• Aucun résultat trouvé

PROPAGATION D’UN ETAT DE MER DE REFERENCE – REPARTITION

O quadro disposto no apêndice 1 e denominado: o estado da ar- te dos estudos sobre o processo decisório, foi criado para sistematizar partes do conhecimento científico produzido a respeito dessa temática. Verificou-se diferentes estudos realizados no âmbito organizacional, jurídico, da saúde, do trânsito etc. Em termos metodológicos, notou-se a predominância de pesquisas experimentais e bibliográficas.

A seguir, serão apresentados fragmentos de alguns dos estudos levantados na revisão de literatura, destacando as partes mais relevantes para que o leitor possa ter uma idéia de como as investigações realizadas nas últimas décadas têm sido conduzidas e quais são os resultados en- contrados pelos pesquisadores das diversas áreas do conhecimento.

No caso do trabalho dos radiografistas, a investigação do pro- cesso cognitivo visa oferecer comentários sobre a maneira que as deci- sões são tomadas e sobre as informações que servem de subsídios para a conclusão do diagnóstico, bem como referentes aos fatores que influen- ciam as estratégias utilizadas durante o exame do paciente.

No que se refere aos procedimentos metodológicos, os pesqui- sadores analisaram o processo de decisão a partir do método científico hipotético-dedutivo ou de modelos da arquitetura cognitiva ou ainda, da simulação cognitiva.

O método hipotético-dedutivo, segundo Réa-Neto (1998), é também conhecido como método crítico ou da tentativa e erro, o mesmo foi descrito por Popper no começo do século XX e sua tese central é que ao ser apresentado um problema, o investigador cria uma hipótese para explicá-lo. Depois, deduz-se da hipótese os testes com potencial para refutá-la e, se a hipótese for refutada a partir do resultado desses testes ela é eliminada. Caso contrário, ela é suportada ou corroborada.

Os modelos da arquitetura cognitiva são modelos estruturais ou funcionais que simbolicamente procuram explicar como ocorre o pro- cesso cognitivo dos seres humanos. São também conhecidos como mo- delos mentais e mapas cognitivos. Para Éden; Ackermann (apud Rieg; Araújo Filho, 2003), são abordagens que podem ser empregadas em diversas situações como ferramenta de pensamento reflexivo e resolução de problemas e de maneira não consoante, para Pidd; Jenkins (apud Rieg; Araújo Filho, 2003), não são ferramentas e sim descrições da ima- gem mental de uma pessoa sobre um objeto ou uma determinada situa- ção.

A simulação cognitiva é definida por Vergara (1995) como uma técnica inspirada nos conceitos desenvolvidos na modelagem cognitiva e que utiliza os recursos de domínio da Inteligência Artificial para for- malizar e representar os conhecimentos. Seu objetivo é fornecer um modelo executável, que possa simular, por exemplo, por intermédio do computador, as etapas de raciocínio desenvolvidas pelo homem durante a realização de uma atividade qualquer.

Independente do método, modelo teórico ou procedimento me- todológico, a investigação do processo cognitivo subjacente à atividade dos radiografistas visa oferecer comentários sobre a maneira que as decisões são tomadas e sobre as informações que servem de subsídios para a conclusão do diagnóstico, bem como referentes aos fatores que influenciam as estratégias utilizadas durante o exame do paciente.

Segundo Prime; Le Masurier (2000), o papel dos radiografistas tem mudado na última década, incluindo outras tarefas mediante a inclu- são de procedimentos que permitem maiores possibilidades diagnósti- cas. Na opinião dos autores, a extensão do papel dos radiografistas tem sido amplamente documentada, porém, estudos referentes às habilidades requeridas no exercício profissional não estão sendo realizados. Por isso, eles se propõem a mapear o processo de pensamento dos radiografistas durante o processo de diagnóstico clínico.

Réa-Neto (1998), em sua pesquisa, procurou explicar os princi- pais elementos do processo cognitivo empregados pelos médicos no raciocínio clínico subjacente às decisões diagnósticas e terapêuticas. Para tal entendimento, o autor se baseou no método científico hipotéti- co-dedutivo de resolver problemas. Ele concluiu que o processo de solu- ção de um problema clínico começa quando o paciente chega ao consul- tório e, então, o médico procura designar um diagnóstico num nível de especificidade adequado para as considerações terapêuticas e assim, torna-se possível selecionar um tratamento que afete o problema visando resolvê-lo ou aliviá-lo. As principais etapas da decisão são: selecionar as

perguntas que serão feitas, decidir se as respostas são confiáveis, inter- pretar um sinal físico, selecionar um ou mais testes de laboratório e escolher uma das formas alternativas de tratamento. Para o autor, a base de conhecimentos que assenta as hipóteses é a centrada no dado (utiliza- da mais frequentemente) e a centrada na doença, a fase de geração des- sas hipóteses depende da capacidade mnemônica e do conhecimento do médico.

Beltrán; Torres (2004) partem do pressuposto de que o diagnós- tico é um processo de síntese aonde os médicos expressam a conclusão de um elaborado processo intelectual de análise de dados subjetivos e objetivos. Os autores buscaram conhecer as estratégias de raciocínio utilizadas pelos médicos para interpretar as provas diagnósticas. Para eles, o processo de raciocínio clínico é pouco conhecido e está baseado em fatores como experiência e aprendizagem, enfatizando assim, a di- nâmica da lógica indutiva-dedutiva. Concluem que o raciocínio clínico é apoiado inicialmente pelo interrogatório algorítmico e depois por hipó- teses iterativas. Além disso, os autores mencionam a utilização do mo- delo bayesiano para formulação do diagnóstico, já que esse é muito útil para valorar provas diagnósticas, pois permite o cálculo de probabilida- des de que o paciente apresente uma determinada doença com base em sintomas concretos.

Segundo Mattos (1993), o modelo bayesiano, criado por Harri- son; Stevens, em 1976, permite estimar os comportamentos de tendência e sazonalidade de séries de forma sequencial e dinâmica com a possibi- lidade das estimativas serem atualizadas periodicamente. Além disso, é possível combinar informações externas aos dados na análise e na previ- são das variáveis aplicadas ao estudo de séries econômicas.

Um outro estudo foi o de Kushniruk; Patel (1998). Os autores procuraram prover a base do entendimento da interação entre os profis- sionais da saúde e os recursos tecnológicos através da análise do proces- so de raciocínio na decisão. Em termos metodológicos, foi utilizada a observação durante o uso do sistema especialista no decorrer da realiza- ção das atividades dos médicos, e também usada a técnica do “think

aloud”. Nessa técnica os sujeitos são solicitados que verbalizem seus

pensamentos durante a execução de determinadas tarefas. Os protocolos gerados a partir das verbalizações permitem analisar a linguagem utili- zada, explicitando conceitos e estratégias utilizadas no processo decisó- rio.

Conforme Kushniruk; Patel (1998), os médicos não têm consci- ência de como avaliam e lidam com situações complexas e ainda por cima, aqueles mais experientes que estão envolvidos rotineiramente nas

atividades, não sabem explicar o que fazem. Nesse sentido, concluem que os médicos mais experientes despendem mais esforços que estudan- tes na identificação e clarificação do problema do paciente e que tam- bém solicitam menos exames e prescrevem menos medicações. Eles sugerem que o estudo dos processos psicológicos básicos pode trazer subsídios para avaliação e análise do uso dos sistemas de informação, bem como melhorar o entendimento das necessidades cognitivas dos profissionais e de seu processo de decisão.

Prime; Le Masurier (2000) assinalam que o trabalho de Benner (1984), por exemplo, considera a idéia do uso da intuição na prática, através do aumento da experiência clínica. Comentam também sobre um outro estudo com radiografistas propiciando alguns debates entre os prós e contras dos métodos estruturados e desestruturados de decisão. Além disso, infere a existência de alguns fatores que influenciam a decisão como, por exemplo, a hora do dia em que a radiografia é produzida e as condições do cliente em questão.

Segundo Robbins (1998), a intuição é uma variável não consci- ente criada pela experiência refinada e que ajuda no momento da deci- são. O processo de decisão de forma intuitiva tende a ocorrer quando algumas condições acontecem, tais como: presença de um alto grau de incerteza, existência de poucos precedentes para serem utilizados, quan- do as variáveis são menos previsíveis cientificamente, as informações são limitadas, os fatos não apontam claramente a direção a seguir, os dados analíticos são de pouca utilidade, existem várias alternativas plau- síveis para escolher e quando há uma pressão temporal.

Santos-Lima (2007), a partir do entendimento de Dreyfus, co- menta que o processo de decisão intuitiva é realizado muitas vezes por

experts, uma vez que a decisão não acontece deliberadamente, mas in-

tuitivamente como um produto de um envolvimento situacional profun- do, que permite o decisor comparar situações complexas e similares sem realizar a decomposição das mesmas, utilizando assim a heurística como uma forma de atalho cognitivo.

Em relação ao estudo realizado por Prime; Le Masurier (2000), a técnica “think aloud” tem sido amplamente utilizada para investigar processos de decisão, Os dados obtidos durante o uso da técnica foram distribuídos pelas cinco categorias de análise formuladas: 1) sujeitos descrevem a cena e não se comprometem com o cenário; 2) observações na história do paciente e apresentação; 3) observações baseadas no co- nhecimento prático da radiografia; 4) observações baseadas no conhe- cimento clínico advindo das experiências e amplas leituras e 5) observa-

ções dos autores no vídeo. Dentre as categorias possíveis, a número três foi a mais utilizada e a número dois, a menos utilizada.

Análises dos protocolos gerais revelaram que os radiografistas utilizam o conhecimento internalizado junto com áreas de expertise clínico para sustentar sua atuação profissional. A maioria dos sujeitos revelou a utilização de métodos desestruturados de decisão. De modo semelhante aos achados das pesquisas utilizadas no referencial teórico, os especialistas utilizam a intuição numa relação direta com o aperfeiço- amento da experiência prática e também empregam princípios básicos das áreas de patologia e fisiologia para ajudar a nortear seus exames clínicos.

Subsidiado nos dados apresentados, pode-se pensar que, durante o processo de diagnóstico clínico, as informações que os profissionais dispõem sobre seus pacientes são caracterizadas pela incerteza de seu conteúdo. Para minimizar o grau de incerteza, os clínicos utilizam dados advindos de diversas fontes, tais como: da história do paciente, do exa- me físico, dos resultados de testes laboratoriais e, principalmente, de resultados de exames complementares.

Quanto ao procedimento metodológico utilizado, a técnica “think aloud” parece realmente ser a mais indicada, uma vez que, con- forme Vergara (1995), a atividade não pode ser reduzida ao que é mani- festo e observável e as estratégias, os processos de tratamento da infor- mação, a planificação de ações podem ser apreendidas através da expli- citação do trabalhador.

Vergara (1995) afirma que nos estudos que visam explicitar o processo cognitivo envolvido no processo de decisão, uma das dificul- dades encontradas é a variabilidade inter e intra-individual do operador no tratamento de suas ações. Infere-se que tal dificuldade esteve presen- te na pesquisa de Prime; Le Masurier (2000). Entretanto, eles utilizaram um estudo piloto para assegurar a escolha adequada dos cenários e tam- bém excluíram um dos sujeitos da amostra devido à qualidade do mate- rial obtido. Além disso, os dois pesquisadores se encontraram e compa- raram a maneira de codificação e análise dos protocolos, visando elimi- nar, ou melhor, minimizar a presença de vieses.

Prime; Le Masurier (2000) não fazem referências específicas sobre o tipo de raciocínio que os radiografistas utilizam para chegar às conclusões diagnósticas. Em outras palavras, elementos referentes ao processo de raciocinar estão presentes na investigação, uma vez que o objetivo precípuo é investigar como se dá o processo diagnóstico a partir de determinados conhecimentos ou informações sobre um dado proble- ma, porém, as diversas formas de raciocínio não são identificadas por-

menorizadamente. Baseado na análise dos dados, pode-se inferir, entre- tanto, que os radiografistas utilizam os principais tipos de raciocínio mencionados por Linares (1997), tais como: plausível, probabilístico, nebuloso e qualitativo. Nesse sentido, para ela, as pessoas não usam somente um tipo de raciocínio na resolução de problemas, mas sim em- pregam todos eles simultaneamente ou, um depois outro, segundo as principais características do problema a resolver.

O processo de reconstrução da prática profissional através, por exemplo, da análise dos protocolos verbais, desvela o sentido que os trabalhadores atribuem aos seus próprios comportamentos, bem como permite inferir explicações para tais condutas. As razões de suas ações muitas vezes são oriundas das contingências da própria atividade e dos constrangimentos da organização e condição do trabalho, mas princi- palmente de suas idiossincrasias.

Em relação à aprendizagem, pesquisas têm demonstrado que e- xistem diferenças significativas no processo decisório de trabalhadores aprendizes e experts (EDDY, CIOFFI apud PRIME; LE MASURIER, 2000). Estudos realizados nas últimas três décadas, a respeito das dife- renças dos processos decisórios e de resolução de problemas de traba- lhadores em momentos distintos da carreira (aprendizes e experts) têm priorizado a área médica, da aviação, do trânsito; do esporte, da infor- mática e, principalmente, têm tido uma maior produção nos países an- glo-saxões e franco-belgas (SPERANDIO, 1972, WEILL-FASSINA, BOURDON, 1994; PRIME; LE MANSURIER, 2000, LEPLAT, 2006, CUNHA; LACOMBEZ, 2007). Além disso, a maioria das pesquisas é de abordagem teórico-empírica, realizando experimentos ou estudos de caso.

Com base nos achados dos referidos autores, infere-se que os

experts possuem um maior repertório de estratégias de enfrentamento

das atividades decisórias, conseguindo assim antever e solucionar situa- ções não previstas nos planos, devido talvez, às habilidades especiais do uso de conhecimentos tácitos, da intuição e estratégias de raciocínio que os auxiliam na detecção e interpretação dos estímulos oriundos das mais diversas fontes. Parte-se do pressuposto de que a experiência adquirida ao longo da vida, via de regra, contribui para o desenvolvimento de estratégias mais adequadas para lidar com os problemas e decisões, uma vez que os novatos resolvem problemas e decidem embasados em estra- tégias diferentes daquelas utilizadas por experts, e a intuição tem sido utilizada mais frequentemente conforme vai aumentando o nível de experiência do profissional. Os experts acabam utilizando mais o racio- cínio automatizado. O mesmo não acontece com os novatos, pois esses,

geralmente, possuem unidades e conhecimento dispersas, pobremente organizadas e frouxamente interconectadas.