No ensino de Lacan, enquanto na estrutura psicótica114 não se realiza a metáfora paterna pela falta de inscrição do Nome-do-Pai, de forma que este corte, a castração, não terá porque ser recalcado; e na estrutura perversa115, embora tenha havido a entrada do Nome-do-Pai, este é desmentido, negado; na estrutura neurótica o Nome-do-Pai realiza sua função, pela qual estabelece a falta e o desejo. O recalque é o recurso de defesa do neurótico frente à experiência da castração. O que é recalcado na estrutura neurótica é o saber acerca da incompletude e da impossibilidade de tamponá- la ou de re-estabelecer o estado de completude perdido. Em virtude do recalque o neurótico é o sujeito que acredita na possibilidade de voltar a ser, de superar sua falta em ser. Por isso Lacan se refere a ele como religioso por estrutura.
Por diferentes caminhos o neurótico cria uma fantasia que lhe permite crer na possibilidade de corresponder ao desejo do Outro, como forma de restabelecer seu ser. O neurótico espera pela confirmação vinda do Outro e acredita que com ela pode aceder ao estado de ausência da falta. Essa fantasia fixa o sujeito num lugar
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O psicótico forclui a lei do pai, não realiza a metáfora paterna e, portanto, permanece na posição de ser falo, não conseguindo metaforizá-lo para que possa tê-lo. A foraclusão do Nome-do-Pai implica o não acesso do sujeito à lei simbólica.
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O perverso não reconhece a autoridade do Pai simbólico, recusa a castração e propõe-se a si mesmo como autoridade, como forma de negar sua própria falta. Não há para ele limite para seu gozo, por isso atua pela transgressão.
particular e faz com que a cada novo encontro com o outro encontre sempre a diferença entre o que é e o que deveria ser. Assim, a falta não deixa de se inscrever e a relação com o Outro passa a ser o campo onde se deve equacionar sua falta. A estrutura neurótica apresenta-se em duas formas distintas: a histérica e a obsessiva.
Na histérica a característica do desejo (portanto da falta) é a insatisfação. Propõe-se como o desejo do Outro, na expectativa de ser ressarcida da falta. Apresenta queixas e demandas para as quais nenhuma oferta de solução é satisfatória, de forma que, com isso, evidencia ao Outro sua falta e incompletude. Assim, encarna a própria falta. Está em haver, alguém lhe deve. Evidenciar isso é sua ‘recompensa’, seu gozo e a forma de não reconhecer a falta como falta, mas como injustiça que precisa ser reparada pelo Outro. É a melhor expressão do sujeito dividido ($). Está sempre à procura de um Senhor. Assim afirma MAURANO:
A feminilidade aparece para a histérica como um sacrifício que exige que ela se ofereça como dádiva ao desejo do Outro consagrado. Isso é a fonte da idéia de possessão por um desejo totalizante no apelo a um ‘a mais’ de gozo suficiente para abolir toda e qualquer fronteira em relação à alteridade. Um gozo que sobrepujasse o sexual, o seccionado, o partido.116
O que a histérica deseja é o restabelecimento de um gozo sem limites, como foi quando criança.
O obsessivo visa obstruir a falta dando garantias ao Outro, por isso prima pelo estabelecimento de relações determinadas por regras. Ele teme o desejo, tanto seu como o do Outro. Por isso cria condições para impossibilitá- lo. Ao invés de assumir seu desejo, o obsessivo o degrada como necessidades e dever. Esse temor pelo desejo se traduz numa rigidez travestida de escrúpulos, senso de moral. Através de sua excessiva racionalização, visa obturar a falta. Com isso, seu discurso mostra-se empobrecido. Fala de sua vida como se apresentasse um jornal televisivo, ao final
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MAURANO, Denise. No apelo ao objeto, a economia histérica da contemporaneidade. In: http://www.corpofreudiano.com.br/txt12.htm.
do qual afirma: “É isso!” Propondo não haver nada que pudesse ser questionado, fechando qualquer possibilidade de construção de outros sentidos, nessa imobilidade não dialetiza. Enquanto o histérico explicita a divisão no sujeito, o obsessivo a sutura, vigiando para que a falta e o desejo, não apareçam, perseguindo- os com veemência destrutiva. Por trás de seus escrúpulos e decência encobre seu ódio pelo Outro.
Lacan denominou a mãe de o Outro primordial117. Além da dependência que todo sujeito experimenta com ela, o obsessivo também experimentou uma ambivalência, no sentido de uma amabilidade e doçura que o colocam numa posição de preferência, por outro lado essa posiç ão junto à mãe, implica num excesso de investimento libidinal e erotização que produz culpa. A mãe apresenta-se como insatisfeita pelo pai, de forma que este é desqualificado, aparecendo como uma ‘sombra’. O Obsessivo vive num sentimento de culpa, vivida como dívida para com o pai e numa expectativa de ser protegido por ele desse excesso da mãe e, ainda, no desejo nostálgico de ser o Falo da mãe. Quer fazer valer a lei da mãe no âmbito do pai. Isso é, que ser reconhecido pelo que é, por antecipação, sem se situar no jogo simbólico das relações sociais onde precisa definir sua posição pelo que tem ou apresenta. Não suporta lidar com o jogo das possibilidades de diferentes sentidos. Quando se confronta com a falta, essa é vivida como uma privação imposta imerecidamente, devendo, por isso, a pessoa ser recompensada pelo grande Outro. A recompensa, geralmente, é prevista para um futuro, e implicando simultaneamente uma vingança dos supostos causadores dessa privação. A busca ou luta pelas condições que possib ilitem ocupar um lugar de satisfação e bem estar é vivida como imoral ou carregada de culpa. Por isso, esse é o fato mais relevante para caracterizar sua dimensão religiosa, precisa anular o desejo do Outro, pois não suporta saber que há falta no Outro. Este sempre deve ser completo, perfeito. Enquanto o sujeito histérico se vê sempre como objeto de gozo do Outro, o sujeito
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obsessivo faz o inverso: quer fazer do Outro seu objeto de gozo e, assim, matá- lo118. Apesar desses mecanismos de defesa frente à castração, o Nome-do-Pai não está foracluído, permanecendo suporte e referência da lei. Disso resulta a constante tensão na qual o neurótico vive. Dizer que enquanto a histérica não duvida de nada e não crê em ninguém, e que o obsessivo quanto mais crê mais duvida, já se tornou um bordão sobre uma das diferenças entre o sujeito histérico e o sujeito obsessivo119.