3.5 Analyses for Chapter 3
3.5.5 Proof of Theorem 3
“Foi através dessas edições que essa geração formou seu espírito, alimentou seu cérebro, criou uma consciência que mais tarde devia eclodir em movimentos já de âmbito bem desenvolvido, à frente de agitações coletivas” (Edgar Leuuenroth).
Muitas das publicações libertárias eram realizadas no formato de opúsculos (livros com um tamanho menor, com poucas páginas em relação aos livros maiores). Essa proposta de "produção" do livro era arquitetada, não sem esmero, visando alguns objetivos. Ela atendia a três conjuntos de coisas que são relevantes para pensar a prática dos anarquistas em relação ao livro, a leitura e ao acesso ao conhecimento.
Um primeiro aspecto é a relação de custo das publicações. Isso tem absoluta relação com as dificuldades financeiras que viviam a produção do livro e a militância libertária. É comum encontrarmos na articulação dos militantes que estavam em torno da produção e circulação do livro, o debate sobre a quantidade de recursos disponíveis para as publicações. Aliadas ao desejo de publicação de muitas obras, consideradas fundamentais para o crescimento numérico e qualitativo da formação militante, estavam às dificuldades financeiras.
Cabe lembrar que a produção dessas publicações era realizada desde um ponto de vista essencialmente militante, que por mais que passasse pelas relações comerciais que obviamente se impunham (como a contratação de trabalhos gráficos relativos à obra, compra do papel, relação com editoras e livreiros), não tinha um viés lucrativo. Ou seja, a maior parte desse trabalho estava associada à propaganda de uma educação libertária e ao autofinanciamento das publicações, e menos com vistas a obter pagamentos aos seus editores – ainda que saibamos que alguns militantes possam ter tido sua penúria aliviada em algum momento com a ajuda advinda de uma ou de outra publicação. Não raro, na ausência de recursos para as obras de maior volume, se optou, portanto, por fazer obras menores. A publicação por partes ao mesmo tempo em que dava viabilidade a edição, fazia retornar mais rapidamente os recursos necessários para as edições seguintes.
Outro fator importante, e ainda em relação ao custo das obras, se refere aos destinatários da publicação. Era necessário editar obras que fossem de baixo custo, atendendo não apenas a um público já afeito a leituras e que fazia este tipo de investimento no conhecimento, mas principalmente a classe trabalhadora, quase que totalmente alheia aos livros e ao conhecimento. Era necessário estimular o acesso às edições e dirimir as dificuldades à palavra escrita. A edição de livretos cumpria também este objetivo, publicando textos menores e barateando as edições. Interessante notar que essa questão da redução do tamanho da obra, dava acesso ao bolso e a uma maior condição de leitura, tendo em conta que a leitura de textos menores, do ponto de vista do acesso cognitivo é mais acessível do que as obras maiores, com centenas de páginas e de maior exigência de cultura literária.
Este último ponto nos leva ao nosso terceiro ponto de reflexão sobre a prática dos anarquistas em relação aos livros e a leitura: as "leituras comentadas" ou "leituras coletivas". Essa prática atendia objetivamente ao conjunto de trabalhadores que não tinha acesso à "posse" dessas edições (já que pela quantidade das tiragens muitas vezes eram reduzidas o número de cópias, ficando o acesso restrito a poucas mãos ou as bibliotecas e centros de cultura social), mas tinha principalmente seu foco na imensa quantidade de analfabetos que esforçavam no acesso a leitura e ao debate dos temas caros a questão social, a disputa ideológica e a superação das estruturas de manutenção da ordem. Não à toa encontramos já nos editoriais das primeiras edições desta imprensa dos trabalhadores a crítica aos sistemas de dominação e o papel que essa imprensa objetivava ter perante seu público: destinada a "combater a ignorância" e promover a educação, cultivando a "consciência" e as ideias novas de emancipação.
A Plebe é um jornal que divulga os ideais de regeneração humana. Por todas as partes deste país, os trabalhadores acham-se na mais profunda ignorância de seu destino; mas agora reaparece este jornal, que lhe pode cultivar o cérebro com idéias novas, tornando-os homens livres, emancipados, aptos para lutar em defesa da liberdade e da justiça.173
Aos nossos companheiros bradaremos: Á escola, á escola, aos livros e a imprensa, nos eduquemos e nos instruamo-nos porque somente assim de espirito lucido e eloquencia facil poderemos esmagar a hydra que ha tantos seculos nos espreita na sombra á nutrir-se furtivamente do nosso sangue. Fujamos a política de partidos, nada de junção a burquezia esta megera hypocrita e repulsiva. Á Escola, á escola, ao livro e a imprensa.174
173 A Plebe. Nosso Jornal. São Paulo, Ano XI. Nº 245. 12 de fevereiro de 1927. 174 O Rebate: doutrinal, instrutivo e noticioso. Ano I. Nº1. 1 de maio de 1915.
É esta imprensa libertária, afeita à cultura e ao conhecimento de uma forma mais ampla, que contradita a grande imprensa de então e que chega às bibliotecas, aos Centros de Cultura e as casas das pessoas. Os lugares e o tempo da autoformação e das leituras comentadas eram múltiplos. Podia ser no simples encontro de dois militantes, ou no sentar dos pais com os filhos na área de casa, ou também no Centro de Cultura do bairro ou na biblioteca popular mais próxima, ou no panfleto trocado durante a greve. Emídio Santana, anarquista português que relata suas leituras dos primeiros anos, cita nas suas memórias que era "Em casa, à ceia como então se chamava a refeição da noite, acompanhava a leitura do jornal e o noticiário da guerra e era eu que explicava as posições das frentes, que já sabia de cór, e todos os dias revíamos no mapa da Europa" (SANTANA, 1987, p. 25).