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1 Propri´et´es g´en´erales pour les points efficients

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Cícera explica o adoecimento através dos problemas/estresses do cotidiano. A narradora também estabelece em sua explicação uma diferenciação entre “doenças dos nervos” e “doenças mentais”, esta última ganha uma conotação “espiritual”, as quais os médicos e remédios não tratam nem curam apenas Deus.

Não, eu acho que... Assim... Vai muito do... Assim dos problemas... Do dia a dia, muita coisa, muito estresse, né? Muita correria, você que começa a

colocar muita coisa na cabeça, muita perturbação, aí termina ficando assim, porque seu nervo é muito sensível, aí eu acho assim, que vem... Essas doenças dos nervos e também tem doenças mentais que já é parte espiritual, que não é pra remédio! Tem pessoas que faz o tratamento e fica boa, mas tem umas que é como eu disse a você, só Deus! (pausa) Deus sim pode libertar e você nunca mais tomar nem... Nem nada! (...) Por que tem doenças espirituais e tem doença (pausa) é assim... Né? Que é para o médico. Pronto, num tem gente que faz o tratamento e fica bom, tá entendendo? Só que tem gente que não é! Tem coisas que é pra Deus tratar! Libertar de vez! (inaudível) Tá entendendo? Pronto! Eu acho assim (...) O Deus é o mesmo! E é ele o médico dos médicos e é ele que cura! Ele já deu autoridade aos médicos para o médico fazer a parte deles, agora tem coisas que é para Deus curar, não os médicos. (Cícera, Igreja Deus é Amor/Só Jesus Salva).

Villares, Redko e Mari (1999) acrescentam que categorias como “problema do nervoso”, “problema na cabeça” e “problema espiritual” se constituem em modelos culturais de doença. Os autores destacam ainda que a dimensão espiritual organiza-se em “um sistema de crenças acessório, (...) utilizado para preencher as lacunas dos processos inexplicáveis ou incompreensíveis (...). São ao mesmo tempo responsáveis por ela e uma alternativa para a cura que não se alcança através do tratamento médico (p.43)”.

No discurso abaixo é o sujeito quem procura e encontra a doença, esta “caça” as doenças transmite ao fiel uma mensagem de alerta, uma “prova” para aqueles que não estão seguindo os “Planos de Deus”:

Adoecer... (silêncio) Adoecer... É uma doença assim que vem... Que a pessoa procura...

Halline: Você acha que a gente procura o adoecimento?

Lila: Eu procurei né? Então eu achei. Foi uma prova que Deus fez eu passar. Pra ver se eu ia buscar em Deus, o caminho do Senhor. Fez eu voltar para o mundo diferente do mundano (Lila, Igreja Cristã Presbiteriana).

O discurso de Rodrigo, abaixo, incorpora a explicação de Santos (2011), no tocante ao aparecimento da doença como punição, segundo o autor “se o indivíduo for acometido por algo que não seja a doença comum, ele estará comprometido por algum ato nefasto (aos seus próprios olhos)”. Nesse caso, “a primeira punição é a doença, o íncubo entra nele e, de algum modo, o castiga” (p.40).

Nesse sentido, o adoecimento é causado pelo Diabo, responsável por atormentá-lo, roubar sua paz e possuir a sua mente, pois as atuações demoníacas podem estar em todo lugar.

Assim, a explicação dada à doença por Rodrigo penetra o campo do maligno em uma construção imaginária do mal.

O adoecimento é, é... O diabo está te atormentando, sabe? (pausa) Tirando realmente a sua paz, sabe como é? Ele vê que ele é fraco, ai quer se manter forte em cima de você, sabe como é? Você sendo uma pessoa fraca, sabe? Estando com a mente dele, sabe? A mente da pessoa sabe? Mas com a mente dele também! Ai ele entra na vida da pessoa, você sendo fraco, ai fica doidinha para agir sobre a vida do povo, fica querendo tirar você do juízo, sabe? Aí fica muito ruim para as pessoas fazer as coisas, né? (...) Tentando tirar a mente da pessoa, sabe? Tenta tirar a mente da pessoa, isso é aqui dentro, é lá fora É dentro de casa, é na igreja, é em todo canto! Já pensou um negócio desse? Isso não é normal não? Você num acha? (Rodrigo, Igreja Universal do Reino de Deus).

Rodrigo reproduz o discurso do fundador de sua igreja, o bispo Edir Macedo (1988) citado por Mariano (1999, p. 114) que define os demônios como a principal causa das doenças:

[...] os demônios são responsáveis por ‘todos os males que afligem a humanidade. Doenças, misérias, desastres e todos os problemas’. ‘Os demônios, espíritos destruidores, estão nos germes, bacilos e vírus’. São a principal causa de doenças. Eles ‘fazem das pessoas o que bem entendem. Cuidam de todos os aspectos da vida delas, desde a maneira de se vestir até os casos amorosos; se intrometem e submetem os seus seguidores através de conselhos ou ameaças’. Astuciosos, ‘os demônios agem de acordo com a mentalidade da pessoa, de acordo com sua posição social e também, é claro, de acordo com suas necessidades. Os endemoniados apresentam sintomas. Enumera dez sinais típicos de possessão: nervosismo, dores de cabeça constantes, insônia, medo, desmaios ou ataques, desejo de suicídio, doenças cujas causas os médicos não descobrem, visões de vultos ou audição de vozes, vícios e depressão (p. 27,58,71, 89).

Assim o Diabo é a personificação do mal, tido como algo que se apodera do corpo e da mente do sujeito, afinal como bem reforça Rodrigo, o Diabo “tira a mente da pessoa”. Com a verdadeira posse da mente humana, o Diabo torna-se o dono de um vasto poder, dirigindo as pessoas ao caminho do mal.

Diante desta construção imagética cabe pensarmos em algumas soluções simbólicas, se não mágicas, pelo menos restauradoras. Comecemos com algumas indagações: será que assassinar os demônios infindáveis, e assim emancipar a fé resultaria em uma humanidade

mais saudável? Se assim fosse, como extinguir os infinitos demônios, diante de tanto poder? Será que o mundo conseguiria viver sem tamanho poder? Ou melhor, será que as pessoas se sustentariam ou se manteriam vivas sem poder? Nesse caso, não seria um engano assassinar o que justamente fortalece os humanos?

Sendo assim, nos resta evidenciar promessas que se organizam em torno de uma impossibilidade de cumprimento (SOUZA et al, 2008).

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