegre, o carnaval é marcado por momentos extraordinários, sendo a vida diária vista como algo negativo e repressivo. Nele, as posições hierárquicas do dia-a-dia são esquecidas ou invertidas. Da mesma forma, a palavra fantasia, que aqui no Brasil possui duplo sentido (desejar algo ou veste de
carnaval), impera no contexto carnavalesco, pois ela mais revela do que esconde.
Representa os desejos e outros papéis que o fantasiado pretende desempenhar nesse momento de igualdade e libertação das normas sociais. Portanto:
[...] carnaval é uma festa especial e também uma trapalhada, uma confusão, uma bagunça. Um momento em que as regras, rotinas e procedimentos são modificados, reinando a livre expressão dos sentimentos e das emoções, quando todos se podem manifestar individualmente. (DAMATTA , 1997, p. 157).
A instauração desses elementos na literatura contribuiu para a evolução da prosa ficcional. As principais ações carnavalescas – a coroação bufa e o destronamento do rei do carnaval – são os rituais desse festejo que mais se incorporaram nas expressões literárias. O ritual de coroação-destronamento dá-se de variada forma em diversas festas carnavalescas. No carnaval brasileiro, por exemplo, tem-se a coroação do rei Momo e toda sua corte, que reina durante todo período carnavalesco (Aqui, verifica-se outra ambigüidade: a palavra reinar, que pode significar dominar, imperar ou
brincar, bagunçar; atos estes que ocorrem no reinado de Momo). Por fim, acabados os