Apresento a seguir algumas pontuações que caracterizam a compreensão de Deus e da religião no pensamento de Freud. Isso será importante para situarmos as diferenças e/ou a continuidade que a abordagem de Lacan representa em relação a elas. Não pretendo fazer uma exposição exaustiva das posições de Freud, nem tampouco uma comparação exaustiva, mas ressaltar principalmente aqueles aspectos que são relevantes para a compreensão do pensamento de Lacan e que serão retomados por ele.
Quando Freud aborda a questão da religião, o faz especialmente em quatro textos. O primeiro deles é o artigo Atos Obsessivos e práticas religiosas102 de 1907. Nesse artigo Freud faz um estudo das semelhanças entre os cerimoniais obsessivos e as práticas religiosas. Não se trata de um estudo sobre as questões e temas da religião. Seu enfoque é direcionado sobre a prática religiosa. Freud constata um paralelismo entre ambos e conc lui que, como afirma Franco: “[...] a neurose obsessiva pode ser entendida como uma degene ração patológica da religião. Por outro lado, a religião poderia ser pensada como uma neurose obsessiva universal e pública”103.
102
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. IX.
103
FRANCO, Sergio de Gouveia. Erotismo, sexualidade e religião: um enfoque psicanalítico. In:
Porém, os textos mais relevantes para a articulação do pensamento de Lacan sobre a religião são Totem e tabu104, de 1913; O Futuro e a ilusão105, de 1927 e Moisés e o monoteísmo106, de 1938.
Nesses textos Freud não se limita à dimensão da prática religiosa, mas enfoca questões temáticas da religião e as articula em torno da figura do Pai. No estudo destes textos é possível observar que Freud trabalha com a noção de um desenvolvimento histórico, com supostas fases evolutivas, nas quais a figura do Pai é situada de formas diferentes.
Em Totem e tabu Freud faz uma abordagem que se refere ao que considera como as religiões primitivas. Freud trabalha com hipóteses que não encontram uma fundamentação na história ou antropologia. Propõe a existência de uma horda primeva, num tempo originário, no qual os irmãos assassinaram o pai tirano, detentor de um direito de gozo sem limites. Pela culpa e medo de retaliação e também pela necessidade de organizar o direito ao gozo dos irmãos, depois de assassiná-lo, erigiram o pai morto como o Pai simbólico que regulava o gozo dos irmãos pela lei da exogamia. Freud concebe aqui a função da figura paterna como expressão de uma primeira superação, proporcionada pelos recursos do aparato psíquico, sobre as percepções empíricas dos sentidos. Trata-se de uma primeira abstração, um avanço com o que se caracterizaria a forma das religiões ‘primitivas’ em sua diferença com a religião monoteísta107.
Em Moisés e o Monoteísmo, com a proibição da representação da imagem do Deus dos judeus, Freud vê um progresso da mente humana em sua capacidade sublimatória, que ainda não existe em Totem e tabu. Enquanto o Pai primevo era
104
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XIII.
105
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XXI.
106
FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Vol. XXIII.
107
Lacan vê nessa diferença, não o processo evolutivo da sociedade, mas a diferença estrutural entre o imaginário e o simbólico, onde o simbólico é uma instância da linguagem e instauradora de uma ética que tem uma eficácia na produção de sentido e transcendência.
apresentado como o tirano sem limites para seu gozo, o Deus monoteísta de Moisés já tem um nome e consiste em ser puramente espiritual.108
Freud aproxima e compara a constituição do sujeito e a formação da religião judaica, ressaltando um aspecto comum a ambos: a relação com um elemento traumático do passado para o qual não houve uma simbolização e que, como uma herança constituída de fragmentos, formou o que em sua teoria é denominado de recalque originário. Um ponto de opacidade irredutível e não representável em torno do qual se dá a história do sujeito e se deu a história desse povo. Esse ponto traumático e recalcado seria o assassinato do Pai. A figura paterna entra em cena como aquele que organiza um campo outro em torno desse algo traumático. Segundo Freud, a idéia de um Deus único, trazida por Moisés, trouxe à tona as reminiscências da experiência da horda primeva com o pai, esquecidas pela família humana. Foi a volta do recalcado, constituído como um lugar outro, fora da consciência. Esse lugar em que se situava o inassimilável, foi ocupado pelo Pai.
Situado nesse lugar o pai vivenciado na infância, torna-se um ser supremo em relação ao qual pode-se esperar proteção e amparo, em troca de amor dedicado a ele. Esse comportamento Freud denomina de infantilismo e o descreve em O Futuro de uma ilusão como destinado a ser superado. Assim, para Freud foi o monoteísmo que, na cultura, estabeleceu o pai de família como Pai simbólico, na medida em que deriva sua autoridade não dele mesmo, mas de uma instância simbólica, da qual é uma metáfora. Nesse caso, a instância simbólica, esse lugar Outro, no qual habita um Pai é resultado de uma projeção infantil109.
Na medida em que, para Freud, a religião está relacionada ao recalque, sempre será relacionada a um sintoma ao qual correspondem uma verdade e um saber a serem
108
LIPOWATZ, T. Der Fortschritt in der Geistigkeit und der Tot Gottes. p.42.
109
Veremos adiante que Lacan desenvolve a noção do registro do simbólico e xatamente em torno desse momento e relaciona a ele sua concepção do Deus dos filósofos, porque suposto e constituído nesse processo de transferência.
decifrados. Tanto em sua teoria quanto em sua prática, a psicanálise freudiana se caracteriza como “tratamento dos efeitos do recalque”110. Todo sintoma é entendido como o retorno, efeito, do recalcado. Sendo o sintoma entendido como uma verdade que pode ser apreendida pela palavra, ele implica num saber possível. Essa visão de Freud determinou sua compreensão da religião, entendida na economia dos efeitos do recalque, de forma que quando esses efeitos fossem transformados em saber, haveria a dissolução de sua expressão enquanto sintoma. É nesse sentido que para Freud Deus é concebido como sintoma.
Podemos reconhecer aqui que a visão de Freud foi marcada pelo otimismo e crença na capacidade da palavra e da simbolização, através da interpretação, de abarcar ou apreender a realidade. É nesse ponto que o pensamento de Lacan introduz uma nova perspectiva. Ao apontar para os limites do processo de simbolização e interpretação, impõe a necessidade de se reconhecer o real de todo simbólico, como aquilo que insiste em não se inscrever, em não se deixar apreender. Ao introduzir o registro do real, introduz a negatividade, pelo que a psicanálise deixa de ser uma ciência positiva, como o pretende Freud, e se aproxima da arte e religião111. O sintoma já não mais será entendido apenas como relacionado ao recalcado, passível de dissolução pela análise, mas expressão do real, esse a mais ou a menos que caracteriza uma defasagem em toda interpretação e impondo um vazio ou uma falta. Quando Lacan relaciona Deus com essa concepção de sintoma está se referindo a algo muito distinto do que Freud propõe. Enquanto para Freud Deus não passa do sintoma entendido como deslocamento substitutivo que será dissolvido pelo saber, pela linguagem, Lacan propõe conceber Deus como sintoma que é expressão do real e que não se deixa apreender pelas palavras, que não pode ser metaforizado. Aqui poderíamos dizer que o sintoma, é manifestação do que está para-além da linguagem. Assim também Deus.
110
FORBES, Jorge. Do insulto e do elogio. In:
http://www.jorgeforbes.com.br/br/contents.asp?s=23&i=37
111
Veja em “A concepção de símbolo e religião em Freud, Cassirer e Tillich”, a crítica de
Josgrilberg sobre a concepção freudiana. In: Psicologia, Saúde e Religião. Estudos de Religião 16. p. 50.
Na perspectiva do pensamento de Lacan, a concepção freudiana de Deus e da religião se situa e se restringe ao campo do simbólico, onde impera a noção da existência de um grande Outro, detentor de todo saber. Por outras vias que Freud, Lacan também vai considerar esse Outro como constituído pela crença nele, através do processo de transferência, ou seja, da suposição do sujeito suposto saber.
Porém, veremos adiante, Lacan não restringe sua concepção de Deus ao campo do simbólico onde impera esse grande Outro suposto, mas introduzirá, pelo conceito de real, a noção da existência de um Outro, de um transcendente que não constituído pela crença nele. Por isso, embora o discurso religioso apresente uma versão pela qual pode ser concebido como projeção do pai e forma coletiva de obsessão, ele não se restringe a isso.
Essa diferença está relacionada ao fato de que enquanto Lacan tem como referência para suas teorias sobre o psiquismo uma concepção antropológica - seu modelo é o ser humano enquanto ser falante, submetido às leis da linguagem, Freud trabalha com modelo biológico, neurofisiológico, para explicar os fenômenos psíquicos. O psiquismo é concebido por Freud como um aparelho e descrito como formado por sistemas (consciente, pré-consciente, inconsciente), nos quais circulam energias que se transformam e deslocam112. De tal forma que o sintoma é percebido apenas como o deslocamento pulsional, pelo qual a pulsão encontra uma representação substitutiva. Essa concepção favorece a crença na possibilidade de objetivar e positivar o saber psicanalítico como uma ciência.
112