Os pressupostos winnicottianos sobre a diferença entre homens e mulheres destacam que não é possível esquivar-se ao fato de que todo homem e toda mulher vieram de uma mulher. Por conseguinte, um fato é incontestável: todo homem e toda mulher crescem dentro de um útero e todos nascem de um parto. Quanto mais se observa isso, cresce a necessidade de que exista o termo MULHER, um termo que torna possível a comparação entre homens e mulheres e, para expor esse assunto, formulam-se dois estágios:
1. A questão central deste assunto não se refere ao fato de que todos os indivíduos estavam inicialmente dentro do útero e depois nasceram, mas ao fato de que, no início, todos foram
dependentes de uma mulher; melhor dizendo, completamente dependentes e, numa fase posterior, relativamente dependentes. Então, torna-se evidente que o padrão da saúde mental, desde o começo, é estabelecido por uma mulher, que faz aquilo que tinha que fazer, numa fase em que o amor somente é expresso em termos de cuidado físico.
2. Da outra parte, tem-se o bebê que, inicialmente, envolve completamente a mãe, porque nessa fase mãe e bebê são uma unidade, e esse bebê depende do suprimento ambiental, do “segurar”, do manejar sensível e da alimentação vinda da mãe. Ele vive a dependência total.
Com referência a esses dois pontos, tem-se a dizer que tanto para a mulher quanto para o homem é difícil aceitar o fato da dependência absoluta e depois relativa de uma mulher, quando ambos já são adultos. Por isso, tem-se que considerar um fenômeno em separado que se denomina MULHER.
MULHER é definida na teoria winicotiana por a mãe não reconhecida dos primeiros estágios de vida de todo homem e de toda mulher. Assim, pode-se dizer que, na história mais longínqua de todo ser humano que se desenvolve suficientemente bem, e que foi capaz de se encontrar a si mesmo, existe um débito para com uma mulher – aquela que se devotou a ele quando ele era bebê (Winnicott 1950a, p.264).
Em uma visão mais ampla, quando o autor se refere ao desenvolvimento pleno da dependência vivida inicialmente por todos os indivíduos, se o papel da mãe não for verdadeiramente reconhecido, pode-se permanecer um medo vago da dependência. Esse medo poderá até mesmo ser transformado num medo da MULHER, podendo tomar formas sutis, como o medo da dominação. (Winnicott 1957o, p.119).
Nota-se que as mulheres ainda são minoria a ocupar lugares de responsabilidade ou de fazer. Mesmo sabendo que tanto homens como mulheres possuem igualdade na capacidade intelectual e emocional para tal, essa questão não se desfaz.
Tais idéias são uma maneira de entender um pouco mais sobre a diferença entre os sexos.
Nas mulheres, pode-se notar quando se relacionam com a MULHER, através de uma identificação com ela. “Para toda mulher, há sempre três mulheres: 1.o bebê menina, 2.a mãe, 3.a mãe da mãe” (Winnicott 1986g [1957], p.193).Freqüentemente essas três gerações de mulheres
aparecem em mitos, ou então não é incomum vê-las em três funções separadas. No entanto, não se considera relevante que uma mulher tenha bebês ou não, de qualquer maneira ela se faz presente nessa série infinita.
Ainda sobre a questão geracional24, sabe-se que a mulher já começa sua vida sendo três, enquanto o homem começa com um impulso tremendo para ser um só. Um é um e completamente só, e o será cada vez mais. Nesse ponto da questão, entende-se que a mulher feminista pode invejar os homens, já que, quanto mais eles amadurecem, mais são únicos.
Outro aspecto a ser considerado para homens e mulheres: de uma maneira ou outra, tanto um como o outro dependeram de uma mulher, e se o indivíduo alcançar a maturidade plena, transformará o sentimento de rancor dessa situação em sentimento de gratidão (Ibid., p.194).
Em se tratando de paternidade, Winnicott deixa claro que não tem a intenção de dizer que os filhos devem agradecer aos pais por tê-los concebido, e nem tampouco aos pais que aguardem gratidão de seus filhos. Afinal, “os bebês não pedem para nascer” (Winnicott 1957o, p.118). Portanto, não se pode afirmar que as crianças tenham obrigações na organização da família, mesmo que um dia venham a agradecer o lar que tiveram. E sobre esse aspecto ainda acrescenta que bons pais comuns constroem um lar e mantêm-se juntos, promovendo então uma quantidade de cuidados à criança e mantendo, portanto, um contexto em que cada criança encontra gradualmente a si mesma – seu self e ao mundo, e uma relação operativa entre ela e o mundo (ibid., p.118).
Essa posição do autor leva-nos a perceber que o lar é, pois, de exclusiva responsabilidade dos pais e, caso se reconheça e aceite a contribuição da mãe devotada, continua a seguinte proposição:
[...] segue-se que todo homem ou mulher sadios, todo homem ou toda mulher que tem o sentimento de ser uma pessoa no mundo, e para a qual o mundo significa alguma coisa, toda pessoa feliz tem um débito infinito para com uma mulher. Ao mesmo tempo, quando essa pessoa foi criança
24 Winnicott explana que diferentemente da mulher a questão das “três mulheres”, não tem um equivalente num trio
masculino. No que diz respeito ao relacionamento sexual cada homem é particularmente ele mesmo naquele momento, enquanto no tocante a mulher existe, numa certa maneira, não uma mulher, mas um trio. cf. D. W. Winnicott, W18, 1988, p.65.
ela não sabia nada a respeito da dependência: havia dependência absoluta (Winnicott 1957o, p.119).
A descrição de dependência acima destaca que toda pessoa a teve, quando foi criança, e esse fato revela a importância de examinarmos o papel materno. Freqüentemente se nega a importância inicial da mãe no trato com o bebê, valorizando-se apenas a técnica de cuidados físicos. Contudo, se somente isso fosse suficiente, qualquer pessoa poderia se encarregar da maternagem dos bebês25.
A partir dessa análise, temos, assim, que todo homem ou toda mulher que existe no mundo tem um débito infinito para com uma mulher, mesmo que jamais venha a reconhecê-lo.
Dando prosseguimento a essa questão, Winnicott ressalta também que as mulheres – em virtude de sua identificação com as mulheres do passado, do presente e do futuro – encaram o risco do parto. E não têm como fingir que não existe perigo para essa função natural da mulher. E os homens invejam essa exposição da mulher ao perigo, e ainda se sentem culpados por causar-lhes a gravidez, gerando uma certa passividade quando permanecem apenas como espectadores dos acontecimentos que envolvem todo o trabalho de parto e nos cuidados iniciais com o bebê. Disso depreende-se que as mulheres começam no seu papel de mãe assumindo riscos e assim continuaram o seu trajeto.