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Psychose adaptative : banal et neuroleptiques

Todo professor apresenta, em sua formação, experiências simbólicas que vão se transformando e ganhando corpo à medida que convive e interagem com o mundo ao seu redor (FURLANETTO, 2003). São experiências singulares que vão se transformando durante a vida. Essas experiências não estão reduzidas aos cursos de formação inicial ou continuada, nem somente à troca de experiências vivenciadas entre colegas de trabalho, mas vão se tecendo desde a sua infância, desde os primeiros contatos com a escola, com as primeiras professoras e as primeiras transferências de esquemas afetivos descritas nos estudos de Freud (apud PIAGET, 1964).

Faz-se necessário conhecer as primeiras experiências vivenciadas pelos professores para entender, hoje, como foram configuradas algumas representações projetadas sobre os elementos apresentados nos cursos de formação e na realidade vivenciada por cada docente.

Na realidade, cada nível de percepção desses professores foi se configurando a partir das representações de mundo que foram sendo geradas em suas matrizes, ou seja, suas representações acerca do que vivenciam são fruto de uma vida de experiências significativas.

As convicções, os saberes e as práticas gerenciados, hoje, pelo professor não se constroem em um pequeno espaço de tempo ou, até mesmo, apenas em um curso de graduação. Não se pode desconsiderar tudo aquilo que o profissional construiu até o momento, pois parte dele, daquilo que conhece, foi se constituindo a partir de suas experiências com o mundo.

O professor é formado por um conjunto de saberes e práticas construídos nos cursos, a partir da formação inicial, de suas experiências como aluno e como professor e suas relações familiares, durante a sua formação em serviço e contatos com outros colegas de profissão e, ainda, em cursos de aperfeiçoamento. São histórias humanas tecidas em uma vida inteira e que se desdobram, também, em atividades profissionais. Histórias singulares que permanecem nele enraizadas e são refletidas em suas condutas diárias, seja na profissão, seja na vida pessoal.

A relação com o pai que, à noite, ajudava a fazer lições de casa de Matemática; com a tia, que era professora e que adorava contar histórias, o medo da professora de Língua Portuguesa que rabiscava os textos de vermelho, foram sendo incorporadas e também ajudaram a compor esse professor que percebemos conter aspectos

conscientes e, também, inconscientes, criativos e defensivos. (FURLANETTO, 2003, p. 26).

Como afirma Furlanetto (2003), para entender esse “professor interno” que existe em nós, ou seja, nossa matriz inicial, é necessário entender como ele foi gerado. Warner (apud HOLLY, 2007, p. 87) afirma que “[...] não é apenas uma parte de nós que se torna professor”. Todo o nosso ser está imbricado em nossa formação profissional, pois não há como decompor o sujeito em sujeito pessoal e sujeito profissional.

Goodson (2007) considera que decisões e ambientes onde se desenvolvem nossas carreiras só podem ser entendidos por meio de uma compreensão detalhada de nossas vidas, mediante a ambiguidade ou, senão dizer, a multiplicidade de ambientes em que vivemos e de experiências pessoais vivenciadas ou mediadas.

Este item descreve, na tentativa de mapear as experiências vividas e contadas pelas professoras informantes, suas histórias iniciais. Pretendeu-se, contudo, entender algumas experiências iniciáticas que possam tê-las influenciado nas escolhas atuais e de que forma gerenciaram suas carreiras e se transformaram ao longo de seu percurso profissional.

Mesmo que algumas delas não tenham optado pela carreira docente desde a infância e que esse não tenha sido um sonho cultivado nesse período, será interessante identificar em que momento das suas vidas aconteceram esses pontos de bifurcação ou de interesse.

Em alguns casos, docentes que iniciaram suas carreiras porque identificaram, em suas próprias professoras da escolarização básica, características que as fizeram refletir sobre a experiência docente e despertaram nelas um espirito maternal, presente em professores da educação fundamental. Outros casos acentuaram o interesse já existente, porque perceberam, na professora, algo que gostariam de fazer ou ser, algo de seu interesse, ou, pelo contrário, ao repudiar as ações de um professor sem afeto, quiseram fazer a diferença, tornando-se amáveis e fiéis aos preceitos éticos da profissão.

Foram sete mulheres - professoras, mães, que se doaram e que contaram um pouco de suas experiências para o desenvolvimento deste estudo.

Durante o desenvolvimento deste estudo, as professoras foram identificadas da seguinte maneira: professora A. J., professora G. S., professora M. F., professora M. A. T., professora L. M., professora T. C., professora E. V., mantendo-se suas identidades preservadas.

Inicialmente, foram apresentadas algumas histórias de vida e, após análise, foi montado um quadro perfil para uma melhor visualização das experiências relatadas.

Foram, também, detectadas algumas palavras geradoras que possibilitaram o desenvolvimento da análise. As palavras geradoras são originárias dos textos elaborados pelas professoras participantes, quando solicitadas a procurar, dentro de si, aspectos marcantes de sua trajetória, organizando essas representações em um texto. As palavras mais citadas foram: rotinas, organização, professores comprometidos, marcas positivas, exemplos a serem seguidos, sofrimento e tortura.

A maioria das docentes relatou rotinas que era religiosamente seguida por suas professoras, como por exemplo, a sua organização, como ela guardava tudo em pastas, o cuidado com cada aluno em particular, o desejo de ser igual à professora no futuro, manifestado na profissão atual. Algumas professoras entrevistadas recordaram que decidiram ser professor a partir dos momentos relatados.

A Professora T. C. afirmou que o seu desejo de ser professora aconteceu depois de seu ingresso no curso magistério. Ela confessou que, naquela época, esse curso era o caminho mais fácil para uma mulher ter uma profissão e optou pelo curso por esse motivo. Após seu ingresso, o encontro com as professoras, seus exemplos de dedicação a ajudaram a ter amor pela profissão. “Então, eu fiz magistério por isso, acho que como a maioria das pessoas. Faz com esse intuito e depois acaba gostando [...] eu acredito que sejam os professores que a gente tem”. (Professora T. C.).

A mesma professora acrescentou que uma colega de trabalho, em especial, fez toda a diferença, por sua competência e dedicação, sendo muito importante para a consolidação de sua escolha profissional.

Percebe-se, nos depoimentos, que sempre existe um momento inicial relevante, influenciado por alguém que estava ali apenas exercendo, simplesmente, a sua profissão e que, no entanto, de maneira paralela e talvez inconsciente, desenvolveu formas, meios, gerando arquétipos de como ser um bom professor. Esses são professores que verdadeiramente atuam e formam em serviço e cujos traços particulares definem um percurso singular de construção em outros professores, o que reafirma o discurso de reapropriação da realidade, observado por Ferrarotti (1988).

Além disso, Cunha (2009 apud CUNHA 2010, p. 64) afirma que a “[...] formação pessoal e profissional se dá por meio das interações que acontecem entre as pessoas”, pois essas interações determinam o curso das aprendizagens do sujeito, fornecendo a eles aprendizagens singulares. Segundo Moraes (2008), os exemplos de professores ali contidos servirão de inspiração para a vida toda, além de possibilitarem essas novas construções a partir das suas singularidades. Como afirma Cunha (2009 apud CUNHA, 2010, p. 64), “[...]

essas interações, porém, se dão numa rede, na medida em que não são lineares, pois possibilitam as interconexões de maneira imprevisível, ou seja, as pessoas tomam caminhos inusitados, seguindo diferentes possibilidades como as oferecidas numa rede”. Isso mostra que o ponto de referência, com seus exemplos e suas características, vai ajudando a compor o perfil profissional que vai se interpondo a essas experiências, criando, para si, novas possibilidades.

Acredita-se que todas as pessoas que possuem algum nível de escolarização, mesmo que, hoje, não seja professor, possuam lembranças da infância relacionadas ao seu período de escolarização, lembranças que possam ser agradáveis ou não e que são guardadas na memória e, muitas vezes, envolvidas por uma afetividade capaz de transformar sua personalidade.

Para entender a matriz inicial dos professores investigados, foi necessário reportá-los aos tempos de infância, para que pudessem recordar momentos significativos de sua trajetória profissional. Perceberam-se, em alguns professores, algumas incertezas quanto aos momentos mais marcantes de sua infância, como foi o caso da professora M. A. T., que se sentiu mais à vontade ao relatar eventos mais atuais. O contrário ocorreu na entrevista com a professora L. M., onde o seu entusiasmo tomou conta do ambiente, ao recordar a professora querida de infância, imitada em suas características, em seu comprometimento com a profissão e no tipo de letra que fazia. A professora afirmou, “queria ser igual a ela”!

Durante o processo de organização das representações e sentimentos que marcaram consideravelmente suas trajetórias escolares, alguns professores omitiram fatos, possíveis de ser observados apenas na entrevista. Outros foram bem breves em suas recordações. Alguns recordaram momentos difíceis, com professores que marcaram sua trajetória, negativamente, professores poucos afetuosos que faziam da escola um local de tortura, caso citado pela professora A. J.: “[...] ir à escola era motivo de tortura [...]”. Ela relatava que a professora dava cascudos nos aluno e que isso a marcou profundamente. Hoje ela afirma que é totalmente diferente dessa professora.

[...] chorei muito, sofri também. Mas chegou o fim do ano e o sofrimento passou. Hoje sou professora, amiga, irmã e etc. do meu aluno. Eu sou o contrário da minha professora má, não quero pro meu aluno o que tive na infância. Amo o que faço. Apesar de toda situação que vive um professor, mesmo assim amo o que faço. (Professora A. J.).

Observa-se, aqui, um sentimento de tristeza que poderia ter causado revoltas, insegurança ou, até mesmo, uma aversão à profissão de professor. Pelo contrário, gerou carinho, afeto, vontade de mudar, de fazer diferente, o que ratifica o que foi dito por Cunha

(2009 apud CUNHA, 2010), ao afirmar que as experiências vividas proporcionam caminhos diferentes daquilo que se espera.

Diante de uma resposta ao questionário, a professora L. M. escreveu o seguinte: “[...] marcas positivas a gente apreende profissionalmente, marcas negativas tornam-se exemplos para crescer e não fazer igual”.

Assim, percebe-se que não se sabe ao certo o que transforma uma determinada postura ou atitude em uma ação proporcionalmente diferente do que foi vivenciado. Acredita-se que as outras experiências vividas na família, os processos de socialização, ou em outras experiências vividas em muitos momentos da escolarização, possam influenciar as opções nas direções que se apresentam na vida profissional.

As experiências citadas foram muitas: professores afetuosos, comprometidos, com rotinas organizadas, com cuidados especiais, além de momentos de superação auxiliados por professores, momentos que ganharam uma representação significativa em suas matrizes e certamente influenciaram na busca pela profissão. Isto pode ser observado nas falas a seguir:

Inicialmente, no fundamental I tive necessidade de ser a melhor da turma e me esforçava para isso acontecer, porém, no fundamental II, tive problemas quanto à adaptação à multidisciplinas (professores diversos), tive então, uma queda de rendimento e aversão à escola, mas alguns professores interessados e comprometidos me ajudaram muito, fazendo vir à tona o desejo de ser e de provar minha inteligência ou minhas capacidades. Logo me interessei pelo magistério, pois quis ser um referencial para os alunos, além de poder ajudá-los. (Professora G. S.). [...] meus professores serviram como espelhos, para aprimorar e estabelecer determinadas matrizes para meu desempenho profissional. Cada um deixou marcas [...]. Mas, a que mais deixou marcas foi a do fundamental que me ajudou a construir um perfil de educadora comprometida com o que faço. (Professora L. M.).

Foi interessante perceber o quanto os professores têm a capacidade de ser verdadeiros exemplos a serem seguidos e copiados, caso já mencionado pela professora L. M., que confirmou possuir uma verdadeira admiração pelas qualidades e atitudes de sua professora, tais como: o comprometimento, o diálogo que tinha com a turma, o companheirismo e a preocupação com cada aluno, chegando até a fazer visitas aos alunos, quando faltavam.

Além disso, uma professora participante da pesquisa relatou, também, sua admiração pela sua antiga professora, com bastante entusiasmo, confessando que de um ano para o outro tentara cobrir a letra da professora contida no caderno, procurando imitá-la. Hoje, ela reconhece que sua letra é igual a da professora. As duas, atualmente, são colegas de trabalho e a professora continua sendo sua principal referência de profissional. É o que se pode observar na fala, a seguir:

E desde a letra eu me inspirava nela. Achava linda a letra dela, como ela escrevia no quadro e eu copiava e desenhava. Tanto, que a minha letra hoje é igualzinha a dela [...]. Ela copiava nos nossos cadernos. Então, de um ano para outro eu cobria toda a escrita dela pra tentar ser igual. Eu não fiz caligrafia, eu cobria a letra dela. (Professora L. M.).

A professora M. A. T. recordou momentos mais recentes de suas experiências escolares, como aquela professora do cursinho que influenciou na escolha profissional. Quanto aos seus professores, na formação inicial, afirmou que todos tiveram sua parcela de contribuição na constituição de sua matriz pedagógica, mas não se aprofundou em maiores detalhes.

Outro momento importante, na busca por experiências iniciáticas, configurou-se na relação estabelecida entre as disciplinas com as quais as professoras mais se identificaram no seu processo de escolarização e os professores mais marcantes. Evidenciou-se, claramente, que as disciplinas mais significativas foram aquelas ministradas pelos professores mais marcantes e que a maioria das professoras se identificava com atividades relacionadas à leitura e produção de textos, além de metodologias didáticas relativas a atividades lúdicas e passeios programados.

Quanto à aprendizagem, a disciplina com a qual elas mais se identificaram, durante o seu período de escolarização, foi português, resposta que se fez presente em quase todos os questionários. A matemática foi citada como aquela em que as professoras apresentavam maiores dificuldades. Somente o relato de uma das entrevistadas atribuiu ao professor de matemática o fato de ter influenciado sua opção profissional.

Observou-se, também, que a utilização de boas metodologias favorece a aprendizagem e facilita a proximidade com o professor, possibilitando, assim, um relacionamento professor- aluno mais agradável, o que, certamente, favorece o gosto do aluno por uma determinada disciplina. Constata-se, então, a interdependência entre conteúdo e método, também presente nesses primeiros momentos.

Assim, conclui-se que o professor tem grande responsabilidade sobre as possíveis escolhas profissionais dos alunos, confirmando, dessa forma, o que Zeichner (1993) observa, ao chamar atenção para a responsabilidade que o professor tem ao realizar sua prática e afirmar que as escolhas e opções que os professores fazem têm implicações nas oportunidades que são proporcionadas às crianças.