2.3 Validation du mod`ele
3.1.2 Prototype d’aile oscillante passive
Mesmo que a modernidade opere sobre as coisas e a natureza, tornando tudo transitório e efêmero, passado e presente parecem cohabitarem na mesma esfera, pois mesmo que a materialidade do passado tenha sido destruída, a memória dos seres humanos o registrou, nem que seja no imaginário dos seus devaneios.
A memória é uma capacidade humana de registrar fatos e experiências vividas no passado, que podem ser retransmitidas no presente através das lembranças. Para dar conta do conceito memória como construção do passado, nas ciências humanas, o sociólogo Halbwachs (1990), em livro publicado postumamente, em 1950,77 elabora o conceito de “memória coletiva”. A memória, para Halbwachs, é, por natureza, social, ou seja, a memória é um fenômeno coletivo, tendo em vista que o indivíduo que lembra está inserido em um contexto, em um quadro social. A memória individual é sempre construída sob a perspectiva do contexto ou da coletividade ao qual o sujeito que lembra está inserido. Lembrar é um processo de conciliação da memória individual e a “memória coletiva”; é “um ponto de vista” que muda conforme o lugar que o indivíduo ocupa, de onde está falando e para quem está falando.
A memória representa uma viagem que nos transporta no tempo e no espaço. O ato de lembrar terá a duração e o deslocamento “significante” para a pessoa que lembra. Cada pessoa tem uma maneira própria de exprimir as rupturas e descontinuidades, consolidações e continuidades “da duração de sua história individual e coletiva, em sua maneira de ordenar as superposições temporais vividas”78
Sabemos que ao longo da história o termo memória foi e é utilizado sob várias conotações. A memória, para os gregos, estava associada à deusa Mnemosine, mãe das Musas, protetora das artes e da história. Entre outros significados, como demonstrou Jean- Pierre Vernant, possibilitava aos poetas lembrar do passado e transmiti-lo aos mortais – “a memória aparece como um dom para os iniciados”.
77 HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice/Revista dos Tribunais, 1990.
78 ECKERT, Cornélia. “A vida em outro ritmo”. In: BARROS, Miriam M. L. de, (org.). Velhice ou terceira
idade?: estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. p.174.
Para os romanos, a memória estava extremamente ligada à arte retórica, ao uso da linguagem e dos discursos falados, destinados a convencer e emocionar os ouvintes. Na Idade Média “a memória antiga foi fortemente penetrada pela religião”, e estava ligada à memória das comemorações religiosas e dos santos e mártires, e seus milagres. 79
Na modernidade a memória oral vai cedendo lugar à memória escrita. A invenção da imprensa revoluciona a memória ocidental e transforma-se em instrumento da memória coletiva.
A linguagem escrita existe há mais de cinco mil anos, no entanto, é na modernidade, com as inovações tecnológicas que a memória técnica terá a função de “preservar” as informações do passado. Para a sociedade moderna a memória técnica significa o absoluto, “o texto impresso torna-se algo invariante, ao contrário das narrativas orais”80
Destarte, o mundo moderno cria os lugares da memória, como museus, bibliotecas, arquivos, monumentos, datas nacionais religiosas, constrói uma “memória histórica”. Tanto, a “Memória Individual” como a “Memória Histórica” são memórias coletivas, pois como percebe Halbwachs81, “a primeira se apoiaria na segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da história geral”.
Contudo existe um grande distanciamento entre a história aprendida e a história vivida. A história aprendida é a memória coletiva registrada, catalogada e datada para ser transmitida de geração em geração, como memorável; enquanto que a história vivida, apóia-se nas experiências do cotidiano, em lembranças que muitas vezes ficam apagadas pela “memória histórica”. Portanto,
A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo e onde é possível encontrar um grande número dessas correntes antigas que haviam desaparecido somente na aparência.82
A memória dos seres humanos constitui documento recente para os cientistas das áreas humanas. Perceber e compreender o passado através das representações do
79 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1992. p.441. 80 SILVA, Elizabeth Farias da (2002), p. 37.
81 HALBWACHS, Maurice (1990), p. 55. 82 Idem, p. 67.
imaginário humano, fez com que os pensadores contemporâneos (tanto psicólogos como sociólogos, filósofos e historiadores), lançassem um novo olhar sobre os conceitos tempo, espaço e memória. Como descreve Silva83, “a memória é um tempo peculiar, individual” ,
onde a memória do relator transcende o tempo, decodificando no presente, o passado que é lembrado sob o olhar de um referencial do presente de quem fala.
As categorias memória, tempo e espaço recebem maior atenção dos pensadores contemporâneos, devido a fugacidade da modernidade, da ruptura abrupta com o passado desencadeado com o processo de modernização.
Geralmente, escrevemos histórias e memórias quando ocorrem as rupturas. Provavelmente este seja o motivo pelo qual em nem um outro período da história da humanidade escreva-se tantas histórias. E, aqui estamos nós escrevendo mais uma história. Cabe ressaltar, que o ato de lembrar sempre está apoiado nos referenciais do presente, que a reconstrução do passado atravessa o olhar que temos hoje do mundo. Portanto, o capítulo dois tem por objetivo situar-nos no atual contexto em análise, donde será possível compreender os referenciais do presente que conduzem a construção das lembranças.