Ao colocar o estímulo ao evento no centro do projeto, este tra- balho busca, por meio de um exercício crítico, um olhar mais atento à dinâmica nem sempre previsível das atividades humanas, conside- rando que essa imprevisibilidade também constrói o espaço.
Diferente do caminho comum que coloca o programa de ne- cessidades como definidor do espaço, neste projeto, o programa foi manipulado para construir uma lógica espacial favorável ao evento.
A proposta se baseia na composição de um edifício de espa- ços programados e não programados organizados de forma a esti- mular o movimento dos usuários. A ideia é que os espaços progra- mados, que abrigam usos direcionados - café, coworking, galeria, 64
19. Diagrama de projeto das “caixas dentro da caixa”. Fonte: Acervo próprio,
etc - funcionem como polos atrativos de pessoas. Para isso, esses programas foram encaixados em volumes e dispersos pelo edifício, criando espaços vazios entre eles. Essas lacunas entre as “caixas” programadas constituem um sistema de forças fundamental para o projeto.
Esses vazios não possuem um programa definido e se posi- cionam como entre-espaços do edifício, por se configurarem como espaços intermediários, indefinidos, abertos às significações entre espaços definidos. Nesses espaços, o programa não é determinado em projeto, porque é mutável e deve ser sempre solicitado e confor- mado pelas ações dos usuários, os eventos, acontecimentos inespe- rados e transitórios.
Para desenvolver a proposta, foi criado um contraste entre os espaços programados e não programados. Os programados foram totalmente vedados, enquanto os não programados foram configura- dos como espaços abertos no edifício. A combinação das caracterís-
ticas desses diferentes ambientes conectados por escadas e circu- lações, unidos por uma cobertura comum e envoltos por uma malha metálica aproxima a proposta da ideia das “caixas dentro da caixa”, do projeto do Le Fresnoy.
Essa ideia das caixas dentro da caixa foi a escolha para evi- denciar a estratégia de manipulação do programa, por meio da mar- cação dos volumes e vazios no edifício. Esse foi o caminho adotado para trabalhar com o conceito de movimento que conduz o projeto. Para trabalhar com o estímulo ao evento no projeto, a conceituação de evento, por ser colocada no espaço da experiência, foge das possibilidades de manipulação em projeto. Então, a ideia de movi- mento, por ser mais previsível e operável, foi colocada como centro do projeto e meio para o estímulo de eventos.
É importante ressaltar que a ideia de movimento que interessa a esse projeto é a tensão da intromissão do corpo humano no espa- ço, capaz de estimular múltiplas interpretações e, por consequência, relações, atividades não previstas, eventos. Considerar eventos na arquitetura é considerar que os corpos não somente se movem pelo espaço, mas produzem espaço ao se moverem. O movimento é tra- balhado aqui no sentido de colocar o corpo como sujeito, e não com intenção de sugerir movimento da forma ou das partes do edifício.
Nesse sentido, foi adotada a estratégia de construir um trajeto de associação de elementos de circulação e espaços não progra- mados, para enfatizar o movimento no espaço. O caminho é pou- co convencional por estimular o usuário por circulações e escadas distribuídas pelo edifício. O trajeto foi pensado estrategicamente ao colocar os espaços não programados entre os programados, fazen- do o usuário ter que percorrer esses entre-espaços para alcançar o ambiente programado desejado, que aqui fazem o papel de condu- tores, estimulando, assim, o movimento das pessoas pelo edifício. Os espaços intermediários ganham, nesse sentido, a dimensão do espaço do movimento, no qual a qualidade de interatividade sugere o surgimento de eventos.
Sendo o movimento fundamental para o estímulo de eventos, as circulações e conexões foram colocadas em evidência no proje- to.
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20. Fachada do edifício. Fonte: acervo próprio, 2019.
Espaços de circulação foram criados ao redor dos progra- mas, recuando os volumes “cheios” da fachada para que ficassem evidentes. A ideia foi criar espaços abertos que fossem visíveis por quem estivesse dentro do edifício, através do átrio, e por quem esti- vesse na rua, pelas fachadas. O movimento, então, estaria por toda parte, podendo ser visto por todos os pontos do edifício, declarando ser aquele, o espaço do movimento.
As circulações horizontais e verticais conectam os espaços não programados compondo um trajeto pouco convencional pelo edifício. As escadas foram pensadas para serem desconectadas en- tre si e distribuídas em áreas distintas dos pavimentos. A intenção é que o usuário precise percorrer mais partes do edifício para alcançar os ambientes do que seria necessário se as escadas fossem setori- 68
circulações
zadas. Essa foi mais uma estratégia para estimular o movimento e, por subsequência, o acontecimento de eventos.
Para destacar e conduzir o usuário do pavimento térreo ao quinto, as circulações e os espaços não programados foram sina- lizados com piso em cimento queimado pigmentado de vermelho e guarda corpos na mesma tonalidade. Essa é também uma forma de manifestar a importância desses espaços para essa arquitetura, sen- do espaços de apropriação.
Nesse esforço, foram pensadas formas de, sem definir, poten- cializar a apropriação dos espaços não programados. Para isso, uma malha metálica foi fixada no forro, permitindo o apoio de banners, quadros, luminárias, divisórias ou outras apropriações. Além disso, foram projetados módulos cúbicos em marcenaria (0,60 m x 0,60 m) manuseáveis e que permitissem usos múltiplos, sendo possível sen- tar ou usar como palco para apresentações, por exemplo.
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22. Diagrama de circulação do edifício. Fonte: Acervo próprio, 2019.
21. Diagrama da circula- ção do edifício. Fonte:
23. Diagrama de corte do edifício. Fonte: Acervo próprio, 2019.