1. Préambule
1.4. Les documents s’imposant au PLU
É provável que o início da emigração de esperancenses para o Rio de Janeiro corresponda ao período que este fluxo se inicia em todo nordeste, nas décadas de 1930/40. Porém, os primeiros registros fotográficos de caminhões, chamados “pau-de-arara” e ônibus (figura 1), transportando esperancenses e por estes conduzidos são de 1951. Este fato indica que, por volta deste período, sugiram as primeiras agências ou agenciamentos, que permitiram os deslocamentos da cidade para o sudeste do país e de lá retornando para o município de Esperança.
Figura 1: Ônibus de transporte de migrantes. Fonte: Esperança de Ouro (2011).
Meu pai, que emigrou de Esperança em 1960, fez parte da primeira geração de emigrantes. Quando retornou, trazia motivações que muito se aproximou as constatações apontadas por Garcia Jr. (1989), na obra O Sul: Caminho do Roçado8. Meu pai, de família camponesa, saiu da zona rural da localidade que veio a ser o município de Areial – PB (antes povoado de Esperança). Durante o tempo que trabalhou no Rio de Janeiro obteve uma economia suficiente para estabelecer uma mercearia na cidade de origem e, nos anos
seguintes, casou com minha mãe e ambos se empenharam no seu maior desejo, a aquisição de um sítio. Neste sítio morei os primeiros anos de minha vida. Quanto às atividades na
agricultura, continuaram como uma das fontes de renda da minha família, mesmo quando meus pais resolveram voltar a morar na cidade de Areial.
Observa Garcia Jr. (1989) que, a migração possibilitou em muitos casos um processo de democratização da terra, que antes se concentrava nas mãos de uma aristocracia canavieira, que se estendia da zona da mata ao agreste paraibano. E, com o declínio dos engenhos, que possuíam uma vasta quantidade de terra, muitos emigrantes paraibanos ao retornar com uma economia adquirida em trabalho assalariado no sudeste do país, conseguiram comprar lotes de terra (sítio, como são chamados), saindo da condição de cortador de cana e meeiro, após ter passando pela experiência de assalariado para se tornar proprietário de terra, camponeses. A localidade a qual me refiro, fica mais ao agreste da Paraíba, onde não houve a monocultura da
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Afrânio Raul Garcia Jr. realizou sua pesquisa nos anos de 1976,1977 e 1982 na região do brejo e o agreste paraibano nos municípios de Remígio e Areia, localidade limítrofe a que realizo minha pesquisa, a cidade sede do município de Esperança.
cana de açúcar. Garcia Jr. (1989) informou que muitos destes latifundiários, “os senhores dos engenhos”, possuíam terras no agreste, onde utilizavam para a pecuária e plantio de outras culturas, como algodão e sisal. Não sei a procedência da terra que meu pai adquiriu, mas sei que sua aquisição adveio da sua iniciativa de emigrar e, do mesmo modo, o desejo de sua obtenção motivou tal atitude.
A motivação em adquirir uma terra para o plantio e a criação de alguns animais, adveio da origem camponesa dos meus pais, para os quais as atividades agrícolas eram mais que uma fonte de renda, era um modo de ocupação, uma prática que marcava os períodos do ano e era por meio desta, que o ano era considerado como bom ou não, o que dependia das chuvas regulares para uma colheita farta. Lembro quando nos meses de fevereiro e março de cada ano, meu pai ficava apreensivo aguardando as primeiras chuvas para iniciar o preparo da terra para o plantio e, também, para saber o que informava os indícios populares sobre um bom ou mau ano. Por exemplo, a chuva no dia 19 de Março, dia de São José, santo católico que inspira, também, quantidades de “Zés” na Paraíba9, é um bom presságio para um bom ano de colheita, bem como, é o dia ideal para plantar milho para que o mesmo possa ser comido, ainda verde, nos festejos de São João. Outro bom indício era quando uma ave em particular, fazia seus ninhos um pouco acima das encostas dos riachos, o que sugeria um ano de chuvas em abundância, a ponto de encher os riachos e transbordar para as várzeas. Meu pai afirmava que a ave sabia quando o ano ia chover pouco ou muito, o local onde fazia seu ninho revelava o quanto à água poderia subir na encosta do riacho naquele ano.
A geração de emigrantes que estudo faz parte de um grupo que veio posterior a primeira geração de emigrantes. Eles são filhos, sobrinho ou netos dos primeiros emigrantes. A primeira geração emigrou da Paraíba entre as décadas de 1940 e 1960, segundo o que informaram os emigrantes mais velhos, que saíram da cidade no final dos anos 1950. Deste modo, a estratégia de migrar para o sudeste do país não esteve presente na vida dos seus tios ou dos seus pais, pois foram os jovens do sexo masculino de sua geração que primeiro se aventuraram nas longas viagens de ônibus ou pau-de-arara para região sudeste do país. Garcia Jr. (1989) constata que foi a partir dos anos 1940, que se intensificou um fluxo migratório no
9 Outro fator que motiva na localidade as famílias colocarem o nome de José (Zé) ou Josefa nos seus filhos advém da crença em que, se uma criança nascer laçada (com o cordão umbilical em volta do pescoço, ou sua marca), o que torna o parto mais ariscado, tanto para mãe, quanto para o recém-nascido, é de bom grado colocar o nome da criança de José ou Josefa, em homenagem ao santo, São José, que pode lhe defender ou anular uma possível predestinação que essa pessoa teria de ser acometido por acidentes graves que poderia acarretar em sua morte. Ou seja, não teria uma morte em decorrência de doenças comuns a fase da velhice, mais de acidentes ou crimes como o homicídios.
interior do Brasil, em que trabalhadores do campo se deslocavam para as grandes cidades do país, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro.
A primeira geração de emigrantes retornou definitivamente, ou temporariamente, com uma série de experiências vividas em áreas que estavam passando por um grande
desenvolvimento econômico no país, como Rio de Janeiro e São Paulo. Foi um grupo que conheceu novas estratégias econômicas para fora do seu Estado de origem e, para além das atividades antes realizadas. Foi uma geração que experimentou “este mundo sem porteiras”, como informa os versos da música do Rei do baião, Luiz Gonzaga, Vida de Viajante:
“Minha Vida é andar por esse país, Pra ver se um dia descanso feliz, Guardando as recordações, Das terras onde passei, Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei [...]”.
Foi uma primeira leva de emigrantes, que carregavam consigo motivações ainda camponesas. Muitos deles com o propósito de retornar e continuar no campo, uma vida de “andar por esse país”, mas “pra ver se um dia descanso feliz”, no sertão onde os amigos lá deixou. Foi uma geração que instaurou uma nova perspectiva geográfica das oportunidades, para as gerações futuras.
Quanto à geração que veio posterior, os filhos destes emigrantes da primeira geração, com os quais realizei minha pesquisa, observo que estes trazem consigo pouca identificação com as atividades camponesas. Porém, é necessário esclarecer que os emigrantes
investigados, em sua maioria, tiveram experiências em trabalhos na agricultura, mas
basicamente são da zona urbana da cidade de Esperança, considerando que há quarenta anos atrás as atividades agrícolas eram as atividades que concentravam o maior número de pessoas no município é provável que, os pais dos emigrantes estudados tivessem inserido nelas.
Durante o período da minha infância, vi meus dois irmãos mais velhos migrarem para os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Eles viviam em idas e vindas. Faziam parte de um grupo de jovens ociosos, com pouca afinidade com a agricultura. A atividade agrícola era por eles vista como um dispêndio de trabalho incerto, pois havia sempre o risco do insucesso por conta das estiagens, além de representar uma atividade com um status, muitas vezes, negativo. Por diversas ocasiões, ouvi meu pai falar que ele era um “cabra trabalhador”, e sua fala
manuseio de uma enxada, instrumento básico para várias atividades na agricultura. As mãos calejadas, para meu pai, atestavam a disposição, coragem e a capacidade de um homem de enfrentar o trabalho, por mais árduo que este fosse, representava um ato de hora. Para meus dois irmãos mais velhos, se ainda representava algo positivo, não era um valor que
pretendessem exibir e sim esconder. O trabalho agrícola para os meus irmãos (e poderíamos estender para os demais jovens da localidade na área urbana) era uma atividade que lhes rendia um status negativo. Muitas vezes, evitavam a exposição ao sol em seus braços, rosto e pescoço para que essas marcas não denunciassem a sua atividade na roça. Eles pouco
comentavam entre seus círculos de amizade sobre essa atividade, achavam melhor mencionar que ajudavam meu pai, mas não assumiam totalmente o trabalho agrícola.
Eles, assim como eu, trabalharam na lavoura de feijão, algodão, batatinha inglesa, milho e erva doce, cultivos comuns da mesorregião agreste da Paraíba. No entanto, se desprendiam desta atividade sempre que possível na ocasião da emigração, quando estavam ausentes ou quando estavam desenvolvendo outra atividade; como o comércio. Eles chegaram a possuir pequenos comércios, mistos de bar e lanchonetes e, também, borracharia. Buscavam sempre outras estratégias de trabalho, para não ter que ficar desocupados e meu pai não exigir a presença deles nas atividades agrícolas.
Segundo Paulo (2010), um dos primeiros debates sobre ruralidade, definia o rural, como o espaço ligado à tradição, ao atraso e, em contrapartida, o espaço urbano como o espaço do desenvolvimento, concebendo o urbano e o rural como espaços dicotômicos. Segundo a mesma autora, esta perspectiva foi ideologicamente responsável por fundamentar inúmeros preconceitos e levou o mundo urbano a desenvolver estereótipos para o homem rural, baseados na idéia de ignorância e rudez. Percebo que muitos dos emigrantes, posterior a primeira geração, foram muito envolvidos por esta construção do rural, como o espaço do atrasado e buscavam se distanciar da figura do “matuto”, aquele indivíduo que incorpora para si todos os aspectos negativos atribuídos ao rural.
Foi possível verificar entre o grupo investigado, que há entre os emigrantes,
disposições, hábitos, habilidades que de algum modo, os aproximam da geração anterior, no que ser refere às práticas camponesas. No entanto, há uma desvalorização dessas práticas, que se acentuam à medida que as categorias urbanas de julgamento são introduzidas pelos
Deste modo, aquele emigrante, que buscava se estabelecer no campo, nas atividades rurais, não condiz com a realidade dos emigrantes de Esperança, que se encontram na atualidade em Vila São Luís. A possibilidade de retorno encontra-se sempre ligada a alguma atividade urbana no comércio.
A estratégia de migrar, como me informou um dos emigrantes, acontecia “quando o cabra procura terra nos pés e não acha”. Expressão que equivale dizer que, a estratégia de emigrar só acontece quando não se tem como se manter na localidade de origem, quando não há meios econômicos viáveis, ou uma saída que considere não humilhante diante dos comuns. Mediante esses fatores, a saída mais provável seria buscar um trabalho nas grandes cidades do sudeste do país, “aventurar lá fora”. No entanto, outros fatores que extrapolam uma análise apenas econômica, ou que explorem os aspectos econômicos aliados aos aspectos culturais e subjetivos da experiência migratória, nos permitem revelar uma série de nuanças sobre o fenômeno que acredito precisar de uma maior atenção.
Após apontar o quadro mais geral sobre a atual situação da migração interna no Brasil, e em particular, o fluxo entre o Estado da Paraíba e o Rio de Janeiro, localidade de origem e destino dos emigrantes de Esperança. além de ter feito alguns apontamentos teóricos no tocante ao tema, e por último, iniciar um rápido relato sobre a localidade de origem dos emigrantes. No capítulo subseqüente vou explorar as organizações promovidas por estes migrantes na localidade, tanto na origem quanto no destino.
3. O RIO DA ESPERANÇA: OS ESPAÇOS SOCIAIS CONSTRUÍDOS NA TRAJETÓRIA