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3-3. INTELLIGENT SLAVE PROGRAMMING

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A Esm. Part, apresenta personagens ou entidades femininas cuja ligação ao uni- verso cultural, ainda que efectiva, é de tipo claramente passivo e indirecto.

O narrador Resende, num momento de paralepse, penetra no pensamento do então Príncipe João, que naquele momento recorda uma "cantiga antiga"1 , onde um sujeito

13 Cf. Campos, F., A Esm. Part., p. 201 e Oliveira, Manuel Alves de, "D. Filipa", in Op. Cit., p. 221.

14 Cf. Campos, F., A Esm. Part., pp. 450, 502, 544-545 e 576-577.

15 Cf. Campos, F., Idem, p. 545. O sublinhado é nosso.

16 Cf. Campos, F., Idem, p. 360. A atribuição da autoria desta cantiga de amigo está envolta em alguma

polémica. Defendem alguns (v.g. Carolina Michaëlis e Elsa Gonçalves) que foi composta por D. Sancho I, outros (v.g. Américo Lindeza Diogo), que por D. Alfonso X de Leão e Castela. Optamos, no entanto, pela primeira tese por duas ordens de razões: primeiro, a disposição desta cantiga, tal como foi adoptada por F. Campos em A Esm. Part., é a variante do ms. do Cancioneiro da Ajuda reproduzida por D. Carolina Michaëlis, estudiosa que atribuiu a autoria desta cantiga a D. Sancho I; segundo, inclinamo-nos para esta mesma tese, pela rubrica atributiva presente no ms. ("rolo das cantigas que fez o mui nobre rei Dom Sancho de Portugal e diz ai eu coitada como vivo") e pelo facto de D. Sancho I ter sido o fundador da Guarda, topónimo que aparece na cantiga, sendo nessa cidade que se localiza o tardar do amigo. (Cf. A Lírica

Galego-Portuguesa, Apresentação crítica, selecção, notas e sugestões para análise literária de Elsa Gonçalves. Critérios de transcrição, nota linguística e glossário de Maria Ana Ramos, Lisboa, Editorial

Comunicação, Colecção Textos Universitários, 4a ed., 1992 (Ia ed.: 1983); Oliveira, Corrêa de e Machado,

poético feminino, a amiga, anseia pela chegada do amigo que se demora na Guarda. O narrador faz então a ligação entre este sujeito poético e a Princesa D. Leonor, que no universo diegético do romance aguarda efectivamente o marido. Note-se que neste caso concreto é omitido pelo narrador a identidade da musa inspiradora desta cantiga. Apenas podemos concluir da apropriação por parte do Rei-trovador de um universo mental atribu- ído à mulher e, posteriormente, de uma ligação de tipo identificativo entre duas entidades femininas operada pelo narrador desta passagem. Do mesmo modo, os camonianos olhos verdes que figuram na copla transcrita no relato de Resende surgem associados, no pensa-

mento do Príncipe Perfeito, a Ana de Mendonça, por quem se apaixonara17. Assim, não

podemos atribuir nestes casos qualquer papel culturalmente activo a estas personagens femininas, ainda que estas surjam indirecta e passivamente ligadas ao universo cultural.

Outras personagens femininas funcionam, simultaneamente, como musas inspi- radoras e destinatárias mais ou menos passivas de expressões culturais, dinamizando, assim, de forma indirecta, o universo cultural do seu tempo, sem, contudo, poderem ser consideradas agentes de cultura, precisamente pelo papel passivo que detêm neste pro- cesso. Referimo-nos às damas da corte, que, em virtude da cultura palaciana então emergente, são alvo dos galanteios de fidalgos sob a forma de trovas, cantigas ou peque- nas letras (motes), que calam mais ou menos fundo nos corações das destinatárias. Ex- pressões líricas que têm muito de jogo, muito de auto-promoção social e de auto-prestí- gio por parte do trovador e pouco de verdadeiro sentimento, mas às quais não podemos negar o seu valor cultural.

Assim, Henrique Correia galanteava as damas da corte em versos cujo traslado Garcia de Resende afirma ir juntar às trovas que ele próprio anda coligindo (e que nós leitores identificamos como o futuro Cancioneiro Geral de Resende) . Igualmente às damas da corte são dirigidos galanteios estilizados, de alguma ligeireza e frivolidade có- micas, por Fernão da Silveira e que provocam o sorriso de todos, entre os quais Resende destaca o da Rainha D. Leonor19. Então, "João de Meneses, muito conhecido e aplaudido

nestas lides, respondeu pelas damas"20 em versos cómicos. Repare-se que as damas não

Américo A. Lindeza (Introd., Antologia e Notas de), Lírica Galego-Portuguesa, Braga - Coimbra, Editora Angelus Novus, 1998, pp. XIII e 173-185.

17 Cf. Campos, F., A Esm. Part., p. 360. O dístico citado no relato constitui o refrão da cantiga de amor

Amigos, nom poss' eu negar, de Joam Garcia de Guilhade e figura nos três cancioneiros da lírica trovado-

resca galaico-portuguesa (CA 229; CBN419 e CV30).

18 Cf. Campos, F., Idem, p. 19.

19 Cf. Campos, F., Idem, pp. 517-518 e Resende, Garcia de, Cancioneiro Geral, Vol. II, pp. 160-165.

tomam a iniciativa de darem elas próprias uma resposta aos versos jocosos de Fernão da Silveira. Tem de ser uma personagem masculina a fazê-lo em nome das damas. Isto vota- -as a um papel de inegável passividade. Pontos de vista divergentes são apresentados ainda a propósito da relação entre o universo feminino e a cantiga de escárnio e maldizer, sempre mais brejeira e chocarreira: se Luís Azevedo considera que entre as damas se de- vem omitir os vitupérios e o grosseiro, sugerindo que essa é uma preocupação efectiva entre os trovadores21, já tia Filipa, embora comente que tais palavras eram "ouvidas aos

cavaleiros sem a presença feminina...", também acrescenta que as mesmas eram decla- radas, sem censura, "diante das damas nos serões reais"22. Curiosamente, tia Filipa, lem-

brando-se dos seus tempos de meninice, não compreende porque a aia se escusava a repetir tais rudezas de linguagem à sua beira, uma vez que as damas dos serões as ouviam directamente do trovador, recusando-se dessa forma a assumir que a omissão se devia não a uma barreira de género, mas a uma barreira de faixa etária. Ou seja, não se reconhecia a si própria como uma menina, querendo ser tratada como uma mulher adulta. Tia Filipa não o assume mesmo no presente enunciativo. São as reticências pospostas à interrogação retórica que sugerem esta informação narrativa23. Uma "donzela de rainha" não iden-

tificada surge no relato de Resende como destinatária de trovas compostas por ele pró- prio, enquanto personagem, e que acodem ao seu pensamento quando descreve o serão em que Ana de Mendonça conhece o Príncipe João. Essas trovas, que patenteiam um su- jeito poético feminino, ficam, por conseguinte, intrinsecamente ligadas ao retrato de Ana

de Mendonça e ao enamoramento perspectivado do ponto de vista desta última. A leitura atinge um nível mais profundo se reconhecermos nesta "donzela de rainha" a alusão à tra- gicamente famosa Inês de Castro, uma vez que estes versos pertencem ao corpo das Tro- vas à Morte de Inês de Castro25. A Rainha D. Isabel, mãe de D. João II e da Princesa Santa Joana, é também a fonte de inspiração para o pranto Tragedia de la Insigne Reyna Dona Ysabel, com um considerável destaque na narrativa de tia Filipa. Esta informa os sobrinhos de que fora escrito pelo seu irmão D. Pedro, Rei da Catalunha, onde D. Isabel aparece como a figura central e enaltecida nas suas insignes qualidades . Já no final do seu relato, tia Filipa conclui que a morte da Rainha, sua irmã, motivou igualmente por

21 Cf. Campos, F., Idem, p. 49.

22 Cf. Campos, F., Idem, p. 46.

23 Cf. campos, F„ Ibidem.

24 Cf. Campos, F., Idem, p. 332.

25 Cf. Campos, F., Idem, pp. 331-332 e Resende, Garcia de, Cancioneiro Geral, Vol. V, pp. 357-364.

parte do marido a encomenda de um pendão em memória da "sua infeliz Elisabeth", para o qual contribuíram "desenhadores, bordadeiras, canteiros, cinzeladores... um afã de gente..."27. Ou seja, vários artistas são solicitados nos seus diversos domínios em prol da

memória de uma mulher.

A mulher continua a ser o tema central de versos, desta vez cantarolados por Pêro de Alcáçova, mas com um sinal oposto em relação aos que até agora apresentámos, devido à misoginia com que ataca o género feminino" .

Noutro campo cultural, o das artes plásticas, a Princesa Santa Joana surge não propriamente como fonte de inspiração (pois que se trata de uma encomenda) mas como modelo, posando para um retrato onde a expressão do olhar é incansavelmente procurada pelo pintor, cuja nacionalidade Resende não consegue determinar com exactidão, o que se coaduna com a sua focalização não-omnisciente. Donas e donzelas mostram-se interessadas em assistir à execução do retrato, o que é inviabilizado apenas porque tal assistência poderia obstar à boa prossecução da mesma. O retrato é feito a requerimento do pai de Joana, o que subordina igualmente a seu modo a intersecção destas personagens femininas com o universo cultural, no que concerne esta iniciativa29.

Mais uma vez, a intersecção entre os universos feminino e cultural é do tipo objectivo e não subjectivo, isto é, a mulher não é aí sujeito-agente de Cultura mas figura enquanto objecto de uma expressão cultural.

"Serviço cortês e homenagem à princesa"30 Isabel de Castela é a função de vários

versos compostos por personagens masculinas devidamente mascaradas para o efeito, durante a celebração faustosa das suas bodas, onde a música, os bailes, a dança popular, as justas e espectáculos teatralizantes levados a cabo por mouros e judeus também têm direito a um espaço condigno . Nessa mesma celebração, os "corações femininos" ficam especialmente tocados pela lírica amorosa de João de Meneses que equipara o amor a uma doce prisão: "Es tan dulce mi prision I que deve para matarme I no prenderme mas

27 Cf. Campos, E, Idem, p. 195.

28 Cf. Campos, F., Idem, p. 219. Os versos que F. Campos coloca na boca de Pêro de Alcáçova foram

efectivamente compostos por Jorge de Aguiar e iniciam a cantiga misógina "Esforça meu coração", da sua autoria, compilada no Cancioneiro Geral de Resende (Cf. Resende, Garcia de, Cancioneiro Geral, Vol. II, pp. 150-151).

29 Cf. Campos, F., A Esm. Part., pp. 254-255. O retrato a que Resende alude no seu relato tem uma refe-

rência directa com um retrato da Princesa factualmente existente e que se encontra exposto em Aveiro, no Antigo Convento de Jesus. (Cf. "Santa Joana", in Oliveira, Manuel Alves de, Op. Cit., pp. 274-275).

30 Cf. Campos, F., A Esm. Part., p. 638.

31 Cf. Campos, F., Idem, pp. 613-614, 619, 626, 630-631 e 633-641 e Resende, Garcia de, caps. CXXIII-

-CXXVIII, in Crónica de D. João H e Miscelânea, pp. 169-187.

soltarme."^. As personagens femininas mostram-se aqui sensíveis às letras de um estrito ponto de vista literário, pois que sentimentos efectivos não as envolvem com o autor desses mesmos versos. Nesse mesmo torneio, D. João II dedica à sua esposa versos que conseguem deixar a Rainha lisonjeada, mas a apreciação literária já não é acompanhada por uma recepção emocionada dos mesmos, pois a fundadora das Misericórdias constata ser vã a promessa de fidelidade que esses versos garantem como eterna' . O humanista Cataldo Sículo compõe, especialmente para a Princesa Isabel, uma peça de oratória em latim, eivada de suma retórica, que exige por parte da Princesa o conhecimento de uma língua erudita, então apenas dominada por algumas elites, intelectuais e clericais'.

Olhos femininos de todas as cores (simbolizando, nessa condição, o género fe- minino) inspiram poetas da corte, que dão expressão literária aos "abismos", céus infinitos e "arrebatamentos de paixão"36 que neles imaginam existir e que o Príncipe Perfeito,

ainda não tocado pelo amor, então desdenhava. Esta última personagem, enquanto narratário, em diálogo post-mortem, lembra ao narrador Resende como a "infeliz Inês" fora a sua fonte de inspiração para umas trovas sentidas, que o leitor facilmente identifica

como as Trovas à morte de Inês de Castro7,7. Entre os considerandos que neste preciso

ponto da narrativa são feitos avulta o facto de o Príncipe Perfeito ter finalmente desper- tado a sensibilidade para a poesia mercê do enamoramento pelos olhos verdes de Ana de Mendonça: "Foi mais que o bicho o que esses olhos acordaram em ti. Alma, alma, tantas vezes tu próprio mo contavas. Chamamento de alma mais que de carne. E calavam em ti

I O

fragmentos de versos, coplas e cantigas ouvidas nos serões do paço." . Este e um novo aspecto a reter: uma personagem feminina consegue que o universo cultural da poesia apareça doravante dignificada aos olhos de uma personagem masculina que anteriormente desprezava tal universo.

Em todos estes últimos casos, as personagens femininas que se interseccionam com o universo cultural são damas da corte e o seu papel, neste domínio, restringe-se aos extremos do processo literário da poesia palaciana: estão na origem da arte de trovar,

33 Cf. Campos, F., Ibidem e Resende, Garcia de, cap. CXXVIII, in Crónica de D. João II e Miscelânea, p.

184. O itálico pertence ao original.

34 Cf. Campos, F., A Esm. Part., p. 637 e Resende, Garcia de, cap. CXXVIII, in Crónica de D. João II e

Miscelânea, p. 183.

35 Cf. Campos, F., Idem, p. 628-629 e King, Margaret L., Op. Cit., p. 183.

36 Cf. Campos, F., A Esm. Part., p. 298.

37 Cf. Campos, F., Ibidem e Resende, Garcia de, Cancioneiro Geral, Vol. V, pp. 357-364.

como fonte de inspiração, e estão no desígnio dessa mesma arte, como destinatárias de tais trovas. Um papel bastante passivo, acrescente-se.

VII.3.Quando a personagem feminina é agente cultural. Um humanismo feminino?

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