Furlanetto (2003) percebeu, em suas pesquisas, que alguns professores identificaram momentos, em suas trajetórias, que marcaram seus movimentos de transformação. Esses acontecimentos podem ser externos ou internos, respectivamente, mobilizados por fatores que vêm de fora do indivíduo, afetando-os e fatores internos ao indivíduo, como é o caso da motivação que os leva a mudanças significativas. Assim, a autora percebeu que fatos da vida pessoal dos professores podem desencadear um determinado interesse particular em professores, o que seria reconhecido como um fator interno. Essa motivação que nasceu dentro dele o levará a novas buscas (FURLANETTO, 2003).
Os fatores externos podem ser criados no próprio desenvolvimento de um curso de formação. Algumas práticas ou teorias podem afetar diretamente o professor e ressignificar
seus conceitos. Essa ressignificação não pode ser previsível, pois o processo de crescimento profissional, ou o processo de individuação, são muito particulares, são constituídos internamente e nem os próprios professores possuem pleno controle sobre esses fatos.
Finalmente, vale, ainda, observar que as professoras entrevistadas responderam a uma pergunta que as levaram a identificar alguns pontos marcantes em seus processos de transformação. O que fez você mudar a sua prática? Foi a forma como elas foram interrogadas. Na verdade, também, procurou-se refletir sobre o que mais as influenciavam para provocar possíveis mudanças, durante o seu percurso profissional. Cada professora apresentou uma resposta diferente, o que permitiu a identificação e o estudo de elementos significativos na transformação das matrizes pedagógicas dos professores entrevistados.
Por exemplo, a professora G. S. revelou que a escola pública mudou completamente sua prática, tornando-a mais sensível às necessidades dos alunos e à busca constante de evolução de sua prática. É o que pode ser observado a seguir:
Eu trabalhei durante seis anos em escola particular, então lá é uma outra realidade pra gente, sabe? As coisas não dependem exclusivamente de ti e tem toda uma hierarquia, né? O que deveria haver também na escola pública [...] a escola pública depende exclusivamente de você, professor. Você que faz a escola pública e numa escola de rede privada não, você acaba que, a tua autonomia acaba sendo a de menor importância. Da tua prática individual, o que tu pode acrescentar à escola é o mínimo e na escola pública não.
A escola pública ela necessita de ti [...] o que mais mudou na minha prática é a forma de encarar os alunos, de ver os meus alunos. Antes eu os via como meros alunos, que precisavam aprender, que estavam ali para aprender e essa é a ordem natural das coisas, só que hoje na escola pública eu percebo que os alunos precisam muito mais que aprender as disciplinas comuns, como eles precisam se tornar pessoas, seres humanos e ver isso acontecer em sala de aula. Então assim, se você não tiver sensibilidade pra isso? Não acontece. Então, o que mudou na minha prática foi a sensibilidade. Eu passei a estar mais sensível às necessidades dos alunos. A realidade da escola pública me fez mais sensível. Ela me deixou mais sensível em relação aos meus alunos e a buscar mais, a buscar soluções. Fiquei muito mais comprometida com o ensino na escola pública, muito mais!
M. F. afirmou que os cursos de formação e as leituras constantes proporcionaram mudanças significativas. Já a L. M. afirmou que a troca de experiências com colegas, os cursos vivenciados e a prática foram elementos que proporcionaram mudanças significativas.
M. A. T., disse que a revisão constante de sua prática, além de já ter citado os cursos e a troca de experiências com colegas, a fez ressignificar seus métodos e processos. A seguir, pode-se observar o que ela disse:
[...] quando eu percebo que [...] o que eu tô fazendo não tá surtindo efeito. Então a gente tem que procurar melhorar, né? Procurar fazer mudanças, assim [...] pra melhorar a prática na sala de aula. [...] mudou bastante sim, agora eu vou me referir ao curso de meio ambiente, né? [...] a gente desenvolveu um projeto na escola de como trabalhar o material reciclável, a questão do lixo. É [...] então [...], esse curso influenciou bastante, a gente teve que desenvolver uma atividade na escola. E nós
passamos o que aprendemos, lá, para as crianças. Levamos pra outra escola pra apresentar o que a gente tinha aprendido. (Professora M. A. T.).
A professora T. C. revelou um aspecto importante, uma grande barreira que se forma nas escolas, impossibilitando o uso de elementos vivenciados nos cursos. No relato a seguir, consegue-se perceber as barreiras enfrentadas pela professora e o desânimo que nela se instalou:
[...] o que eu fazia antes [...], assim, eu tinha mais gás, eu tinha mais empenho. Eu acho que foi de forma negativa essa mudança. Porque muita coisa que eu fazia a três anos atrás eu não posso [...] eu não faço atualmente. Por conta de ajuda, de apoio, né? Porque nós não temos, é [...], nos não temos um acompanhamento, nós somos de um anexo. Então quem só tem direito a o coordenador, o supervisor, é a escola polo. A gente fica muito só [...]. Os cursos geraram mudanças, mas existe uma barreira, o que eu fazia na escola ‘A’ eu não consigo fazer nem a metade na escola ‘B’.
Às vezes, não nos desenvolvemos significativamente diante de algumas barreiras que nos são impostas. Essas, muitas vezes, descontroem saberes que foram construídos com muito entusiasmo e isso acontece em todas as áreas. Nesse momento, é interessante que lembremos o que diz Sá-Chaves (2000, p. 27): “Somos transformadores de nós mesmos e dos lugares pequenos que, nesse mundo, nos couberam”.
A professora A. J. não se sentiu à vontade para relatar algo específico, mas afirmou que os cursos contribuíram muito para essas mudanças. Por fim, a professora E. C. relatou que a troca de experiências com as colegas a fez mudar bastante e que foi muito bem assessorada em seus primeiros anos, como professora do município. É o que pode ser percebido a seguir:
Eu acho que tudo infere tudo contribui. Na verdade, porque tem a sua prática, tem os cursos que você faz, tem as pessoas com quem você convive. Eu acho que eu sou muito daquela professora curiosa, se eu vejo alguém fazendo alguma coisa [...] eu gosto muito de brincar, de fazer joguinhos, brincadeiras com meus alunos. Então, eu acho que tudo contribui. Não foi só uma coisa, foram vários fatores que influenciaram na melhoria da minha prática. (Professora E. C.).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
São muitos os ambientes que vão compondo a nossa história e muitas as influências que recebemos desde quando estamos no ventre materno. As instituições pelas quais passamos, a família, a igreja e a escola são as mais comentadas. Dentro dessas realidades, existem experiências particulares, conhecidas, muitas vezes, somente pelo sujeito que as vivencia. Aquelas que vivenciamos no pátio da escola, na hora do recreio, aquele “não” da mamãe, incompreendido, aquele afeto da professora, quando se precisava e até mesmo os cartões que fazíamos para ela e ela rasgava. Essas são situações que todos nós, seres humanos, vivemos e aprendemos a conviver com elas. O que não nos damos conta é o quanto essas experiências passadas significam para nossa formação pessoal e profissional, hoje.
O estudo possibilitou às professoras participantes reportarem-se ao passado, relembrando aspectos importantes de suas experiências iniciais, como primeiro passo na conquista de um autoconhecimento e um autogerenciamento de suas experiências.
Ajudá-las a entender esse processo de volta ao passado, para ressignificar o presente, foi um aspecto importante do nosso estudo e que gerou uma grande quantidade de informações que puderam ser analisadas.
A vida vai tecendo-nos e buscando, em nós mesmos, respostas em nossos momentos de atuação profissional e pessoal. É impossível dissociar essas duas categorias em que vivemos, até porque o nosso eu pessoal se mistura ao eu profissional, de tal maneira, que fica difícil desvincular um do outro, pois somos uma unidade, um organismo vivo que recebe influência de uma rede interconectada, constitutiva da realidade complexa que nos rodeia.
Olhar para dentro de nós mesmos e contemplar as lembranças, o cheiro que emana de nossas experiências é adentrar em um processo de autoconhecimento e capacitar-nos para novas configurações, além, também, de poder proporcionar isso aos demais. Um autoconhecimento que nos ajuda, como profissionais da educação, a buscar respostas e alternativas de melhoria, principalmente em nosso processo de autoformação.
Foi necessário que as professoras passeassem sobre suas experiências para ressignificar suas práticas atuais e, possivelmente, entender por que razão algumas práticas são tão significativas para elas e outras não.
Quanto aos cursos oferecidos pela SEMED, são cursos baseados em programas federais de formação de professores e reelaborados com a participação de profissionais comprometidos, que tentam oferecer aos professores da rede possibilidades de reflexão e de melhoria em suas práticas, apesar das adversidades apresentadas pelo sistema. Porém os
cursos são significativos para as professoras, pois vão ao encontro de suas necessidades e, consequentemente, contribuem para suas práticas.
O entusiasmo contido em algumas professoras foi marcante, muito mais que suas próprias falas, possibilitando chegar a algumas conclusões. Suas experiências com as primeiras professoras foram essenciais para a formação da professora atual, experiências contidas nos movimentos da profissão e que não são catalogadas em livros.
Encorajar a adentrar no processo de transformação de suas matrizes é fazer com que o professor tome as rédeas de sua formação, não esperando apenas que as influências externas o sensibilizem; por outro lado, o professor formador cuidará de seu papel, refletindo sobre a realidade e contribuindo, a partir dela, para a efetiva construção dos conhecimentos trabalhados nesses cursos.
Percebe-se, então, que a significação dos cursos oferecidos pela SEMED está em seus conteúdos, na mediação do professor formador e na responsabilidade mútua entre formadores e cursistas.
As professoras relataram muitos aspectos positivos desses cursos e compreensões correspondentes aos saberes iniciais, o que poderia ter proporcionado essa significância tão elevada comentada por elas. Em contrapartida, também foi perceptível, dentro dos aspectos apresentados nos cursos, a presença constante de realidades almejadas pelas professoras, práticas essenciais à sua função e que foram ao encontro de suas expectativas, além da existência de professores capacitados, com habilidades que proporcionaram melhor relacionamento teoria e prática.
Concluiu-se que a mediação do professor, aliado à escolha de conteúdos significantes e a participação ativa dos cursistas constituem-se em elementos essenciais e motivacionais que possibilitam a interconexão de saberes e realidades presentes nos ambientes de formação. Além disso, esses fatores possibilitam a permanência dos professores nesses cursos e a busca de formação continuada por parte desses profissionais, como parte de seu processo de autoformação, o que caracteriza um amadurecimento do profissional que busca gerenciar seu processo de formação.
Partindo dessas considerações, o desenvolvimento de uma formação significativa que promova a conscientização do professor na busca por uma reflexão sobre a sua prática depende de duas instâncias: a primeira refere-se ao responsável pelo desenvolvimento desses cursos e que busca desenvolver elementos essenciais e significativos neles, com seus conteúdos mediados pelo professor formador. A segunda compreende a visão dos professores
cursistas, sua participação ativa nos cursos e como eles percebem e se identificam com os elementos apresentados neles.
Acredita-se numa responsabilidade mútua entre quem oferece e faz a mediação dos cursos e aqueles que buscam, participam e interagem com o mesmo. São professores capazes de tomar as rédeas de sua formação.
Assim, temos que repensar os cursos a partir de dois aspectos: repensar a postura do professor cursista diante deles e alinhar conteúdos e métodos, proporcionando uma perfeita mediação desse processo de aprendizagem.
Quando um determinado curso é planejado e contextualizado, a partir de realidades presentes no cotidiano dos professores, não há como negar que essas experiências, que serão trabalhadas ali, irão se integrar às experiências dos professores, possibilitando novos níveis de percepção a respeito do trabalho realizado.
Trabalhar com os níveis de percepção seria trabalhar com as realidades e necessidades dos sujeitos aprendentes, ressignificando-as. Por esse fato, tantos teóricos aqui estudados perceberam e relataram a importância das histórias de vida dos professores. Esse conhecimento influencia os processos de autoformação e auto-organização, percebendo-se indivíduos capazes de se reprogramarem a todo instante.
Quando as experiências são tocantes, sem dúvida, elas alteram as estruturas já concebidas e refletem-se na prática do dia-a-dia. Foi o que aconteceu com muitas professoras, que relataram as modificações que ocorreram, principalmente nas práticas alfabetizadoras, na construção de leitores e na utilização da linguagem matemática.
Para que tudo isso aconteça, devem-se repensar as necessidades de formação, os métodos utilizados e processos que ocorrem nos ambientes de formação. Essa tomada de consciência é própria do professor-formador e do professor que está se reconstruindo para que o processo não seja unilateral.
Toda essa busca de significados de reconstrução tem um objetivo maior: fornecer aos integrantes desse processo as condições necessárias ao desenvolvimento integral desses sujeitos e explorar todas as suas potencialidades. Nesse processo, ganha o professor, ganha o aluno e, por que não dizer, ganhamos todos nós, pois fazemos parte dele.
Assim, é necessário repensar as formações e suas formas de desenvolvimento para que elas atendam a essas expectativas e possibilidades de transformação, de abertura para o novo e de aceitação de realidades que emergem de nossas vidas. Faz-se necessário repensar os fundamentos de uma educação transdisciplinar, uma educação para a construção do ser em
sua totalidade, uma educação que constrói o sujeito e começa a fazer parte das várias esferas que compõem a sua vida, não se restringindo apenas à esfera profissional.
De maneira geral, percebeu-se, por parte dessa pesquisa, que:
a) os cursos oferecidos pela SEMED são preparados com muito cuidado, com práticas significativas e professores bem capacitados, mas nada disso adiantará se o professor não for um sujeito ativo nesse processo de aprendizagem, não interferir ou posicionar-se em relação ao que está sendo trabalhado. Essa visão não coloca a culpa no professor como o principal responsável por não ocorrer um processo de ressignificação de suas matrizes iniciais, mas chama a atenção para a necessidade de um melhor aproveitamento dessas vivências;
b) os cursos apresentaram-se com didática bem elaborada e professores capacitados, o que vem ao encontro das necessidades práticas dos cursistas, ponto importante nos discursos apresentados;
c) as motivações dos professores são elementos que favorecem seu processo de autoformação (o que realmente os motiva e revela quais pontos devem ser revistos em suas práticas, o que se poderia chamar, também, de formação em serviço); d) algumas professoras conseguiram localizar os momentos mais importantes de seu
processo de transformação e chegaram à conclusão, nesse trabalho, de que suas matrizes foram se ressignificando, ao longo do tempo, por meio de suas práticas, experiências e dos cursos de capacitação vivenciados, dando ênfase, é claro, aos cursos de formação continuada, oferecidos pela SEMED e que muito contribuíram para essa transformação. Realmente, a percepção dessas ressignificações foi clara, diante do largo sorriso apresentado pelas professoras e por seus depoimentos, apesar dos relatos que descreviam tristezas e barreiras para o exercício daquilo que se construiu.
Assim, pode-se observar que:
a) os cursos de formação oferecidos pela SEMED contribuíram, principalmente, para a melhoria da didática do professor, instrumentalizando-o em sua prática diária; b) nesses cursos, existem aspectos significativos contidos nessas formações,
oferecidas pela SEMED, capazes de ressignificar as matrizes pedagógicas das professoras de educação fundamental. Dentre eles, podem-se citar: os professores formadores, os conteúdos oferecidos e as práticas compatíveis com as necessidades dos alunos.
Todos esses aspectos possibilitaram entender e construir o que, de fato, importa para a ressignificação das matrizes pedagógicas dos professores.
Esses dados oferecem subsídios para práticas de formação continuada mais significativas e que irão ao encontro das reais necessidades desses professores, dando significado às suas aspirações. Fornecem elementos capazes de inspirar professores formadores que necessitam transformar realidades vividas em saberes necessários aos professores, além de levá-los a uma reflexão sobre suas ações.
Acredita-se que a divulgação desta pesquisa possibilitará essa reflexão, tanto de docentes como de professores formadores. Ressalta-se, aqui, que todos os respondentes desta pesquisa participaram de, praticamente, todos os cursos oferecidos pela SEMED, mas existe uma grande parcela de professores que não participa desses cursos e que devem ser levada não só a participar, mas a repensar suas práticas em ambientes de trabalho.
Essa motivação deve ser repensada em seus ambientes de trabalho, por meio de profissionais que promovem a organização escolar e que percebem necessidades, muitas vezes, não perceptíveis ao sujeito que as vivencia.
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