Este romance aposta em religiosas poderosas, mais concretamente em abadessas. O seu cargo é respeitado não só por religiosos, por monjas e noviças, mas também por personagens masculinas influentes: D. João II solicita à madre abadessa do Convento de Jesus de Aveiro por intermédio do seu confessor a criação do seu filho D. Jorge junto da
irmã83. Os procuradores enviados por D. Afonso V ao Mosteiro de Odivelas não exigem a
presença de todas as monjas como testemunhas das negociações com a Princesa Joana:
solicitam-no à abadessa Inês, o que é bem diferente84. Repare-se agora na obediência
quase militarista por parte das religiosas, subjacente à seguinte passagem: "Deu sinal a abadessa [Inês]. Uma velha monja que ao lado estava saiu e logo se ouviu tanger a campa e ressoar no silêncio. Não tardou a surgir de uma porta uma fila de hábitos brancos de braços cruzados no peito e véus inclinados sobre os rostos." E a individualidade que se perde neste corpo colectivo de Odivelas, à semelhança do do Convento de Aveiro, do qual o narrador apenas destaca, durante a cerimónia de tomada de hábito de D. Joana, Isabel Luís, por ser a mestra das noviças, e Mícia de Alvarenga no seu hábito de Odivelas, pela amizade que a liga à Princesa e pela sua posterior ascensão ao cargo de abadessa . Há ainda uma breve referência à abadessa do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, Margarida de Meneses, que seria responsável pela recepção da Princesa Joana e a quem é
enviado um estafeta, numa demonstração de respeito pela sua autoridade87. Porém, tal
respeito não corresponde por parte das abadessas ao exercício de um poder tirânico sobre as suas congéneres. Antes pelo contrário, demonstram um grande espírito de solidarie- dade para com as monjas e noviças dos mosteiros a que presidem. As abadessas Brites Leitoa e Maria de Ataíde do Convento de Jesus de Aveiro e as abadessas Inês e Mícia de Alvarenga do Mosteiro de São Dinis de Odivelas são personagens adjuvantes da Princesa
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Santa Joana e de tia Filipa durante as clausuras destas últimas .
No entanto, este poder religioso feminino está confinado aos muros dos conventos que tais abadessas orientam. Não há no romance qualquer clerocracia por elas exercida. Por outro lado, uma vez que os mais altos cargos da Igreja, incluindo os que permitem um contacto com o mundo (o clero regular), são detidos por personagens masculinas, pela
Cf. Campos, R, Idem, p. 444. Cf. Campos, F., Idem, p. 264. Cf. Campos, F., Ibidem. Cf. Campos, F., Idem, pp. 271, 277, 278-279 e 612. Cf. Campos, F., Idem, pp. 271-272. Cf. Campos, F., Idem, pp. 256, 260, 273-274, 276-278, 608, 612 e 665.
simples razão de no direito canónico o sacerdócio estar vedado às mulheres, os clérigos exercem um controlo muitíssimo mais amplo sobre o universo feminino. Cardeais, bispos e arcebispos recebem as princesas nubentes em solenes procissões e realizam os seus casamentos89. Os mesmos escoltam princesas e rainhas90 e são conselheiros destas últi-
mas, nem sempre com as melhores intenções: vejam-se as actuações de Nuno de Góis, prior do Crato, e do arcebispo de Lisboa, Pedro de Noronha, primo de D. Leonor de
Trastâmara, junto desta última91. Do alto dos púlpitos só sermoneiam freis ou outros
prelados, daí influenciando as consciências femininas: por exemplo, a eloquência do prior mestre Afonso de Évora consegue comover até às lágrimas as mulheres da assembleia de fiéis aquando da recepção solene das ossadas do Infante Santo . A confissão, somente exercida por personalidades masculinas, é outro meio de controlo do universo feminino: o confessor de D. Afonso V tenta convencer o Rei a afastar-se da esposa, movido por intrigas palacianas93 e o confessor de D. Leonor é a extensão religiosa das palavras de D.
João II, exortando-a à resignação e ao perdão face ao relacionamento adúltero do marido, do qual já nascera um filho (o "bastardo") e que deixara D. Leonor furiosa94. Algumas
personagens femininas pedem activamente o aconselhamento de clérigos com altos car- gos eclesiásticos, como Catarina em relação ao irmão, o cardeal Jorge da Costa95. Embora
proibidos por voto de castidade de qualquer contacto sexual com mulheres (assim o cum- pre D. Jaime, que estudava cânones em Perúsia e no qual a misoginia se mistura com a devoção religiosa96), vários clérigos, entre bispos e arcebispos, têm barregãs, por vezes
inúmeras, e das quais têm outros tantos filhos. Em quatro dos seis casos apresentados pelo narrador Garcia de Resende, os nomes das barregãs não são esquecidos: Tareja Pires tem do arcebispo de Braga, Gonçalo Pereira, um filho, também ele prelado, que por sua vez conduz para a cama uma monumental lista de amantes, todas nomeadas, ou seja, um ver- dadeiro rabo-de-saia; no terceiro caso, a amante do prelado, Margarida Tinoca, é a dela- tora da traição do bispo ao Rei; e no quarto caso, Isabel Calça é a mulher solteira que tem um filho do bispo de Ceuta, legitimado por D. João II, situação que o narrador caracteriza de "o costume". Apenas em dois casos, pois, a barregã não é nomeada: no primeiro,
89 Cf. Campos, F., Idem, v.g. pp. 623-625. 90 Cf. Campos, F., Idem, v.g. pp. 371, 581 e 622. 91 Cf. Campos, F., Idem, pp. 70-76. 92 Cf. Campos, F., Idem, p. 270. 93 Cf. Campos, F., Idem, p. 151. 94 Cf. Campos, F., Idem, pp. 446-447 e 618. 95 Cf. Campos, F., Idem, pp. 569-570. 96 Cf. Campos, F., Idem, p. 191.
narrado por tia Filipa, o seu relevo é nulo, estando a sua existência apenas subentendida por detrás da dos filhos do prior da Amieira97; no segundo caso, a barregã não é nomea-
da, mas cabe-lhe o protagonismo da autoria material do envenenamento de Santa Joana, movida pela vingança das admoestações desta face ao seu relacionamento pecaminoso,
deixando-se em suspense a possibilidade de caber a outrem a autoria moral do crime . Contudo, o espaço ocupado pela exploração deste tipo de poder masculino sobre o universo feminino, nesta obra, não suplanta o espaço e o peso da religiosidade e do poder religioso estritamente feminino, que aparece pautado por um sinal de positividade ao lon- go do romance. Há mesmo casos, ainda que esporádicos, de personagens femininas que ou se alheiam ou exercem influência sobre clérigos, incluindo sobre o sumo poder papal, ou que violentam clérigos. Assim, D. Leonor de Trastâmara, segundo narra D. Filipa, serviu-se de Frei Vasco de Alagoa, "servidor da rainha", para, através do sermão, colocar o povo do seu lado na luta pela regência, para grande ira da assembleia de fiéis, e cometeu "actos de desagravo (...) contra o abade de Alcobaça" . Isabel de Castela é a grande responsável pelo atraso na concessão da dispensa papal ao casamento entre D. Afonso V e
D. Joana e ela própria casou com Fernando de Aragão sem a dita dispensa100. A Princesa
Santa Joana, como ficou visto, ignora altivamente a oposição do bispo Garcia de Meneses
à sua clausura no Convento de Jesus de Aveiro101. Catarina da Costa, viúva de Pêro de
Albuquerque, por seu turno, vai ao ponto de raptar o abade Álvaro Osorez, seu criado, na fuga que empreende rumo a Castela, numa clara violência exercida sobre um clérigo .
O narrador relata ainda, incrédulo quanto às fontes, a possível vingança de tia Filipa sobre a sobrinha quando esta toma secretamente o hábito, "fazendo com que a abadessa de Odivelas retirasse a Joana a companhia de Mícia de Alvarenga que mandou regressar ao seu mosteiro."103. Isso constituiria uma violência feminina exercida sobre o
mundo religioso congénere.
Em suma, Fernando Campos mostra-nos um universo feminino profundamente religioso, mas nem por isso unanimemente submisso ou violentado pelo poder da Igreja. O quadro das múltiplas relações que as personagens femininas podem estabelecer com o sagrado é abrangente e, por vezes, surpreendente.
97 Cf. Campos, F., Idem, p. 105. 98 Cf. Campos, F., Idem, pp. 375, 546-551, 558 e 609. 99 Cf. Campos, F„ Idem, pp. 82-83 e 95. 100 Cf. Campos, F., Idem, pp. 303 e 404. 101 Cf. Campos, F., Idem, p. 282. 102 Cf. Campos, F., Idem, pp. 568-571 e 579. 103 Cf. Campos, F., Idem, pp. 278-279.
VIL O universo feminino e o universo cultural: exclusão ou intersecção? "Mais se femmes eussent les livres fait
Je scay de vray qu' autrement fust de fair Car bien see vent qu' a tort sont encoulpees"
(Christine de Pizan, Epistre au Dieu a" Amours)