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2. Les principales politiques de l’État à intégrer dans le PLU

2.9. La prévention des risques, des nuisances et des pollutions

2.9.11. La qualité de l’air

Elias e Scotson (2000) numa descrição de uma comunidade de periferia urbana, mostra no seu interior a relação do grupo estabelecido que esteve por ali há longa data, e os novos residentes, tratados pelos primeiros como outsiders. O grupo estabelecido

estigmatizava o outro grupo, como se estes tivessem um menor valor humano. Como se a este lhe faltasse à virtude humana superior, que o grupo dominante atribuía a si próprio. Segundo os autores, no processo de interação entre estabelecidos e outsiders, os indivíduos

“superiores” fazem com que os indivíduos “inferiores” se percebam, eles mesmos, como carentes de virtudes, e venham a se julgar humanamente inferiores. Estes autores também observam que a estigmatização social não se resume a uma atitude de pessoas que

demonstram acentuado desapreço por outra pessoa como indivíduo, em Winston Parva (nome fictício de uma cidade do interior da Inglaterra), um membro de um grupo estigmatiza outro não por suas qualidades individuais enquanto pessoa, mas por pertencer a um grupo

coletivamente considerando como diferente e inferior ao próprio grupo. Vejamos o que mencionam alguns migrantes, no tocante a esta estigmatização, que lhes recai pela atribuição coletiva de “paraíbas” que, de um modo geral, pode ser pensado como uma classificação outsider:

Fui comprar umas costelas, ela tava muito bonita, aí eu falei, moço eu quero um quilo e meio dessa costela, tá muito bonita. Ele falou êita “paraíba”, tá muito linda né! Oxênte, sei lá! vai te pra lá! Mas eu fiz de conta que nem escutei ele. Eu me incômodo, porque a voz da gente incomoda tanto eles. “Paraíba” é uma pessoa normal quanto qualquer um, eles tem um sotaque carioca, agente tem um sotaque “paraíba”. Levo meu filho no salão, não sei o que tem carioca, chego lá a mulher diz, oxêti bixim, ele fica em ponto de morrer, pela forma que a moça fala com ele, zombando. (Paula, 27)

Uns falam zombando de você, como se a Paraíba fosse o fim do mundo, muitos tem uma imagem da Paraíba como um Estado miserável, que não tem nada, que é só desgraça é só miséria. Que na verdade não é, muitos acham que a Paraiba, é o que

meu deus do céu, é a áfrica, naquele ponto da áfrica onde só tem a miséria. Muitos pra zombar e tirar onda, falam isso que a Paraíba não tem nada de futuro. É muito

difícil um carioca falar mal de um paraibano, a pessoa do paraibano, do caráter dele. Eles te zombam, mas da tua cara porque tu é “paraíba”, porque acha

que você não vale de nada, que você é um zero a esquerda, por eles achar que a Paraíba é um Estado que não vale nada, só que quando eles passam a te conhecer aí isso muda, digamos assim, o que eles acham do “Paraíba” é o contrario. Se torna o inverso, se voltando contra eles mesmos. (Cleidjane, 26)

Estudar aqui (Vila São Luís) é bem legal,sou bem aceita, me vêem como muito inteligente e sem preconceito, preconceito só nas origens, assim, por ser

“Paraíba”. (Elisângela, 30 anos)

Assim como observa os autores Elias e Scotson (2000), é possível constatar nas ultimas falas transcritas, que o grupo não é estigmatizado por suas características individuais, mas por ser coletivamente atribuído a este um estatuto de inferioridade, que ao longo do tempo, veio sendo relacionado com o termo “paraíba”. Na penúltima fala a migrante, se remete a imagem pejorativa que atribuem ao seu Estado de origem, como se esta absorvesse, ou carregasse consigo o que lhe atribuem de negativo. Ela deixa de ser percebida como uma pessoa à medida que é imputado para si um sentido coletivo estigmatizante. Assim, ela menciona: é muito difícil um carioca falar mal de um paraibano, a pessoa do paraibano, do caráter dele. Desse modo, no que se refere à pessoa do paraibano o preconceito não se sustenta, mesmo que suas bases não deixem de operar coletivamente. Na última transcrição a migrante coloca que não sofre preconceito, apenas o preconceito de origem. Portanto, ressalta capacidades como a inteligência e o fato de ser “bem aceita”. Porém, observo que, de algum modo, ela acentuou sua capacidade particular a inteligência, e quando pontua o fato de ser “bem aceita”, parte da idéia que poderia não ser “bem aceita” o que aparecem subsumidas a estigmatização no seu discurso.

A antepenúltima fala transcrita foi para exemplificar como cotidianamente os

emigrantes são vitimados por atitudes estigmatizantes, o exemplo contém referências sofridas pelo grupo investigado a partir da fala, ou sotaque, um dos elementos diacríticos que

diferencia os emigrantes esperancenses no interior do bairro. A mesma migrante, fala do caso do filho, que sofre por conta do seu modo particular de falar, muitas vezes estereotipada pelo outros, ancorado numa imagem deturpadora do nordeste, vinculadas nas mídias, nas novelas televisivas ou programas de humor.

Elias e Scotson (2000) observam que no interior da comunidade investigada, entre os grupos, não há diferenças de nacionalidade, ascendência étnica, cor ou raça, pouco se

Deste modo, a antiguidade da associação , com tudo que ela implica, promoveu o surgimento de um grau de coesão do grupo, que lhe permite se distanciar do outro. Estes fatores

apontados também não são um diferencial no bairro de Vila São Luís, apenas a ocupação que distingue os imigrantes e os não imigrantes. Não há diferenciações de classe social ou cor. No que se refere a Estado/Nação também não há. Porém, percebo que no contexto da migração interna brasileira e, em particular, o fluxo migratório na relação nordeste/sudeste, as

diferenças regionais assumem uma maior eficácia sociológica na compreensão das relações entre migrantes e não migrantes em Vila São Luís. Para exemplificar isto, vou fazer menção à segunda ocasião em que estive em Vila São Luís. Nesta, umas das emigrantes esperancenses que havia voltado a estudar e estava no segundo ano letivo do ensino médio, me comentou sobre atitudes jocosas de outros colegas de sala no tocante sua origem. Na sua sala, havia um grupo de alunos que sempre zombava pelo fato dela ser paraibana. Ao saber disso, pedi para minha conterrânea, falar com sua professora de História, que segundo ela, gostava muito de Antropologia, para me ceder uma de suas aulas, para que eu pudesse fala sobre o tema do preconceito e em particular a xenofobia, a aversão irracional a grupos ou pessoas que vem de fora. Desse modo, podia estimular o debate em sala e ter uma opinião sobre o que os não migrantes argumentavam sobre algumas atitudes preconceituosas no bairro sobre os

nordestinos, que comumente rotulam de “paraíba”. Nesta ocasião havia três migrantes na sala, dois destes emigrantes de Esperança. Não pretendo discutir todo o evento, mais gostaria de destacar a ocasião que um dos alunos, quando abri o debate, afirmou no meio de uma

discussão com outro aluno, o seguinte: “se vocês falam tão bem da Paraíba porque não voltam para lá, o que vem tanto fazer aqui, voltem para terra tão boa de vocês”. Neste momento, fiz uso do discurso da Nação, respondi que: como paraibano, fluminense, alagoano, ou

independente dos Estados, compomos os Estados Federativos do Brasil, que juntos formamos um país sem barreiras internas. Neste caso, apenas meu argumento buscou trazer o sentimento comum de pertencer a uma Nação. Porém, os discursos apontavam mais para as diferenças regionais. Sei que as diferenças em si, são apenas diferenças, elas apenas se tornam

problemáticas quando pressupõem desigualdades, ou servem para inferiorizar outros. Deste modo, observo que no interior do grupo operam as distinções regionais, os discurso de uma Nação são subsumidas mediante as diferenças internas.

Ainda, para Elias e Scotson (2000) na comunidade de Winston Parva, os outsiders, depois de algum tempo, continuam aceitando com um tipo de resignação a idéia de pertencer

a um grupo de menor virtude e respeitabilidade apenas justificado por uma conduta efetiva isolada praticada por uma pequena minoria. Mas segundo os mesmo autores:

Seja qual for o caso, os grupos outsiders (enquanto permanecem totalmente intimidados) exercem pressões tácitas ou agem abertamente no sentimento de reduzir os diferenciais de poder responsáveis por sua situação inferior, ao passo que os grupos estabelecidos fazem a mesma coisa em prol da preservação ao aumento desses diferenciais. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p. 37).

Geralmente, os emigrantes em Vila São Luís freqüentam festas promovidas pelos próprios migrantes em casa ou bares de outros migrantes. Eles costumam, também, freqüentar a Feira de São Cristovão, a Churrascaria Gaúcha no bairro Laranjeiras, Parque União, ambos no Rio de Janeiro - RJ. Estes espaços mencionados também são freqüentados por outros emigrantes nordestinos e atraem muitos dos emigrantes esperancenses de Vila São Luís. Um dos migrantes me relatou uma ocasião em que freqüentaram uma festa no bairro com outros migrantes e demais pessoas:

A gente foi para um aniversário do meu cunhado, aí quando chegou lá nós pedimos para botar um CD de forró pra gente dançar, aí os cariocas: êita agora só vai entrar música de “paraíba”, êita olha quantos “paraíba” tem ali. Com isso eles pensaram que iria incomodar agente, incomodou um pouco com certeza, não pra gente fazer barraco na festa, não é que agente é “paraíba” que nos somos baixo não. Agente pegou, simples demais, e fomos embora, curtimos melhor do que na festa deles. A festa só tinha mais carioca que paraíbas, só que alguns “paraíbas” queriam escutar um forró né, só tocava pagode, os cariocas queriam pagode e agente queria forró, tocou muito pagode, aí tocou um forró, agente começou a dançar ele ficaram rindo, sabe. (Rubens, 26).

As relações entre migrantes e não migrantes em Vila São Luiz perpassam pela relação apontada por Elias e Scotson (2000) sobre a oposição de estabelecidos e outsiders. Os

migrantes, mediante a condição de outsiders, constroem uma auto-imagem e a auto-estima a partir da visão de outros no interior do grupo. Segundo os autores, os indivíduos no interior dos grupos têm uma autonomia relativa. Deste modo, esta apenas funciona à medida que suas condutas e auto-respeito se relacionam com a opinião interna dos grupos. Porém, acredito que os emigrantes esperancenses assumem uma particularidade, nesta condição de outsider, se os não migrantes no contexto da imigração contribuem para que os migrantes percebam, eles mesmos, como carentes de virtudes. Os freqüentes contatos dos emigrantes com a sociedade de origem, por meio dos retornos às festividades, redefinem estratégias para se sobressaírem frente à destituição da dignidade (poder) que sofrem no interior do grupo. Dessa forma, isso ocorre quando os migrantes investigados dialogam com mais de um espaço e grupo, e sua

condição de outsider, torna-se multilocalizadas. O que caracteriza um enfrentamento particular. Já que estes se tornam menos cativos a esta condição de outsiders.

Durante o período que estava realizando minha pesquisa, fui fazer uma visita a uma migrante que teve uma trajetória distinta dos demais emigrantes de Vila São Luís. Ela havia concluído o ensino médio e viajou para casa de uma irmã, onde consegui terminar um curso superior. Na atualidade, ela mora no bairro de Copacabana e é funcionária pública. Nesta ocasião, comentando sobre minha pesquisa, ela me relatou um evento que lhe ocorreu. Ela estava com sua filha, ainda bebê, passeando no carinho, quando outra mulher chega e pergunta se ela era babá de sua filha. Segundo a migrante, esta pessoa fez tal comentário ou questionamento, porque ela era nordestina, e o mais comum era nordestinas serem babás naquela localidade. Perguntei se isto lhe incomodou, ela falou que não, que inclusive tinha também um tipo físico de nordestina. Questionei-lhe sobre este tipo, ela pouco soube falar, mais que algumas pessoas ressaltavam estes traços físicos nesta. Nesta ocasião, percebi haver também uma “racialização” do nordestino, na medida em que a raça pode ser usada na construção de um argumento antológico da inferioridade do outro. Não querendo me prolongar nesta discussão, percebi que diferentemente dos migrantes de Vila São Luís, ela tinha uma forma particular de enfrentamento frente ao preconceito. Ela relatou ocasiões em que amigas do nordeste falavam que eram mineiras, para justificar um sotaque não carioca e reduzir o peso do preconceito. Em Vila São Luís, o sentimento de grupo, as associações de trabalho e os projetos de vida compartilhados e os constantes fluxos com a localidade de origem, produzem uma identidade mais afirmativa e menos situacional.