As características do pensamento criativo têm em Guilford (1950, 1975) seu principal referencial. Esse autor, citado por autores como Alencar (2002), Torre (2005) e Virgolim (2007), em seu Modelo de Inteligência, sugere pelo menos oito habilidades que estariam na base da criatividade: sensibilidade a problemas, fluência, flexibilidade, elaboração, complexidade, redefinição e avaliação.
A sensibilidade a problemas é a habilidade de ver problemas “onde” outros não vêem; a fluência é a abundância ou quantidade de idéias diferentes sobre o mesmo assunto; a flexibilidade é a capacidade de alterar o pensamento ou conceber diferentes tipos de respostas; a originalidade é a capacidade de produzir idéias incomuns; a elaboração é a quantidade de detalhes presentes em uma idéia; a complexidade refere-se ao número de idéias inter-relacionadas que o indivíduo pode manipular de uma só vez; a redefinição é a habilidade de efetuar mudanças na informação; e a avaliação é o processo de decisão, julgamento e seleção de uma ou mais idéias dentre um grupo maior de idéias. Essas habilidades referem-se ao pensamento divergente, ou seja, a capacidade de gerar novas respostas com encaminhamentos diferentes dos usuais. Este tipo de pensamento opõe-se ao pensamento convergente que se resume apenas em reproduzir um conteúdo com a possibilidade de uma única resposta correta.
O pensamento convergente faz-se muito presente no ensino, em particular da Matemática. Na resolução de problemas matemáticos, o professor ensina aos alunos uma maneira de abordar tais problemas e eles acabam por reproduzir o algoritmo que lhes foi ensinado, sem procurar outras formas de resolução. Isso pode ser um inibidor da criatividade dos estudantes, por isso é necessária uma postura em que o professor incentive-os a terem também pensamentos divergentes.
Um aspecto fundamental para o processo criativo é a quantidade de informações que o indivíduo possui sobre determinada área. Quanto maior o conhecimento, maior será a riqueza e, a qualidade de informações que poderá sugerir. Alencar (2002) ressalta a importância de dar condições ao indivíduo para expandir seu campo de conhecimento, as suas experiências, estimulando o seu desejo de conhecer.
Boden (1999, p. 102) destaca a importância das analogias no processo criativo, ela afirma que “a maioria dos movimentos criativos na ciência inclui o reconhecimento de uma nova analogia entre campos anteriormente não relacionados”. Para Tschimmel (2003), trata-se de um processo mental de associação de idéias, que permite estabelecer relações novas, incomuns entre objetos e situações. Para a autora, alguém que produz muitas analogias desenvolve uma grande capacidade em encontrar soluções inovadoras.
Outro fator importante a que pesquisadores têm dado bastante atenção, é a análise da personalidade de indivíduos que se destacaram por produções criativas em diversas áreas. Alencar (2002) aponta traços de personalidade de tais indivíduos: a autonomia (independência); a flexibilidade pessoal e a abertura à experiência, isso implica também tolerância à ambigüidade e habilidade de receber informações conflitantes; a autoconfiança, iniciativa e persistência; sensibilidade, espontaneidade e intuição; sensibilidade emocional e a bagagem de conhecimento, que também é fundamental.
A criatividade exige tanto sensibilidade quanto independência. Em nossa cultura, sensibilidade é definida como uma virtude feminina, enquanto independência é um valor masculino. Torrance destaca que em seus estudos são observados exemplos de crianças que sacrificam sua criatividade a fim de manter sua “masculinidade” ou “feminilidade” (TORRANCE, 1976).
Um aspecto determinante para o processo criativo é a forma como o indivíduo enfrenta situações. Exemplo disso é quando um indivíduo se dispõe a estar diante de situações novas e imprevisíveis e também quando existe a disposição de enfrentar obstáculos e superá-los. Os testes, realizados por Torrance (1976), voltaram-se para isso. Ele observou em estudantes criativos, uma pessoa que encontra prazer em vencer obstáculos. Observou ainda que eles tinham necessidade de provar seu valor pessoal e apresentar suas idéias. Outra característica marcante na vida desses indivíduos notáveis é sua capacidade de enfrentar fracassos e frustrações.
Dessa forma, é importante observar os traços de personalidade de tal forma que o indivíduo faça pleno uso de suas habilidades criativas. Alencar (2002), valendo-se de Von Oech (1986), apresenta uma descrição de tais traços. Von Oech sugere o aprimoramento de habilidades distintas relativas a quatro papéis:
Explorador de idéias - Muitas vezes, diante de um problema a resposta não aparece de imediato. Um bom explorador de idéias busca por novos fatos e informações, adquirindo e utilizando a bagagem de conhecimentos em busca de novas respostas. Deve aventurar-se por vários caminhos não trilhados e desconhecidos, prestando atenção em detalhes que possam conter pistas para chegar à solução.
Artista de idéias - Em várias situações, para encontrar a solução, é necessária a transformação de informações disponíveis, fazendo adaptações e alterações, acrescentando o que estiver faltando, eliminado o que estiver sobrando.
Juiz de idéias - Esse papel deve ser desempenhado numa etapa mais avançada do processo de buscar soluções criativas. É a etapa de avaliar e julgar as múltiplas idéias já produzidas, antes de decidir pela que se considera melhor.
Guerreiro - Muitas são as barreiras que dificultam o desenvolvimento da criatividade tendo em vista que a mudança e a inovação são vistas como ameaçadoras. Tem sido regra em muitos contextos, seja na escola, no lar ou outros lugares, a rejeição às novas idéias. Portanto, para que uma idéia não “morra” é necessário lutar por ela e não se deixar vencer pelos obstáculos, que são refletidos com freqüência nos comentários que a sociedade faz para matar uma idéia.
Apresentadas nesta seção as características da criatividade, passaremos agora a tratar dos fatores que podem inibir o seu desenvolvimento.