Na investigação do caso, utilizamos o conceito de travessia (no original traversal) para nos referirmos a certas ações dos participantes do curso cMOOC. Pertencente à semiótica hipermodal, o conceito de traversal (LEMKE, 2002) nos ajuda a compreender como os alunos se movimentaram e fizeram conexões entre os espaços mobilizados pelo cMOOC, em ambientes informacionais complexos. Jay Lemke conceitua traversal como:
[...] uma nova classe de objeto teórico, a qual estou chamando de travessias. Travessias são ligações temporais-experienciais, sequências e encadeamentos de elementos significativos que deliberada ou acidentalmente, mas radicalmente, atravessam os limites de gênero. Uma travessia é um percurso através de gêneros padronizados, temas, tipos, práticas ou atividades que, no entanto, criam pelo menos um significado efêmero ou idiotipico para seus participantes humanos, e representa, pelo menos, temporariamente uma ligação ou relação funcional entre todos os seus processos constituintes e seus participantes (humanos ou não-humanos)
(i.e. atuantes16). (LEMKE, 2002, p. 7)
15
Transleitor: Ver BUZATO et al. Remix, mashup, paródia e companhia: por uma taxonomia multidimensional da transtextualidade na cultura digital.
16
I wish to propose here a new class of theoretical object, which I am calling traversals. Traversals are temporal-experiential linkings, sequences, and catenations of meaningful elements that deliberately or accidentally, but radically, cross genre boundaries. A traversal is a traversal across standardized genres, themes, types, practices, or activities that nevertheless creates at least an ephemeral or idiotypical meaning for its human participants, and represents at least a temporarily functional connection or relationship among all its constituent processes and their (human or nonhuman) participants (i.e. actants).
Em seu texto Viagens na Hipermodalidade (2002), Lemke examina o processo de construção de sentido em hipermídias e meios hipermodais. O termo hipermodalidade se refere às interações entre o vocábulo, o som, a imagem ou outros significados produzidos em hipermídia, com interações que são multiplicativas de sentido. Assim, a hipermodalidade é:
[...] a fusão de multimodalidade e hipertextualidade. Não só temos ligações entre as unidades de texto de várias escalas, mas nós temos ligações entre as unidades de texto, elementos visuais e as unidades de som. E esses vão para além das convenções padrão de tradicionais gêneros multimodais. (LEMKE, 2002, p.3).
Nessas travessias, a combinação entre múltiplas modalidades e a trajetória de navegação produzirá um determinado um sentido. Esse aspecto já foi apontando anteriormente como parte da natureza ergódica do hipertexto (AARSETH, 1997, p.1), no qual os usuários constroem sequências semióticas ao escolherem certos links, traçando percursos de navegação.
A produção de sentido nessas travessias pode ser compreendida como produção de sentido longo, i.e. em longa escala. O teórico Jay Lemke chama atenção à produção do sentido no decorrer de travessias, pois elas tratam do significado em uma escala de tempo, espaço e texto muito maiores em comparação à escala típica de unidades vinculadas em páginas de um livro didático (parágrafo, página, período etc.) ou em um programa de tv, por exemplo. Devido à extensão das escalas possibilitadas pelos sistemas hipertextuais, a produção do usuário é bem menos previsível para o designer do que no caso do livro impresso ou outras mídias, nas quais ocorria uma sequência convencionalizada (LEMKE, 2002).
Parece-nos que, embora seja um conceito mais antigo (ele começou a ser desenvolvido por Jay Lemke em 2001), a travessia é um conceito que pode dialogar e complementar a noção de transliteracias. Primeiramente, é possível aplicar o conceito de travessia à cultura de convergência17, destacando os letramentos dos usuários para movimentar-se e gerenciar informação entre diferentes plataformas digitais, gêneros, modalidades, canais e mídias. Porém, neste último caso, a construção de sentido longo não se daria somente através de hipertexto, pois temos então um significado construído que transita por múltiplas plataformas de mídias e canais.18
17
Efetivamente, em publicações posteriores, Jay Lemke estabeleceu a conexão possível entre travessias e transmídias, como texto Transmedia Traversals: Marketing Meaning and Identity (2013), o qual integra o livro
Readings in Intersemiosis and Multimedia, organizado por Elena Montagna, em 2013.
18
Para mais informações sobre, ver SILVA, D. P. The lacunar nature of the transmedia narrative: a transmeaning reading. In CONGRESO NUEVAS NARRATIVAS. ENTRE LA FICCIÓN Y LA
Figura 2: Representação de travessia transmidiática.
Fonte: Montagem gerada pelo pesquisador do presente estudo.
Secundariamente, se aplicarmos o conceito de travessia ao contexto educacional de um curso on-line, pode-se colocar em foco o movimento fluído do aluno durante o processo de ensino-aprendizagem. Nessa situação, temos um estudante que aplica transliteracias, ele se movimenta através de espaços informacionais supercomplexos (portal,
Twitter, blogs etc.), transferindo configurações e habilidades entre essas plataformas,
integrando práticas letradas.
Por esse viés, a concepção de travessia permite fazer referência a esse movimento fluido em sua especificidade, identificando como certas travessias isoladamente colaboram e são parte da construção de uma ação, um conhecimento e uma decisão. Isso oportuniza verificar como o estudante ou o tutor articulam seus mindsets e transliteracias, dentro de uma economia informacional complexa, na qual o curso on-line constitui apenas uma mera janela entre as muitas abas do navegador. Na montagem abaixo, buscamos construir uma representação visual dessas travessias hipermodais, representando um aluno que aplica as transliteracias para transitar entre diferentes ambientes informacionais complexos, que são articulados pelo curso on-line.
INFORMACIÓN: DE LA DESREGULACIÓN A LA INTEGRACIÓN TRANSMEDIA, 2017. Barcelona, anais... Barcelona: Universitat Atutònoma de Barcelona, 2017. vol. I. p. 249-263.
Figura 3 – Travessias de um aluno em ambiente informacional complexo
Fonte: Montagem gerada pelo pesquisador do presente estudo.
Retomar a semântica hipermodal e o conceito de travessias é importante para reforçar que o aluno e-learning não é diferente do usuário que navega pela internet ou do consumidor que consome conteúdo da cultura de convergência. O estudante e-learning é também um interator que lê hipertextos, produzindo seu significado e conhecimento em escala de sentido longo e hipermodal. O aluno virtual é também um rico produtor de travessias, que articula sua participação em cursos on-line e constrói seu conhecimento a partir delas.
Em nossa análise do curso, detectamos a ocorrência de diferentes tipos de marcas semióticas deixadas por travessias de alunos e facilitadores: por exemplo, curtir postagens de colegas, compartilhar hiperlinks, comentar blogs etc. Essas marcas funcionam como registros de movimentação dos indivíduos, elas mostram como os participantes conectam assuntos, gerenciam conteúdos, valorizam membros, articulam, agregam, mudam e robustecem sua participação por meio das transliteracias, fazendo travessias entre de ambientes complexos.
Por isso, buscamos demonstrar que as travessias, combinadas às transliteracias, possuem um papel essencial para reduzir a distância entre tutor e aluno, construindo interações mais próximas, fluídas e heterárquicas. Na montagem da próxima página (figura 4), é possível visualizar uma representação com amostras desse gerenciamento e travessias, dentro do objeto estudado. Durante o curso diversas videoconferências foram organizadas, elas foram identificadas como webinars. A princípio, o webinar era sinalizado no portal do
curso, o qual proporcionava hiperlinks para ferramentas, como aplicativos de calendário; a posteriori, esse evento devia ocorrer via Hangout, serviço da plataforma GooglePlus.
Por ocasião do evento, os alunos podiam acompanhá-lo por meio de intervenções síncronas via Twitter. Na sequência, um registro da conferência também era disponibilizado na plataforma de compartilhamento Youtube, para comentários assíncronos na plataforma e fórum. Na investigação, apontamos como essa conversa atravessa diferentes contextos informacionais. Esse ciclo de travessias não se fecha ao final do webinar, pois o evento continua a repercutir em postagens e comentários de blogs, no fórum e demais espaços, ampliando as travessias e ambientes envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.
Parece-nos importante verificar a ocorrência dessas travessias na dinâmica de cursos on-line e compreendermos seu funcionamento (quais são? Para que servem? Como ocorrem? O que as estimula?) a fim de entender como essa movimentação agrega valor ao ensino-aprendizagem, transformando as interações de tutores e alunos.
Investigar os mecanismos dessas travessias pode viabilizar o aperfeiçoamento de técnicas instrucionais que apontem subsídios para fomentá-las ou direcioná-las (como já ocorre efetivamente na cultura de convergência).
Figura 4- Evento que articula diferentes espaços informacionais
Investigar travessias no curso on-line Connected Courses é também reforçar que os ambientes virtuais de aprendizagem não podem se constituir, de fato, como ambientes fechados, pois os alunos realizam travessias e fazem conexões externas, transitando entre janelas do navegador, transferindo habilidades entre contextos com configurações diferentes, de modo a participar, colaborar, comunicar, compartilhar, alternando papéis, integrando ambientes informacionais supercomplexos e gerando sentidos que integram modalidades, gêneros, canais ou mídias, em suma, executando aquilo que foi definido como transliteracias.