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Changes and Cautions in the Lyric Release

Dans le document LISP RELEASE NOTES (Page 23-42)

Abaixo é apresentada a imagem da colagem realizada por Tereza, representando sua trajetória na universidade:

Diante de todos esses desafios vivenciados, Tereza considera que conseguiu superá-los em decorrência de seu entendimento sobre o que é opressão, o que ela causa, como lidar com ela e como se resolver a partir dela. Infere-se que, durante sua narrativa, no período inicial de sua trajetória universitária, predominam as posições “Eu-não pertencente” e “Eu-incapaz”. A partir das vicissitudes enfrentadas por ela no período anterior e inicial ao ingresso à universidade, ela se depara com um novo contexto, com suas regras e funcionamento próprios. Diante de tais dificuldades iniciais, relacionadas às dimensões econômicas (dificuldade para se manter no curso), psicológicas e sociais (relações interpessoais difíceis na casa do tio, dinâmica de uma cidade grande, entendimento das regras da universidade) e raciais (não-posicionada no lugar de intelectualidade, por exemplo), Tereza pensa na possibilidade de desistir do curso, ainda que este pareça sua chance de romper com o lugar “hereditário” de subalternidade que ela e sua família foram colocadas. Neste momento de sua trajetória, ainda existe uma ausência de conscientização sobre sua experiência identitária racial, como afirmado pela própria participante quando relatou sobre sua experiência no cursinho pré-vestibular. É importante salientar que, no Brasil, essa alienação (Fanon, 2008) faz parte da ideologia corrente, de caráter colonialista, isto é, ela favorece que o negro entenda que só pode ocupar determinados lugares e não busque outras possibilidades. Assim, o mito da democracia racial (Munanga, 1999) está a favor de processos racistas e discriminatórios.

A partir do quarto semestre acadêmico, através de processos de ruptura-transição, duas novas posições surgem para Tereza: “Eu-pertencente” e “Eu-capaz”. A estudante elenca alguns fatores relacionados ao surgimento destas posições. Um deles é a convivência no coletivo de estudantes negros, no qual passa a discutir temas relacionados a essa vivência, a ampliar seus conhecimentos e capacidade crítica sobre as relações raciais no Brasil, além de compartilhar suas experiências com outros colegas, percebendo que o racismo “não está em sua cabeça”, mas atinge efetivamente aqueles colocados na posição de objeto. Em suas palavras, “Tudo se tornou

nítido”. De forma semelhante, Tereza relatou sobre sua dificuldade inicial com as exposições

orais e como foi desenvolvendo uma conscientização de que esta não refletia sua suposta incapacidade, mas o lugar de não-intelectualidade que era constantemente colocada por ser uma mulher negra. Ao se dar conta disso, ela passa a agir de forma oposta, se colocando numa posição intelectual, apresentando trabalhos e desenvolvendo uma nova competência acadêmica. Estes são fatores que indicam sua posição de sentir-se pertencente à instituição, de colocar-se em um lugar de capacidade intelectual e evidenciam o processo de construção de uma perspectiva racializada e decolonial vivenciado por Tereza. Deste modo, percebe-se como o desenvolvimento de consciência sobre sua experiência identitária racial pode facilitar e promover processos de adaptação e reconstrução de significados por parte de estudantes negros no contexto universitário. Os processos de conscientização sobre a experiência identitária racial, ao possibilitar a assunção de uma posição decolonial, contribuem para que o espaço universitário se constitua efetivamente como um local de desenvolvimento humano para estudantes negros.

Outros elementos trazidos por Tereza relacionados ao surgimento destas novas posições foram: a) a relação com os professores, concretizada tanto na apropriação e segurança para criticar os docentes que adotam metodologias ultrapassadas, quanto através do vínculo estabelecido com outros sendo, inclusive, “visada” por alguns. Tal cenário denota que a estudante está vinculada a este contexto. Destacou ainda a representatividade, isto é, a existência de uma professora negra como fator importante para se sentir pertencida, uma vez que torna possível vislumbrar uma nutricionista negra, isto é, a estudante pode ver-se como possibilidade real; b) a mudança para a residência universitária, desenvolvendo estratégias e recursos para lidar com os desafios desta, estando nela há 5 anos e; c) a situação vivida com um colega branco, na qual como resultado, este abandonou a instituição e ela ficou nesta, sentindo-

se mais fortalecida por propiciar a problematização do lugar do negro na realidade brasileira, adotando, inclusive, uma postura didática.

Diante dos relatos de Tereza, vislumbra-se uma tensão estabelecida entre as posições “Eu-não pertencente” e “Eu-pertencente” e “Eu-incapaz” e “Eu-capaz”. Embora a narrativa de Tereza indique que a posição “Eu-pertencente” se tornou dominante em sua trajetória, em um contexto marcado pelo racismo, Tereza precisa negociar diariamente com a posição “Eu-não pertencente”, uma vez que a universidade (e o contexto social mais amplo) tende sempre a colocá-la na posição de subalternidade, inferioridade e não-intelectualidade. Assim, Tereza desenvolveu a posição “Eu-pertencente”, que foi fundamental para que a permitisse permanecer na universidade, porém, esta posição precisa ser constantemente negociada com a ideologia do mundo social, de caráter colonialista, que acredita que o sujeito negro somente pode ocupar certas posições. O relato de Tereza sobre sua viagem para Cuba fornece um exemplo desta tensão que nunca cessa para o estudante universitário negro (e, acreditamos, para o indivíduo negro no contexto mais amplo). Mesmo na posição “Eu-pertencente” e “Eu-capaz”, Tereza tinha de lidar com as expectativas sociais contrárias à sua posição de intelectualidade. Os vetores sociais, quando se trata de racismo, tendem sempre a colocar o sujeito negro na posição “Eu-não pertencente” e “Eu-incapaz, porque isto interessa na manutenção dos privilégios sociais que a branquitude possui.

Deste modo, têm-se aqui uma tensegridade no sentido de que é uma tensão constante que, conforme análise do caso Tereza, parece ser necessária que seja mantida viva pelo estudante negro, uma vez que promove seu desenvolvimento e seu permanecer na universidade. Não aceitar a tensão pode significar sucumbir ao apelo racista, que não suporta ou se incomoda quando negros ocupam posições tradicionalmente ocupadas por brancos. Neste caso, a tensão é vida para a pessoa negra, pois, significa movimento, despertar e desenvolvimento. Estudantes

negros, portanto, precisam saber viver com a tensão, dialogando com o racismo existente na estrutura universitária e construindo seus próprios caminhos desenvolvimentais.

O caso de Tereza nos apresenta uma trajetória num crescente de mobilizações subjetivas dialógicas diante das tensões inerentes à convivência nos corredores universitários racistas. O fortalecimento de sua posição “Eu-capaz”, sua rede de pares racializados e seu contato mais próximo com professores elogiosos e incentivadores demonstram uma conformação de estado dialógico decolonial, diante do qual Tereza consegue, inclusive expor seu colega que havia lhe enviado uma mensagem racista. A reivindicação de si como autora da saída do estudante mencionado, expressa no trecho “Botei ele para fora! Adoro!”, sinaliza a atuação afetiva de uma revanche contra-hegemônica e de reafirmação do poder de seu lugar racializado.

7.2 Flor de Mandacaru: “hoje eu penso que eu sou pessoa muito diferente do que eu era quando

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