Para Winnicott, há uma tendência inata intitulada continuidade do ser, algo que estimula o bebê, isto é, permite ao ser humano percorrer um caminho que o impulsiona de condição de uma dependência absoluta para uma condição de dependência relativa e, depois, em direção da busca da independência.
Vale ressaltar que este autor parte da concepção de que no início da vida há uma dependência absoluta, em que o bebê não se diferencia do seio: ele é o seio. Ainda que, do ponto de vista do observador externo haja a mãe e o seu bebê, do ponto de vista do bebê, ele e a mãe são uma unidade: o bebê é o seio que o alimenta, os braços que o sustentam, as mãos que o afagam.
Neste momento, o bebê ainda vive o mundo do objeto subjetivo, onde ainda não se constituiu a noção da realidade externa. Também estágio da Primeira Mamada Teórica, não há diferença entre o eu e o não-eu. E para que o bebê dê continuidade a sua conquista rumo à independência, é necessário que a mãe apresente a ele o mundo em pequenas doses, pois um bebê não pode existir sozinho, sendo essencialmente parte de uma relação.
Um milhar de vezes houve a sensação de que o que era querido era criado e constatado que existia. Daí se desenvolve uma convicção de que o mundo pode conter o que é querido e preciso, resultando na esperança do bebê em que existe uma relação viva entre a realidade interior e a realidade exterior, entre a capacidade criadora, inata e primária, e o mundo em geral, que é compartilhado por todos (Winnicott, 1947b, p.116).
Neste contexto, a mãe que está à disposição do seu bebê, permitindo que ele seja, estaria vivendo a relação de objeto do elemento feminino puro: ambos estão sendo. Dessa forma, quando se fala de elemento feminino, não se pode esquecer de que ele se relaciona com o seio (ou com a mãe) no sentido de o bebê tornar-se o seio (ou a mãe), no sentido de que o objeto é o sujeito (Winnicott 1971g, p.113). Quando se fala da relação do elemento feminino com o seio, leva-se em consideração um ambiente facilitador, ou uma mãe suficientemente boa, que
apresente o seio no lugar e momento certo da necessidade do bebê. Quanto ao elemento masculino, temos:
Em contraste, o relacionamento objetal do elemento masculino com o objeto pressupõe uma separação. Assim que a organização do ego se acha disponível, o bebê concede ao objeto a qualidade de ser não-eu e separado, e experiência satisfações do ID que incluem raiva, relativa à frustração. A satisfação pulsional realça a separação existente entre o objeto e o bebê e conduz à objetivação do objeto. A partir daí, do lado do elemento masculino, a identificação precisa basear-se em complexos mecanismos mentais aos quais se tem de dar tempo para que apareçam, desenvolvam-se e se estabeleçam como parte do novo aparelhamento do bebê. Do lado do elemento feminino, porém, a identidade exige tão pouca estrutura mental que esta identidade primária pode construir uma característica desde muito cedo e as fundações para o simples ser pode ser assentada (digamos) desde a data do nascimento, ou antes, [...] (Winnicott 1989vp [1959/63], p.140).
Portanto, temos, assim, que a identificação primária do bebê com sua mãe e a identificação com aquela que é abre espaço para a constituição do si mesmo e do sentimento do real. Lembrando que o sentimento de ser é estabelecido pela maneira como a mãe maneja as necessidades do bebê. Nesse caso, a identidade com o elemento feminino puro é condição fundamental para todas as identificações futuras que ocorrem na vida de cada ser humano. Do contrário:
(clinicamente necessita-se lidar com o caso do bebê que tem de se haver com uma identidade com um seio que é ativo, que é um seio de elemento masculino, mas que não é satisfatório para a identidade inicial, a qual necessita de um seio que é, não de um seio que faz. Ao invés de “ser como”, esse bebê tem de “fazer como”, ou ser-lhe feito, o que, do nosso ponto de vista aqui, constitui a mesma coisa) (Winnicott 1971g, p.117).
No amadurecimento saudável existe uma quantidade variável de elemento masculino e feminino em todos os seres humanos, sendo que o que distingue o elemento feminino no
contexto da relação de objeto é a identidade. “Temos ainda que lembrar que não existe o ser e o mundo, existe um ser no mundo” (Forlenza,1993, p.9).
Retomando Winnicott, chegamos ao ponto em que postula:
a característica do elemento feminino no contexto da relação de objeto é a identidade, concedendo à criança base para ser, e depois, mais tarde, uma base para o sentimento do eu (self). Acredito que é aqui, na dependência absoluta da provisão materna, daquela qualidade especial pela qual a mãe atende, ou deixa de atender ao funcionamento mais primitivo do elemento feminino, que podemos buscar o fundamento da experiência de ser (Winnicott 1971g, p.120).
Na experiência de ser do bebê, a mãe suficientemente boa tem tarefa especial, a de colocar o que o bebê cria no lugar e no tempo em que necessita. A adaptação da mãe à necessidade do bebê, quando suficientemente boa, dá a este a ilusão de que existe uma realidade externa que corresponde à sua capacidade de criar, segundo a teoria do amadurecimento pessoal. Depois de proporcionar a tarefa de ilusão, a próxima é a tarefa de preparar gradativamente o bebê para suportar a desilusão. Essa atitude da mãe permite que a experiência primária de criação vá sendo internalizada, constituindo-se numa fonte interna do viver criativo29.
Na concepção winnicottianna, os elementos masculino puro e feminino puro são elementos básicos para o “ser” e o “fazer”, e uma condição primária para a vida criativa, e associada também à saúde. É ainda pensamento do autor que os elementos masculino e feminino puros devem estar presentes e integrados em todo ser humano.
A criatividade é própria do estar vivo – de tal forma que, a não ser que a pessoa esteja em estado de repouso, ela está sempre tentando, de algum modo, alcançar algo, de maneira que, se houver um objeto no caminho, pode haver um relacionamento. “Ser, antes de Fazer. O Ser tem que se desenvolver antes do Fazer” (Winnicott 1986h [1970], p.26).
Desta forma, a falta de integração entre os elementos femininos e masculinos, ou falando de outra forma, entre o SER e o FAZER, contribui para as insatisfações pessoais diante da vida e
da sensação de falta de unidade de si mesmo. Em outras palavras, para existir a criatividade, o elemento feminino puro seria fundamental, próprio da fase de unidade entre a mãe e o bebê.
O bebê torna-se preparado para encontrar um mundo de objetos e idéias, e, segundo seu crescimento nesse aspecto, a mãe vai lhe apresentando o mundo. Dessa forma, em função de seu alto grau de adaptação durante esses tempos iniciais, essa mãe capacita o bebê a experimentar a onipotência: a encontrar realmente aquilo que ele cria, e a criar e vincular isso com o que é real. O resultado prático é que cada bebê começa com uma nova criação do mundo (Ibid., p.34).
Outro aspecto a ser considerado no processo de amadurecimento e separação é a questão da diferença entre os sexos, partindo de como cada um deles vai viver a dependência absoluta de uma Mulher. Trata-se de uma questão essencial para o desenvolvimento da identidade feminina e masculina.
Para tanto Winnicott postula que o homem, para ser si mesmo e para constituir a sua identidade, terá de se separar dessa Mulher de quem era completamente dependente e de quem, depois, torna-se relativamente dependente.
No âmbito da mulher, para constituir sua identidade feminina, ela não precisa estabelecer necessariamente a separação de uma Mulher – pode manter-se. Eis como o autor coloca essa questão:
Agora, é realmente muito difícil que um homem ou uma mulher aceitem de verdade o fato da dependência absoluta e depois relativa, naquilo que ela se aplica ao homem e à mulher já adultos. Por tal razão há fenômeno separado que denominamos MULHER, que domina todo o cenário e afeta todo o nosso raciocínio (Winnicott 1986g [1964], p.193).
Nessa perspectiva, temos que a singularidade da identidade feminina caracteriza-se por ser geracional e infinita, ou seja, cada mulher está sempre em contato com a genealogia feminina.