Os conceitos de epidemiologia e vulnerabilidade são definidos conjuntamente no Dicionário Latino-americano de Bioética. De acordo com Ortiz (101), autora do verbete, a epidemiologia social se preocupa, principalmente, com o modo como “a sociedade e as diferentes formas de organização social influenciam na saúde e no bem-estar dos indivíduos e das populações”. Para ela, essa epidemiologia com enfoque social é mais apropriada para explorar a complexidade que está contida no conceito de vulnerabilidade, uma vez que associa métodos quantitativos e qualitativos (101).
Não raro, questiona-se a redundância da expressão epidemiologia social, uma vez que a epidemiologia é, por definição, uma ciência do coletivo. Por isso, alguns autores optam por chamá-la de epidemiologia crítica. A esse respeito, Barata (102) é enfática ao afirmar que “nem toda epidemiologia é social”. Para ela, tanto essa quanto as outras vertentes da epidemiologia se ocupam, de um modo ou de outro, dos “aspectos sociais” como objeto de investigação, mas a diferença está situada no âmbito da teoria, ou seja, na forma como se dá a explicação do processo saúde-doença. De igual modo, Melo Filho (103) reconhece o valor dessas reflexões de natureza semântica, mas defende o emprego da denominação epidemiologia social, uma vez que “essa expressão foi consagrada durante a expansão do próprio movimento, além de destacar o ‘social’ como sendo o seu núcleo”.
Barata (102) explica que a relação entre a Epidemiologia e as Ciências Sociais não é nova, mas começou no século XIX e durou até o início do século XX. Para a autora, o advento da teoria do germe desencadeou um conjunto de transformações na compreensão do conceito de causa que acabou contribuindo para “o enfraquecimento dos vínculos teóricos e metodológicos entre essas disciplinas” (102). A referida teoria fomentou a emergência de distintos modelos de multicausalidade que, segundo Barata et al. (104), começaram a introduzir a ideia de que “a organização da sociedade e a cultura” são fatores que interferem na produção das doenças, “sem que constituam necessariamente determinantes do processo”. No entanto, o cenário político e social delineado a partir da década de 1960 representou um grande impulso, particularmente na América Latina, à revalorização da determinação social do processo saúde-doença.
Melo Filho (103) lembra que nos anos 1970, quando vários países latino- americanos estavam imersos em ditaduras militares, surgiram “movimentos de caráter científico-político” com o intuito de “romper com o sanitarismo colonialista”, os quais, no Brasil, constituíram o cerne do Movimento Sanitário. Desse modo, Barata et al. (104) afirmam que muitas concepções, teóricas e práticas, da epidemiologia foram construídas para “subsidiar a construção histórica do campo da saúde coletiva”. Em obra publicada em 1989, Almeida Filho registra que “nos países do Terceiro Mundo, a incorporação do conhecimento epidemiológico vem-se fazendo de modo cada vez mais acelerado” e politizado (105). O autor cita México, Equador e Brasil como locais que assumiram a vanguarda na “busca de uma Epidemiologia de acordo com os princípios teóricos da Medicina Social e mais adequada à realidade desses países” (105). Breilh (106), renomado pesquisador da área, acredita que “uma ‘epidemiologia crítica’ pode ser um instrumento básico de recuperação ‘ética’ e de construção de uma nova ‘postura’ política; dois aspectos seriamente menosprezados em meio a um processo neoliberal cínico e regressivo”.
Segundo Ortiz (101), não é difícil identificar a relação entre epidemiologia e vulnerabilidade. Para a autora, “o conceito de vulnerabilidade ajuda a identificar os membros de uma população que têm mais probabilidade de sofrer, direta ou indiretamente, uma situação de risco”. Apenas para exemplificar, Tauil e Lima (107) ressaltam dois aspectos do padrão de mortalidade da população brasileira que requerem ponderações de natureza ética. O primeiro se refere aos óbitos nas faixas etárias mais jovens, como os que ocorrem ao longo do primeiro ano de vida. A mortalidade infantil é, reconhecidamente, um dos indicadores de saúde mais reveladores das condições de vida de um lugar (108). Segundo Tauil e Lima (107), os “óbitos infantis” no período neonatal (de 0 a 27 dias de vida) são os únicos “aceitáveis eticamente, pois ainda não se pode evitá-los”; uma vez que se devem, primordialmente, a anomalias congênitas ou a doenças de origem genética. O segundo aspecto citado pelos autores são as mortes consideradas evitáveis pelo uso das tecnologias em saúde disponíveis em uma determinada área e período. Para eles, a mortalidade materna é uma medida “que permite reflexões de ordem ética quanto a mortes por causas evitáveis”, as quais “não podem atingir valores expressivos numa sociedade sem que haja um questionamento da qualidade da atenção prestada à população [...]” (107).
Ortiz (101) afirma que “a relação entre pobreza e situação de saúde é indiscutível. A pobreza contribui para a vulnerabilidade”. Na epidemiologia clássica, a pobreza é definida e medida segundo critérios econômicos e estáticos. Em contrapartida, a epidemiologia social compreende a pobreza como um processo dinâmico e mutável, que não necessariamente se ajusta aos indicadores tradicionais (101). Apesar dessas concepções mais gerais, é preciso lembrar que não há unanimidade no campo da epidemiologia social, pois as diversas escolas elegem, por exemplo, conceitos chaves diferentes (102). Dentre as teorias da epidemiologia social, pode-se destacar a “ecossocial”, a “do capital social” e a “da produção social da doença”. Cabe esclarecer que não é propósito desta investigação empreender análises mais aprofundadas de cada uma delas. Barata (102) ressalta que tais divergências têm profundas implicações na “disponibilidade de dados e de métodos analíticos apropriados”.
Ao abordarem o histórico da produção acadêmica da epidemiologia social no Brasil, Barata et al. (104) salientam que na década de 1980 houve um nítido esforço de operacionalizar o conceito de classe social, ou seja, de torná-lo um instrumento apropriado para conhecer o nexo entre a realidade social e a situação de saúde da população brasileira. Nessa época, afirmam os autores, foram elaborados “diferentes esquemas para aplicação” desse conceito em inquéritos populacionais. A esse respeito, destaca-se o artigo de Barros e Carvalheiro (109) que, de modo pioneiro, preconiza o inquérito domiciliar como meio para “detectar e refletir sobre a relação da organização social com a questão da saúde”.
Conforme será detalhado adiante, as equipes de campo do SBBrasil 2010 foram formadas por profissionais do SUS. Ao longo da pesquisa, mais de 37 mil indivíduos foram entrevistados e examinados em seus domicílios (14). Com isso, Auxiliares de Saúde Bucal (ASB) e Cirurgiões-dentistas (CD) deixaram a rotina dos serviços públicos odontológicos para participar de um espaço, para muitos, esporádico ou inexistente, de intercâmbio com as pessoas e condições pesquisadas. De um modo ou de outro, a população foi chamada, também, a fazer parte desse processo. Ao longo da coleta de dados, ASB e CD estiveram envolvidos em um processo de escuta das pessoas examinadas que é qualitativamente superior daquele que, pressupõe-se, ocorre no cotidiano do SUS tanto pelo cenário quanto pelo objetivo. Nas palavras de Barros e Carvalheiro (109), essa “relação mais próxima entre objeto investigado e pesquisadores, confere a essa forma de
investigação uma feição didática e põe à tona sua dimensão política”. Dessa maneira, o indivíduo é visto não apenas como um organismo biológico, mas também social. Com base nessa perspectiva, acredita-se que o SBBrasil 2010 está alinhado, ainda que com diversas limitações, com o que Breilh (106) chama de “forma humana, democrática e emancipadora de exercer a epidemiologia”.