• Aucun résultat trouvé

3-36. 8155 PROGRAMMABLE PERIPHERAL INTERFACE

Dans le document iSBC 544 (Page 52-56)

"Estava perfeita no seu cargo de sibila, pois conhecia a alma humana de dentro para fora, o que é talvez prever sempre nela o imprevisível, sem, porém, chegar a compreendê-la."

(Agustina Bessa Luís, A Sibila) VIII. 1. Conceptualização.

Tal como no capítulo precedente, convém esclarecermos previamente os termos operatórios com que lidamos. Só então poderemos responder de forma cabal à questão colocada como base deste último capítulo.

Muito resumidamente, o sobrenatural será tudo aquilo que transcende o natural. Embora o saibamos identificar, este resiste a uma cabal definição. Por isso é tradicional- mente classificado como "categoria", isto é, como um conceito lógico irredutível, porque não sofreria contestação e seria um dado universal. Mas o sobrenatural é um dado cultural que varia no tempo, aspecto de nosso particular interesse. A Idade Média acredita profundamente na existência de sereias, seres sobrenaturais para a época. Hoje, elas pertencem ao conjunto de crenças mítico-supersticiosas.

Atribuir um estatuto supersticioso a uma determinada crença implica já distancia- mento. A superstição, fenómeno perene e universal na história das mentalidades, é defini- do por Éloïse Mozzani1 como "mode de pensée et d' appréhension, instinctif, irrationnel,

du monde et de ses mystères, qui nie le hasard et la coïncidence et suppose 1' existence d' une force magique régissant la Nature". Trata-se de um domínio vasto e misterioso que se estende entre a religião e a ciência e abrange crenças e ritos. Sendo a crença e a tentativa de influência sobre a vida terrestre e o destino das almas os denominadores comuns à religião e à superstição, estas são realidades que não se confundem, embora na prática, por vezes, as fronteiras sejam fluidas: enquanto a religião eleva o homem para o transcendente, a superstição remete frequentemente para forças ctonicas .

As diferentes relações que se podem estabelecer entre um dado narrativo ficcional e o sobrenatural foram estudadas de forma sistemática por Todorov. Num ensaio dedicado à literatura fantástica3, Todorov diferencia o fantástico em relação a dois outros géneros

que lhe são contíguos, mas dissimilares: o maravilhoso e o estranho. E comum aos três

1 Cf. Mozzani, Éloïse, "Préface", in Le Livre des Superstitions. Mythes, Croyances et Légendes, Paris,

Robert Laffont, 3e réimpression, 1997, p. VII (Ted.: 1995).

2 Cf. Mozzani, Éloïse, "Préface", Idem, pp. VII-XXIII.

3 Cf. Todorov, Tzvetan, Introduction à la Littérature Fantastique, Paris, Seuil, Collection Points, Imp. 1976

géneros o facto de pertencerem à ficção (à narrativa) e não à poesia, a existência de pelo menos um elemento sobrenatural ou que aparenta ser dessa categoria e a exigência, por parte do leitor, de uma leitura literal desse mesmo elemento, rejeitando-se qualquer inter- pretação alegórica ou poética. O maravilhoso é a aceitação do sobrenatural no mundo do real ficcionado na narrativa. Quando o elemento sobrenatural é rejeitado enquanto tal e explicado de acordo com leis racionais estamos perante outro género: o estranho. O fan- tástico é a permanente hesitação e consequente tensão sentida pela personagem da narrati- va e pelo leitor em aceitar ou uma explicação natural mas inverosímil para os aconteci- mentos evocados, que assim seriam pretensamente sobrenaturais, ou uma explicação so- brenatural mas mais verosímil, de acordo com a narrativa, para esses mesmos eventos. Numa palavra, o fantástico é o modo da ambiguidade, que o autor desfaz no desenlace da obra ou não. Note-se, nesta breve explicitação, que o fantástico não se opõe ao verosímil. Este último, como aliás já tivemos aqui ocasião de ver, é uma categoria que concerne não a "verdade" ou "falsidade" da narrativa (categorias inadequadas em literatura), mas signi- fica tão somente uma coerência interna da obra4. Se uma determinada obra está construída

de forma a que seja mais plausível, a que tenha maior probabilidade interna, a aceitação do sobrenatural como explicação de um facto estranho, mas que essa explicação enfrente, por outro lado, resistências por parte da personagem ou do leitor, então o fantástico coabi- ta de forma perfeitamente pacífica com a verosimilhança.

VIII.2. O feminino como elemento e intérprete do sobrenatural.

Feitas as explicitações, podemos já antecipar que A Esm. Part, não é categorizável dentro do género fantástico, nem do maravilhoso ou do estranho. Não obstante, o roman- ce comporta vários elementos sobrenaturais, estando estes privilegiadamente colocados na órbita do universo feminino. Que elementos são esses? E porquê a concessão de tal prerrogativa? Por outro lado, o tratamento desses elementos sobrenaturais é vário, de for- ma que o leitor ora está perante uma passagem fantástica (no sentido estrito do termo, tal como aqui o definimos), ora perante o maravilhoso ou ainda perante o estranho. Que contributo dá à obra cada um desses elementos, com o seu tratamento específico? Tentaremos responder de forma cabal a estas questões.

4 Cf. Todorov, Tzvetan, Idem, pp. 51 e 87-88; Todorov, Tzvetan e Ducrot, Oswald (dir. de), "Le Discours

de la Fiction", in Op. Cit., pp. 333-337 e Barthes, Roland, "U Effet de Réel", in Essais Critiques IV: Le

Em alguns casos, o elemento sobrenatural aparece fortemente conectado ao uni- verso feminino, sem se enquadrar, contudo, em qualquer dos três géneros anteriormente explicitados. Como? Simplesmente porque não é susceptível de qualquer leitura literal que o permita integrar no universo ficcional do "realmente" ocorrido. Concretizemos. A Morte surge personificada em figura de mulher, liderando uma dança macabra que acaba sempre por vencer o(a) parceiro(a) de baile. Ela é a "Dona Morte", a "branca dona dos olhos encovados chocalhando os ossos"5. Atente-se na maiusculação, que torna o vocábu-

lo um nome próprio. Quando a Morte avança, paciente, no encalço de D. Duarte ou irrom- pe inesperadamente nos festejos das bodas dos Príncipes Isabel e Afonso para anunciar o falecimento da Princesa Santa Joana, os elos de ligação ao universo feminino são reforça- dos pela associação ou conjugação da dança macabra ao efeito das ondas do mar e à luz da lua, símbolos poderosos e praticamente universais do feminino6. Contudo, estas passa-

gens narrativas não estão construídas de forma a serem interpretadas no sentido literal. As frases citadas requerem uma leitura poética, têm um sentido figurado, e nem D. Duarte nem D. João II encaram , no universo ficcional do romance, a Morte materializada à sua frente. A personificação da Morte constitui mais um meio retórico de que se serve o autor para reforçar a inanidade do poder face a esta "personagem feminina".

F. Campos aposta de modo diverso em duas personagens femininas, a menina Olga e a velha fiandeira da Fonte Coberta , embora também surjam ligadas à morte. A opção narrativa é diversa do caso anteriormente apresentado visto que as suas actuações estão construídas de forma a serem interpretadas no sentido literal e não alegórico. Estas personagens aparecem, sob uma auréola de mistério, respectivamente ao Infante D. Pedro e a D. João II, pouco tempo antes do seu falecimento7. O mistério que as envolve tem um

propósito narrativo claro: elas indiciam a morte dos seus interlocutores.

Olga, personagem não-referencial, prolonga, no relato de tia Filipa, os indícios funestos lançados pela angústia com que D. Isabel de Urgel (e sobretudo ela: outra perso- nagem feminina, repare-se) se despede do esposo, quando este parte para a guerra e para a

morte, concretizadas na Batalha de Alfarrobeira8. Porém, a menina Olga é mais do que

um simples prolongamento de tais indícios, que preparam os sobrinhos de D. Filipa (e o leitor) para a morte do Infante D. Pedro. O relato acaba por perpetuar em todos uma

5 Cf. Campos, F., A Es/n. Part., pp. 69 e 615.

6 Cf. Campos, F., Ibidem e Chevalier, Jean et Gheerbrant, Alain, "Lune", "Ondines" e "Vagues", in Op. Cit.,

pp. 589-595, 704 e 990 respectivamente.

7 Cf. Campos, F., A Esm. Part., pp. 153-154, 642 e 669.

8 Cf. Campos, F., Idem, pp. 152-161.

Dans le document iSBC 544 (Page 52-56)

Documents relatifs