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Depois do tecido adiposo, o cerébro é o segundo sistema que mais contêm lipídios no organismo humano. Não é de se estranhar, portanto, que diferentes doenças do sistema nervoso central (SNC) tenham sua fisiopatologia potencialmente relacionada a distúrbios lipídicos. Estas incluem doenças genéticas e neurodegenerativas, tais como autismo, Alzheimer, esquizofrenia, esclerose múltipla, leucodistrofias, esclerose lateral amiotrófica, Parkinson e glioblastomas (Dawson, 2015; Khan e Alkon, 2015).

No geral, observa-se que doenças do SNC estão intimamente ligadas a alterações do metabolismo de glicerofosfolipídios, como o autismo (Brown e Austin, 2011). Alterações específicas do perfil de glicerofosfolipídios e outras classes de lipídios podem ser encontradas em pacientes com doenças do SNC, na dependência de seu tipo. Por exemplo, a doença de Alzheimer é associada à deficiência de lipoproteínas e glicerofosfolipídios (incluindo a subclasse cardiolipina) e ao aumento de colesterol esterificado com cadeia longa de ácidos graxos, de plasmalogenos de etanolamina e de esfigomielinas (Cardoso et al., 2015, Chan et al., 2012; Khan e Alkon, 2015; Proitsi et al., 2015).

Uma doença onde a relação de distúrbios no metabolismo lipídico com sua fisiopatologia encontra-se bem descrita é a esquizofrenia. Dentre as hipóteses disponíveis sobre a origem dessa doença, duas vêm ganhando força e ambas envolvem alterações lipídicas (Oresic et al., 2012). A primeira delas, a hipótese das prostaglandinas, postula que defeitos do sistema de enzimas que convertem ácidos graxos em prostaglandinas leva à deficiência desses mediadores, afetando a

transmissão das sinapses; já a segunda, a hipótese dos glicerofosfolipídios, sugere que a absorção deficiente, degradação excessiva ou mudança de composição de glicerofosfolipídios de membrana pode estar associada com a esquizofrenia (Oresic et al., 2012).

Pesquisadores defendem que ambas as hipóteses da origem da esquizofrenia podem estar interligadas. Ocorre que a síntese de prostaglandinas pela ação da enzima fosfolipase A2 implica na hidrólise de fosfatidilcolina, gerando lisofosfatidilcolina como bioproduto do processo. Conforme pode ser observado na Figura 3.2, a lisofosfatidilcolina é positivamente correlacionada com a densidade do material cortical cinza do cerébro (Oresic et al., 2012). Portanto, deficiências na via enzimática da síntese de prostaglandinas podem diminuir os níveis cerebrais de lisofosfatidilcolina, cuja deficiência é em indivíduos esquizofrênicos (Oresic et al., 2012). Além disso, evidências científicas sugerem que indivíduos com risco de esquizofrenia podem ser mais suscetíveis à infecções, devido à produção deficiente de prostaglandinas (Oresic et al., 2012). Adiciona-se ainda que outras alterações lipídicas e metabólicas podem acompanhar a doença, como aumento dos níveis totais de triglicerídeos e resistência à insulina (Oresic et al., 2012).

Por outro lado, alguns lipídios podem ser importantes para prevenção de doenças do SNC. Por exemplo, avaliações experimentais mostraram que a suplementação com glicerofosfoserinas e DHA, em combinação ou isolados, se Figura 3.2. Correlações significantes entre níveis de lisofosfatidilcolina 18:0 e densidade de material cortical cinza (Oresic et al., 2012).

acompanhou de aumento de atividades antioxidantes e viabilidade de neurônios in vitro e de melhora de parâmetros oxidativos no cérebro in vivo. Considerando-se que o desenvolvimento de diversas patologias do SNC é acompanhado por estresse oxidativo, incluindo doença de Alzheimer e esquizofrenia, (Bošković et al., 2011; Huang et al., 2016) pode-se postular que lipídios específicos, como glicerofosfoserinas e DHA, podem prevenir o desenvolvimento de doenças do SNC por inibirem estresse oxidativo no ambiente cerebral.

Portanto, o perfil lipídico da dieta humana pode ser importante para a prevenção dessas doenças. Particularmente, a ingestão de EPA e DHA pode conferir benefícios à uma variedade de transtornos psiquiátricos e neurológicos, principalmente condições neurodegenerativas (Dyall et al., 2008). Os mecanismos envolvidos nessa proteção são pouco conhecidos, mas envolvem suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Propriedades anti-inflamatórias desses AGPIs ω-3 são reportadas como relevantes no tratamento de pacientes que sofrem de esclerose múltipla, caracterizada como uma doença desmielinizante inflamatória crônica do SNC (Siegert et al., 2017).

Como fonte rica em AGPIs ω-3, o consumo de peixes pode ser importante para a prevenção de doenças do SNC. Além disso, o perfil lipídico de peixes também pode incluir outros componentes que contribuem para esse benefício, como glicerofosfolipídios. O Brasil tem na região amazônica uma fonte de variadas espécies de peixes, muitas exclusivas da região e bioquimicamente pouco descritas. É possível que espécies de peixes amazônicos tenham um perfil lipídico rico em componentes associados à saúde do SNC, mas dados nessa área ainda são escassos para permitir esse conhecimento.

Esta etapa do presente estudo buscou contribuir com informações nessa área, investigando o conjunto de glicerofosfolipídios e a composição de seus ácidos graxos (em especial a presença de AGPIs de interesse clínico sobre doenças do SNC) de nove espécies de peixes amazônicos. Conforme observado na etapa 1 do presente estudo, os hábitos alimentares de peixes amazônicos e alterações da disponibilidade de alimentos que os atendem ao longo dos distintos períodos de seca e cheia influenciam seu conteúdo lipídico. Portanto, as análises envolvidas nesta etapa foram conduzidas com foco no conteúdo de lipídios das espécies de peixes amazônicos estudadas dentre seus distintos hábitos alimentares, ao longo dos períodos de seca e cheia. Além disso, com base nas observações iniciais deste

estudo de que o conteúdo lipídico pode variar de acordo com tecido de origem, essas análises foram desenvolvidas em dois tecidos distintos: músculo dorsal e fígado.

2. OBJETIVOS

Este capítulo tem como objetivo principal caracterizar, em termos de composição de ácidos graxos com potencial relevância sobre a saúde neurológica, o conteúdo de fosfolipídios e dos seus componentes mais representativos de nove espécies de peixes amazônicos selvagens com diferentes hábitos alimentares e capturadas em diferentes períodos sazonais

Através da análise de lipídios extraídos de amostras de músculo dorsal e fígado por EM, os objetivos específicos deste capítulo são:

i. Caracterizar o conteúdo de fosfolipídios e dos seus componentes mais representativos (biomarcadores) dentre as espécies de peixes estudadas.

ii. Comparar o conteúdo de glicerofosfolipídios entre tipos de hábitos alimentares, período sazonal e tecido de origem.

iii. Determinar glicerofosfolipídios candidatos à prevenção do desenvolvimento e progressão de doenças do sistema nervoso central.

3. MATERIAL E MÉTODOS

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