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Pascal, na obra objeto da presente tese, vai elencar o ennui em diversos trechos do livro. Talvez o maço 131, da Seção II, seja o que melhor traduz o conceito de ennui segundo o filósofo:

Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem ter o que fazer, sem divertissement, sem se aplicar a algo. Então ele sente o seu nada, o seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Incontinenti, ele tirará do fundo de sua alma o ennui, a maldade, a tristeza, o sofrimento moral, a cólera, o desespero.18 (PASCAL, s/d, p. 388). [tradução da autora]

Ainda não Seção II, maço 139, Pascal vai discorrer sobre o divertissement, mas como era de se esperar, haverá referências ao ennui, o qual, conforme já referido, dificilmente se separa do conceito de divertissement. Abaixo, o trecho em que o filósofo escreve sobre o ennui:

(...) Dessa forma, o homem é tão infeliz que ele se entediará mesmo sem qualquer motivo de tédio, pelo próprio estado de compleição; e ele é tão vão, que estando cheio de mil razões essenciais de tédio, a menor coisa, como um bilhar e uma bola que ele empurra, são suficientes para desviá-lo.

18Rien n’est si insupportable à l’homme que d’être dans un plein repos, sans passions, sans affaire, sans

divertissement, sans application. Il sent alors son néant, son abandon, son insuffisance, sa dépendance, son impuissance, son vide. Incontinent il sortira du fond de son âme l’ennui, la noirceur, la tristesse, le chagrin, le dépit, le desespoir.

(...) Tal homem passa sua vida sem tédio, jogando todos os dias sem consequência. Todas as manhãs, dê-lhe o dinheiro que ele pode ganhar cada dia, desde que ele não jogue. Diremos talvez que é porque talvez ele procure a diversão do jogo e não o ganho. Faça- o, pois, jogar por nada, e ele não se exaltará quanto a isso e se entediará com isso. Por conseguinte, não é somente a diversão que ele busca: uma diversão lânguida e sem paixão o entediará.19 (...) (p. 395) [tradução da autora].

Ocorrerão várias reflexões de Pascal sobre o divertissement, que será posto em oposição ao ennui. No maço 171, por exemplo, o filósofo afirma que o divertissement é a única coisa que consola o ser humano de suas misérias, mas ao mesmo tempo é a maior de suas misérias. Sem o divertissement, todos cairiam no tédio e este mesmo tédio os leva a procurar um meio mais sólido para se livrar daquele (p. 407).

Já na seção IV, maço 264 (pp. 454-455), Pascal afirma que o ser humano não se entedia de maneira alguma de comer e dormir todos os dias, uma vez que a fome reaparece bem como o sono; sem isso, para ele, o ser humano se entediaria. Dessa forma, sem a fome das coisas espirituais, ele sentiria tédio. “Fome de justiça: oitava beatitude”. Aqui, Pascal se refere ao Evangelho de Mateus, 5:6: “Felizes aqueles que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados’”.

Continuando, na Seção VI, maço 355, lê-se:

A eloquência contínua provoca o tédio. Os príncipes e os reis jogam algumas vezes. Eles não ficam sempre em seus tronos; eles se entediam: a grandeza tem necessidade de ser abandonada para ser sentida. A continuidade enfastia em tudo; o frio é agradável para se aquecer. A natureza age por progressos, itus et reditus. Ela passa e retorna, depois vai mais longe, depois duas vezes a menos, depois mais do que nunca etc.20 (PASCAL, s/d, p. 492). [tradução da autora]

Na seção II, maço 128, Pascal escreveu:

O ennui que se tem de abandonar as ocupações às quais temos apego. Um homem vive com prazer em seu lar: que ele veja uma mulher que lhe agrade, que ele jogue cinco ou seis dias com prazer; ei-lo miserável

19Tel homme passe sa vie sans ennui, en jouant tous les jours peu de chose. Donnez-lui tous les matins

l’argent qu’il peut gagner chaque jour, à la charge qu’il ne joue point : vous le rendez malheureux. On dira peut-être que c’est qu’il recherche l’amusement du jeu, et non pas le gain. Faites-le donc jouer pour rien, il ne s’y échauffera pas et s’y ennuiera. Ce n’est donc pas l’amusement seul qu’il recherche : un amusement languissant et sans passion l’ennuiera.

20L’éloquence continue ennuie. Les princes et rois jouent quelquefois. Ils ne sont pas toujours sur leurs

trônes ; ils s’y ennuient : la grandeur a besoin d’être quittée pour être sentie. La continuité dégoûte en tout : le froid est agréable pour se chauffer. La nature agit par progrès, itus et reditus. Elle passe et revient, puis va plus loin, puis deux fois moins, puis plus que jamais, etc.

se ele retornar à sua primeira ocupação. Nada é mais comum do que isso.21 (PASCAL, s/d, p. 387) [tradução da autora].

Os pensamentos de Pascal sobre o ennui mostram que o homem pascaliano é naturalmente crédulo e incrédulo; tímido e temerário; dependente, mas desejoso de independência; carente; inconstante; entediado; inquieto. O aplauso para este homem, movido a vaidade, é de grande importância. Uma vez que os interesses são mesquinhos e rasos, o ennui vai tomá-lo e o que lhe resta é lançar-se no divertissement. Afinal, ficar parado o obriga a pensar em seu vazio, e isso não lhe agrada.

No maço 131, p. 384, o filósofo vai escrever que “nada é tão insuportável ao homem do que estar em repouso absoluto, sem paixões, sem coisas para fazer, sem

divertissement, sem se aplicar a algo. Ele sente, pois, o seu Nada, seu abandono, sua

insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Incontinenti, ele tirará do fundo da sua alma o ennui, a maldade, a tristeza, a dor, o ressentimento, o desespero.”

Mais adiante, consoante Pascal, este homem passa sua vida sem ennui, jogando todos os jogos. O filósofo sugere dar a este homem, todos os dias, o dinheiro que ele pode ganhar a cada dia, desde que ele não jogue, conforme já foi visto neste capítulo. Neste caso, ele se torna infeliz. É possível dizer que ele busca o divertissement do jogo e não o ganho. Pascal contrapõe: fazer este homem jogar por nada, fará com que não se sentirá estimulado e se entediará. Ele, então, conclui que não é só o divertissement que ele busca: um divertissement lânguido e sem paixão o entediará. Logo, é necessário que ele se inflame e que se engane a si mesmo, imaginando que ficaria feliz em ganhar o que não gostaria que lhe dessem conquanto que ele não jogasse a fim de que se constitua um sujeito de paixão e que exerça sobre isso seu desejo, sua cólera, seu medo para com o objeto que ele criou para si.

E concluindo: por mais que o homem esteja cheio de tristeza, se for possível tirar vantagem dele e fazê-lo abraçar algum divertissement, ei-lo feliz; e o homem, por mais feliz que seja, se não estiver desviado e ocupado por alguma paixão ou divertissement que impeça o ennui de se expandir, será em breve tristeza e infelicidade.

Consoante Pascal, conforme abordagem de Carraud (2007, p. 174), “o que satisfaz o homem é preencher seu vazio (o vazio de si) com as representações que um outro tem

21L’ennui qu’on a de quitter les occupations où l’on s’est attaché. Un homme vit avec plaisir en son ménage :

qu’il voie une femme qui lui plaise, qu’il joue cinq ou six jours avec plaisir ; le voilà misérable s’il retourne à sa première occupation. Rien n’est plus ordinaire que cela.

dele.” Para tanto, “por meio do pensamento, o homem se desapropria de seu ser para querer estar na razão de outrem, testemunhando por esse intermédio a futilidade primordial de seu ser” (p. 174).

Continuando suas reflexões, Carraud confere à vontade da alienação o vazio, e será a imaginação que opera esta alienação. A imaginação, já referenciada no capítulo anterior, age como a interiorização de uma identidade substitutiva, que se compraz em controlar e dominar a razão.

Neste capítulo sobre o ennui, Carraud comenta que Pascal não diz para as pessoas não se desviarem, mas sugere que o filósofo descreve o divertissement como perda de si mesmo, “uma vez que o homem não escapa do imaginário. Mais exatamente, o

divertissement tira seu poder do caráter insuportável do repouso e do tédio que o repouso

provoca” (p. 175). A partir daí, no entendimento de Carraud, “pensar em si somente atinge o ennui” (p. 175). Por conseguinte, esta é a condição do homem: inconstância, ennui, inquietação.

Ao fazer um levantamento do emprego do termo “néant” (nada), ele aponta que o termo é empregado por Pascal em “o nada de nosso ser” e, depois, é substituído por sinônimos mais significativos: abandono, insuficiência, dependência, impotência, vazio. A questão, portanto, ainda consoante Carraud, não é mais pronunciar o nada do ser, mas descrever “a finitude existencial em todos os seus aspectos: glória, imaginação,

divertissement.

Para Carraud, o conceito pascaliano que dá conta da fenomenalidade da existência humana é o ennui. E não é exatamente isso que Machado de Assis faz?

À medida que se adentram as obras que constituem o objeto desta tese, é perceptível concluir duas coisas: ler, antes, a obra Pensées para depois ler os livros do escritor carioca, bem como se constata que, para ler Machado de Assis, é igualmente necessário que o leitor possua uma cultura geral previamente obtida. Embora Machado de Assis não vá fazer uma apologia de Pascal, só em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o fato de o autor-defunto se dizer discípulo de Pascal, os ecos pascalianos se fazem sentir à medida que ele descortina a finitude existencial por meio da glória, da imaginação, do

divertissement, entre outros conceitos elencados nesta tese.

Dentro do conceito de glória, há uma reflexão bastante significativa no maço 151, página 401: “A admiração estraga tudo desde a infância: ‘Oh! Como isso está bem dito! Como ele fez bem! Como ele é sábio! etc. As crianças de Port Royal, às quais não

conferimos este estímulo de inveja e de glória, caem na indolência.”22 [tradução da autora].

Já no maço 404, página 510, Pascal escreveu: “A maior baixeza do homem é a busca pela glória, mas é isso mesmo que é a maior marca de sua excelência; uma vez que qualquer posse que ele tenha sobre a terra, qualquer saúde e comodidade essencial que ele tenha, não está satisfeito, se não for estimado pelos homens.”23 [tradução da autora].

Já se fez uma referência à imaginação, a qual se vincula à vaidade, assunto a ser abordado posteriormente. O divertissement, estudado no capítulo anterior, dispensa comentários.

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