Faoro, ao descrever o Brasil escravagista à época de Machado de Assis, aponta um país em que o escritor pôde “medir o escravo sob ângulo original” (FAORO, 2001, p.355). Em outras palavras, ele não receou mostrar o quanto a alforria poderia não ser benéfica ao cativo. Por esse motivo, ele foi tachado de escravagista, alienado. Na verdade, para o escritor, o escravo seria livre, mas não teria trabalho nem pão, e estava fadado à mendicância. Na opinião do autor de Quincas Borba, “a liberdade não passava, nas circunstâncias, de retórica cruel ou de mentira” (FAORO, 2001, pp.355-356). Quando se analisa a presença do escravo nas três obras, percebe-se o quão Machado de Assis era “cético com respeito à abolição e às alforrias, escravidão existe, na obra de Machado de Assis, independente dos sentimentos” (FAORO, 2001, p.362). Este aspecto está sendo aqui exposto para, não só fazer justiça ao escritor, injustamente retratado como indiferente ao problema da escravidão, mas também para mostrar que foi neste contexto que ele vivenciou a questão, a qual ajudou a moldar e a caracterizar a sociedade brasileira. O autor de Dom Casmurro, em suas crônicas, também vai referir-se à questão diversas vezes e será nesses escritos que ele vai expor mais abertamente sua opinião. Uma vez que a presente tese não vai contemplar o cronista Machado de Assis, não se farão mais considerações a respeito.
Procedendo a um levantamento sobre o número de vezes que Machado de Assis vai mencionar o termo escravo e em que contexto, chegou-se ao seguinte resultado:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, oito vezes. No capítulo XII, o escravo é mencionado fazendo parte da narrativa:
Pedi em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pai, que seria capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repelões. (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 93).
No capítulo XV, Brás Cubas oferece uma joia a Marcela, que costumava guardar suas dobras de ouro numa caixinha de ferro “cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos” (p. 98).
No capítulo LXV, o escravo aparece para avisar Virgília que a baronesa chegara. O termo é repetido apenas para completar o diálogo.
O capítulo LXVIII é o que melhor expressa a visão de mundo de Machado de Assis quanto à condição humana: para ele, seja homem ou mulher, livre ou escravo, rico ou pobre, o ser humano é limitado, egoísta, doente:
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — ‘Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!’ Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. — Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! — Meu senhor! gemia o outro. — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve- se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. — É, sim, nhonhô. — Fez-te alguma coisa? — É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber. — Está bom, perdoa-lhe, disse eu. — Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado! (MACHADO DE ASSIS, 2001, pp. 169-170).
O capítulo CXXIII:
Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Argüiam-no (sic) de avareza, e cuide que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência (sic) escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. (...)
(...) (MACHADO DE ASSIS, 2001, pp. 224-225).
Sem emitir qualquer juízo de valor, o escritor mostra a dualidade da natureza humana. Cotrim, seu cunhado, era irmão de várias irmandades, mas mandava surrar os escravos. Ironicamente, Machado de Assis comenta que a punição se limitava aos escravos perversos e fujões...
Na obra Quincas Borba, o termo é empregado nove vezes. Capítulo X: O escravo aparece duas vezes para levar uma carta.
No capítulo XIII, mais uma vez, o escravo era o serviçal que obedece às ordens do senhor.
O capítulo XIV mostra o escravo sendo arrolado entre os bens deixados por Quincas Borba a Rubião. Sem cair nos excessos, o escritor coloca o escravo no mesmo nível de objetos. A reificação é patente.
O capítulo XV mostra o escravo no mesmo contexto acima citado.
O capítulo XXI, que retrata o encontro de Rubião com o casal Sofia e Palha no trem a caminho do Rio de Janeiro, o mineiro conta seu plano de “vender os escravos que o testador lhe deixara, exceto um pajem; se alguma coisa perdesse, o resto da herança cobriria o desfalque” (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 32).
No capítulo LXIV, Sofia apresenta a Rubião sua tia Maria Augusta, que possuía uma pequena fazenda, alguns escravos e dívidas.
Por último, no capítulo CLII, Rubião refere-se à sua mãe cuja bondade era tão grande que os escravos a chamavam de Sinhá Mãe.
Finalmente, em Dom Casmurro, a palavra “escravo” surge seis vezes.
No capítulo VII, a mãe de Bentinho vendeu os escravos, comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou.
O capítulo LXXXVII faz referência ao cocheiro que era escravo, “tão velho como a sege, quando me via à porta, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo” (...) (MACHADO DE ASSIS, 2009, p. 152).
No capítulo XCIII, Bentinho mostra a Escobar os escravos que sua família possuía:
Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se a nós e esperou. — É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está? — Está socando milho, sim, senhor. — Você ainda se lembra da roça, Tomás? — Alembra, sim, senhor. — Bem, vá-se embora. Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquele José, aquele outro Damião... — Todas as letras do alfabeto, interrompeu Escobar.
Com efeito, eram diferentes letras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação como Pedro Benguela, Antônio Moçambique... — E estão todos aqui em casa? perguntou ele. — Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá. (...) (MACHADO DE ASSIS, 2009, pp. 160-161).
O capítulo XCVI narra o seguinte: “Escobar observou que, pelo lado econômico, a questão era fácil; minha mãe gastaria o mesmo que comigo, e um órfão não precisaria grandes comodidades. Citou a soma dos aluguéis das casas, 1.070$000, além dos escravos...” (p.167).
No capítulo XCIX, há uma ligeira menção da palavra escravo, que aparece em uma enumeração: “E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever. Tio Cosme, para alegrá-la, chamava-me doutor, José Dias também, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha, e ela mesma repetiam-me o título” (p.170).
O último capítulo que menciona o termo escravo é o de número CXXI, em que um escravo da casa de Sancha corre à casa de Bentinho e Capitu para anunciar a morte de Escobar.
Todas as colocações relativas à presença do escravo serviram para dois objetivos: mostrar que a sociedade carioca e/ou brasileira, escravagista, contava com o trabalho escravo para realizar as tarefas que o proprietário, branco, algumas vezes nobre, se negava a fazer por conta de sua “superioridade”. Essa sociedade escravagista tinha uma pendência para o tédio, assim como as classes populares. A primeira porque não tinha o que fazer, e a segunda, por não terem qualquer perspectiva de crescimento cultural, econômico, social, também morriam de tédio. O outro objetivo é apontar o fato de que Machado de Assis, refletiu, sim, sobre a escravidão, mas ao seu modo: com sutilezas, com ironia (quando confronta a falsa postura do proprietário branco, que manda surrar seu escravo até este verter sangue, mas que participa de várias irmandades). É como Machado de Assis termina o seu conto A Igreja do Diabo, “a eterna contradição humana”.