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Uma das designações proféticas mais interessantes aplicadas a Jesus foi a de profeta dos fins dos tempos. Tanto os apóstolos quanto as primeiras comunidades cristãs tiveram a percepção de que Jesus era mais que um simples profeta. Há evidências indicativas de que os apóstolos e a igreja viram Jesus como o esperado profeta escatológico semelhante a Moisés (At 3,22-23; 7,37; Jo 6,14; 7,40).

A expectativa da vinda de um profeta escatológico tem sua origem no judaísmo pós-exílico. Scardelai (1998, p. 91) afirma que esta “expectativa do surgimento de uma figura profética que precederia o fim dos tempos” estava arraigada na mente das populações palestinenses do I século. Esta crença se desenvolveu, em parte, pela consciência da cessação da voz profética no período posterior a Malaquias (ENSLIN, 1961, p. 62-65). Uma vez que o antigo dom profético se havia extinguido, a profecia foi sendo esperada como um fenômeno escatológico que se manifestaria novamente somente no final dos tempos (CULLMANN, 2001, p. 33). Este profeta escatológico seria o cumprimento de toda a profecia anterior, a encarnação definitiva da verdadeira profecia, pondo fim a toda falsa profecia (CULLMANN, 2001, p. 34,42). Neste sentido, ele seria a encarnação do profeta normativo, Moisés, “o profeta por antonomásia” (SCARDELAI, 1998, p. 95). Nele se combinava a figura do profeta e do messias libertador do povo de Israel (SCARDELAI, 1998, p. 97).

A passagem de Dt 18,15-19 foi a base veterotestamentária em que se fundamentou a crença na vinda deste profeta escatológico (SCARDELAI, 1998, p. 99). Embora, originalmente esta passagem se refira à origem da instituição profética como um todo, posteriormente se tornou o texto chave da crença na manifestação de um profeta específico no final dos tempos (CROATTO, 2003, p. 164,165). Este profeta escatológico possuiria características semelhantes ao próprio Moisés e realizaria obras semelhantes às realizadas por ele.30 Era neste sentido, que a

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O paralelo que o povo fez entre a multiplicação dos pães realizada por Jesus e a concessão do maná no deserto por meio de Moisés, provavelmente explica a razão de o povo o identificar como o

religião dos samaritanos aguardava a vinda do Ta’eb, o Moisés ressuscitado, que viria para restaurar todas as coisas (CULLMANN, 2001, p. 38; DODD, 2003, p. 318).

Cullmann (2001, p. 59) acredita que a expressão ho erchomenos – o que havia de vir –, presente tanto em Jo 6,14 quanto na pergunta de João Batista em Mt 11,3, constituía-se num termo técnico. A expressão seria designativa da expectativa do surgimento deste profeta por ocasião da consumação de todas as coisas. Isto demonstra que tal expectativa deveria ser bem comum e bastante difundida na época de Jesus (SCARDELAI, 1998, p. 97,306).

A aplicação a Jesus da designação de profeta escatológico do final dos tempos remonta, provavelmente, ao próprio Jesus (ENSLIN, 1961, p. 66). Meier (2004, p. 344) afirma que Jesus assumiu, de modo consciente, “o papel do profeta Elias, cuja volta era esperada para restaurar Israel e prepará-lo para a vinda de seu Deus”. Assim, da acordo com várias passagens evangélicas, Jesus se percebeu, não apenas como “mais um profeta”, mas como o último e definitivo profeta. É neste sentido que se considera maior do que Jonas (Mt 12,41 e paral.), maior do que João (Mt 11,11 e paral.)31 e maior até do que Moisés (Mt 5,21-48; Mc 10,5 e paral.). Como “mensageiro escatológico de Deus” ele veio completar e preencher (plērōsai) tudo que ainda faltava na lei e nos profetas.32 Através dele, Deus fala pela última e definitiva vez. Suas palavras são, portanto, definitivas e eternas (Mc 13,31 e paral.).

Deste modo, é que também as primeiras comunidades cristãs viram em Jesus o cumprimento desta expectativa judaica. Assim, At 3,22 e 7,37 – respectivamente, um discurso apostólico e outro certamente de origem apostólica – atribuem a Jesus o cumprimento da promessa do grande profeta anunciado por Moisés em Dt 18,15.

Especialmente no Evangelho de Mateus, há um paralelo marcante entre Jesus e Moisés, o profeta normativo.33 Como Moisés, Jesus precisou fugir para o Egito por causa da fúria de um rei (2,1-23); como Moisés, Jesus foi levado ao deserto, onde foi preparado para liderar o povo (4,1-11); como o segundo Moisés, Jesus proferiu os fundamentos de sua lei de um monte (5,1ss); como o segundo Moisés, os

profeta apocalíptico, em João 6,14. À luz deste fato se pode também compreender a polêmica de Jesus com os líderes religiosos acerca do “pão que desce do céu”, em João 6,30-35.

31 Cullmann (2001, p. 54) interpreta a expressão “aquele que é o menor”, como se referindo a Jesus, na qualidade de discípulo de João.

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É assim que J. Jeremias (2004, p. 142-145) interpreta o termo plērōsai em Mt 5,17. 33

Motyer (1991, p. 1318) afirma que “a profecia do Antigo Testamento recebeu sua forma normativa na vida e na pessoa de Moisés, que passou a constituir padrão de comparação para todos os profetas futuros.”

ensinos de Jesus são formulados em cinco volumes34; e, finalmente, como o segundo Moisés, Jesus também subiu a um monte e transfigurou-se diante de seus discípulos (17,1-8).

Como já foi notado, o evento da transfiguração (Mt 17,1-9 e paral.) estabelece uma relação conceitual e tipológica entre Jesus e Moisés. Marcos e Mateus descrevem um “monte alto”, fazendo referência ao “monte de Deus (Sinai), onde Moisés subiu com Arão, Nadabe e Abiú” (RICHTER REIMER, 2012a, p. 152). Além disso, a presença da nuvem, a voz, a resplandecência do rosto de Jesus e o temor dos discípulos ligam mui proximamente este evento com a entrega da lei a Moisés (BOCK, 2006, p. 222). Além disso, a voz ouvida por ocasião da transfiguração – “a ele ouvi” – estabelece uma conexão direta entre Jesus e o profeta “semelhante a Moisés” anunciado em Dt 18,15.

Mesmo a opinião popular que identificava Jesus como um dos grandes profetas ressuscitado, denota o entendimento de que Jesus era o profeta escatológico (Mc 6,14). De acordo com a crença popular contemporânea a Jesus, era no raiar da Era Messiânica que um dos grandes profetas, como Elias ou o próprio Moisés retornariam para preceder a vinda de Yahweh (SCARDELAI, 1998, p. 93,94). Foi provavelmente neste sentido que a multidão aclamou Jesus em sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt 21,11).

Todavia, mesmo que se reconheça que este profeta aguardado para o final dos tempos possua feições próprias, ele ainda pertence à mesma corrente profética da qual fizeram parte os grandes profetas veterotestamentários. Como aqueles, seu ministério é inspirado no ministério do grande profeta Moisés. Neste sentido, de acordo com uma opinião, especialmente corrente entre os judeus-cristãos, Jesus foi a encarnação perfeita e final do verdadeiro espírito profético (CULLMANN, 2001, p. 63). Os demais profetas que surgiram antes dele foram apenas antecipações tipológicas da manifestação deste profeta final. Como afirma Cullmann (2001, p. 62), a verdade anunciada por todos os profetas, recebe em Jesus a sua consumação e perfeição.

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Mateus organizou seu livro em cinco partes, imitando, provavelmente, a forma como o Pentateuco está arranjado (GUNDRY, 2007, p. 94). Entretanto, Carson, Moo e Morris (1997, p. 69), bem como Hale (2001, p. 92) não concordam que Mateus tenha tido a intenção de apresentar Jesus como o segundo Moisés.