O livro comemorativo do cinqüentenário do IMPA segue nas suas primeiras páginas o mesmo padrão das páginas do sítio oficial da Instituição: destaque para imagens das suas sedes e dos seus ex-diretores, nenhuma referência ao processo de sua fundação ou aos seus fundadores.
O prefácio escrito por Jacob Palis dedica sua página inicial à situação atual do IMPA e apenas dois parágrafos à comemoração dos vinte anos iniciais:
Este é o IMPA de agora, que com grande robustez projeta-se para o futuro: a pesquisa e a formação de pesquisadores, a contribuição global ao avanço da competência em Matemática e suas aplicações no país e na região latino-americana e a melhoria do ensino em todos os níveis. E o IMPA de ontem? De sua fundação em 1952 pelo Conselho Deliberativo do CNPq — atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — tendo como pesquisadores Lélio Gama, Leopoldo Nachbin e Mauricio Peixoto, todos excelentes cientistas, com a presença a seguir de Elon Lima e, por algum tempo, Paulo Ribenboim. Pouco depois, aparece Otto Endler, que comutava entre o Rio e Bonn, cada vez mais o Rio e menos Bonn. E iniciam-se as visitas de grandes matemáticos que tanto nos marcaram, como René Thom e Steve Smale.
E o IMPA dos primeiros doutorados na década de sessenta em cooperação com a então Universidade do Brasil? Do extraordinário apoio do BNDE com José Pelúcio e a notável contribuição da CAPES para a Pós-Graduação com o Parecer Sucupira, que permitiram uma grande institucionalização do IMPA em 1969-1970, com a produção regular in loco de pesquisa, a dedicação integral de seus pesquisadores à Instituição, a formação de novos pesquisadores e o programa de pós-doutorado [...]199
Já que nos parágrafos seguintes retoma a celebração principalmente dos acontecimentos e personagens posteriores aos anos 1960. Por exemplo, a evocação saudosa a Ricardo Mañé, destacada no trecho a seguir, suscita uma indagação sobre o silêncio em relação a outro morto, certamente dos mais importantes da história do IMPA: Leopoldo Nachbin não é motivo de saudades?
Da expansão de suas áreas de pesquisa, quando o “A” do IMPA era ainda
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LEOPOLDO Nachbin. Disponível em: <http://www.impa.br/opencms/pt/pesquisa/pesquisa_pesquisadores/ pesquisadores_leopoldo_nachbin/index.html>. Acesso em: 31 jul. 2007.
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considerado uma “decoração” em seu nome. De sua robustez face às crises brasileiras, superando-as devido à paixão e talento de seus membros. [...] Das saudades do colega Ricardo Mañé. Da consolidação e expansão de seus programas de Pós-Doutorado nos anos noventa.200
O silêncio e o esquecimento presentes na memória oficial, não apenas com relação a Leopoldo, mas referentes aos primeiros vinte anos de trajetória do IMPA, à grande parte das atividades ocorridas nesse período e, inclusive relacionadas a Maurício Peixoto para o qual também não há o menor destaque seja de sua participação como fundador, seja das contribuições para a área de sistemas dinâmicos nos anos 60.
Destacamos aí o trabalho de memória201 por parte das lideranças institucionais que tentam associar o sucesso alcançado pelo Instituto ao período em que vêm exercendo hegemonia. Afinal, de acordo com Pallak, a construção da memória coletiva está diretamente ligada à luta por conquista de controle social e defesa de interesses de diferentes grupos sociais presentes na corporação.
Esquecer parte desse passado e seus representantes é abrir o espaço para o culto de seus próprios heróis e feitos, poder celebrá-los e atribuir-lhes os méritos pelas conquistas institucionais. De outro modo, o “esquecimento” presente na memória oficial do IMPA a respeito dos primeiros anos é usado com um intuito específico e a serviço da “lembrança” do período que se seguiu, o qual se deseja celebrar.
Nesse sentido, é interessante destacar a ausência de um lugar privilegiado, ou sequer uma menção explícita para os fundadores, assim como existe para os diretores que, com exceção de Lélio, estão ligados diretamente ao grupo que conquistou hegemonia no Instituto no início dos anos 70. Curioso notar ainda, no caso Nachbin que este sequer mereceu participar do grupo de professores eméritos da instituição, formado atualmente por Elon Lima, Maurício Peixoto e Manfredo do Carmo.
Notemos outra ausência importante na memória oficial: nada é dito, enquanto representação coletiva, a respeito da disputa e dos problemas que culminaram com a saída de Leopoldo Nachbin e seu grupo do IMPA, o que pode ser justificado pelo interesse das lideranças institucionais de não provocar conflitos que venham desestabilizar a frágil coesão construída em torno da memória coletiva202.
Somente há menções a esse respeito nas memórias particulares, apesar destas se expressarem na tentativa interferir na construção da outra, de caráter coletivo. Exemplo disso
200
PALIS, Jacob. Prefácio. In: IMPA 50 anos. p. ii. 201
De acordo com a discussão da seção 2.8 deste trabalho, p.39. 202
pode ser encontrado no trecho das lembranças particulares de Elon se referindo ao crescimento do IMPA nos anos 70, que compôs seu depoimento para a elaboração do IMPA 50 anos:
[…] (Nachbin) sentiu-se politicamente enfraquecido. Nessa ocasião – estávamos em 1970 – a Coppe estava crescendo e o convidou [...] Leopoldo foi para lá com sua turma. Foi aí que o IMPA se estabeleceu como uma instituição de pesquisa respeitável e com uma produção regular de doutores. Eu fiquei como diretor [...] E foi realmente o começo dos anos gloriosos do IMPA.203
Portanto, os materiais de memória são, portanto, oficialmente disponibilizados para realizarem duas práticas bastante importantes para a cristalização da memória coletiva: a primeira de celebração de certos atores, heroificando suas atuações no passado e associando- as ao desenvolvimento alcançado na atualidade; a segunda, de esquecimento a respeito de personagens e eventos que não estejam associados à identidade coletiva que se deseja reforçar, ou que estejam associados a momentos de conflitos/rupturas dos grupos de pesquisadores que participaram de sua trajetória do instituto.
Vale destacar ainda a intencionalidade com se constroem tais lugares de memória, com a anuência e colaboração dos matemáticos vinculados ao IMPA, cientes das funções sociais e políticas que estas práticas cumprem em defesa da instituição e, parafraseando Silva204, cujo objetivo é de se reapropriar do rememorado, por sua força simbólica, para impulsionar o futuro:
[...] é bom lembrar das experiências passadas: o que demora décadas em ser construído, pode ser destruído apenas com uma assinatura irresponsável. Não é suficiente trabalhar, ensinar e pesquisar. É também nosso dever mostrar à sociedade e à classe política a nossa utilidade e relevância na sociedade para que este instituto tão singular continue florescendo.205
203
ENTREVISTA Elon Lages Lima. In: IMPA 50 anos. p. 102-103. 204
SILVA, Helenice Rodrigues da. Rememoração / Comemoração: as utilizações sociais da memória. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 22, n. 44, p. 425-438, 2002.
205