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No Rio de Janeiro de Machado de Assis, as opções e as oportunidades para a mulher não apresentavam quaisquer perspectivas. Segundo Faoro (2001, p. 346), se ela não tem uma madrinha rica ou se não aparece um noivo rico, o que lhe resta é esperar por um casamento com “o bacharel sem futuro, o funcionário sem recursos ou o empregado vexado com a ameaça de desemprego” (p. 346). Caso ela tenha estudado, a única opção é ser professora. Sofia teve sorte, afinal Palha sabia fazer dinheiro, embora fosse gastador. O sistema era patriarcal e, por conseguinte, Sofia não trabalhava, não produzia. Contudo sua influência se dá em sua casa e nas relações que se estabelecem entre ela e Rubião, entre ela e o marido, entre ela e as pessoas de seu convívio, sob a aparência de simpatia, gentileza, cordialidade, educação, acolhimento.

Quem é que manda isto? Perguntou Rubião. - Dona Sofia.

Rubião não conhecia a letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia. Que podia ser? Via-se-lhe a comoção no rosto e nos dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram morangos. Rubião leu trêmulo estas linhas:

‘Mando-lhe estas frutinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Cristiano, fica intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga. SOFIA’. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p.46).

Não obstante, Sofia também será tomada pelo ennui, conforme consta no capítulo LII da obra: “Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz: ao menos, foi uma interrupção na série de tédios que lhe tomavam a alma” (p. 67).

Provavelmente, o ennui que permeia a vida da mulher machadiana se dê pelo fato de que ela não é produtiva. O Brasil de Machado de Assis caracterizava-se por divisões sociais muito rígidas, em que o indivíduo já nasce com seu futuro social predestinado pela origem, raça e possibilidade de frequentar escolas. A sociedade, de acordo com Alfredo Bosi, ainda na obra já citada, era paternalista, e a mulher tenta ocupar um lugar melhor dentro desse paternalismo, o qual poderia ser obtido por meio do binômio “matrimônio” e “patrimônio” (p. 27). Já naquela época, a arte de disfarçar e de manipular já dava o tom das relações sociais; assim, Machado de Assis conviveu nesse ambiente, que só se

diferenciava, na opinião de Bosi, quando surgiam homens de retidão moral como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Luís Gama e Raul Pompéia. Fora isso, chamado por Bosi de “um

moraliste sem ilusões” (p. 28 – nota de rodapé), Machado de Assis não punha sua crença

na rede de valores nem nos ideais democráticos ou republicanos. Seu olhar “filtrou matizes psicológicos de atores presos a suas ambições ora realizadas, ora frustradas” (p. 28). Para o escritor, a vida é um palco em que todos representam um papel. Esse papel, segundo Bosi, compreende um papel social, o qual possui consistência, e a alma humana, que, se colocando “aquém da cena pública” (p. 102), é “dúbia e veleitária” (p. 102).

Não obstante, esta suposição não seja tão pontual uma vez que os homens geralmente se entediam.

Por enquanto, é pertinente concentrar as atenções não só em Sofia, mas também em Virgília e Capitu a fim de, através delas, perceber as demais mulheres dos três romances: Marcela, Dona Plácida, Dona Glória, Dona Fernanda, Sancha. Esta enumeração não esgota a galeria feminina dos três romances. Ao mesmo tempo, seria arriscado elencá-las entre as figuras do sexo feminino que são consumidas pelo ennui.

Provavelmente, a não produtividade pode ser vinculada ao conceito do ennui de algumas dessas figuras femininas. No capítulo XVII, do livro Quincas Borba, por exemplo, Rubião encontra-se com uma senhora no corredor ao sair do escritor de Camacho, que a chama de baronesa: “Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tédio “ (p. 78).

Mais um exemplo:

E, se era jóia (sic), dizia isto a contemplá-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensaiá-la em si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidência impetuosa e sincera; mas, protestando, derramava-se lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com vê-la assim. Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcela juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ninguém nunca jamais soube onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era própria. Eram sólidos e bons os móveis, de jacarandá lavrado, e todas as demais alfaias, espelhos, jarras, baixela, — uma linda baixela da Índia, que lhe doara um desembargador. Baixela do diabo, deste-me grandes repelões aos nervos. Disse-o muita vez à própria dona; não lhe dissimulava o tédio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de antanho. (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 98). [grifo da autora]

Outro:

Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. — “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” — Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura, — ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo. (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 116). [grifo da autora]

Mais um exemplo:

(...) Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la. (MACHADO DE ASSIS, 2001, p.155). [grifo da autora]

Algumas vezes, o termo “tédio” é substituído por um sinônimo, embora sempre se refira à ideia de alguém que, não tendo nada para correr atrás, se diverte, sente-se profundamente entediado:

Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqüências (sic) possíveis. Ao cabo, parecia-me jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se não era tempo de levantar e espairecer. Sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a vida. Por que não? Meu coração tinha ainda que explorar; não me sentia incapaz de um amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a exceção; eu estava enfarado delas; não sei até se me pungia algum remorso. (...) (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 208). [grifo da autora]

A partida de Virgília deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano, se não mente o Suetônio, mas a fisgá-las de um modo particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na rede, com um livro aberto entre as mãos. Era tudo: saudades, ambições, um pouco de tédio, e muito devaneio solto. Meu tio cônego morreu nesse intervalo; item, dois primos. Não me dei por abalado: levei-os ao cemitério, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo? como quem

leva cartas ao correio: selei as cartas, meti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o cuidado de as entregar em mão própria. Foi também por esse tempo que nasceu minha sobrinha Venância, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava às moscas. (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 216). [grifo da autora]

Brás Cubas se entedia de suas aventuras, as quais, em sua opinião, “são a parte torrencial e vertiginosa da vida”. O personagem prefere ir ao abismo da vida a ter que ficar quieto, pensando na vida. No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, o tédio, na opinião de Lúcia Miguel Pereira, é o personagem central do livro. Brás Cubas não conduz sua vida, deixa-se levar pelo destino. Ele percebe a inanidade do mundo, mas não faz nada a respeito. Não lutou pelo amor de Virgília, quando esta preferiu Lobo Neto; não lutou por nada na vida. Portanto, não é de se admirar que ele adotou um “riso gelado e irônico, do absurdo da vida” (PEREIRA, 1955, p. 197).

Na outra transcrição, Virgília viaja com o marido, e Brás Cubas sente “uma amostra de viuvez” (p. 216). Brás fica como que em um estado de prostração: fisga mosca com os olhos; fica estirado em uma rede no fundo de uma sala grande, com um livro aberto nas mãos sugerindo que não fez nenhuma leitura. A descrição que ele faz de si remete a um estado de alma entediado. De intermeio, ele se refere à morte do tio e de dois primos, que ele leva ao cemitério como se fosse levar dinheiro ao banco. Menciona o nascimento da sobrinha e, no movimento de vida e morte, o personagem continuava às moscas, em uma clara referência ao vazio de sua existência, permeada de ennui e

divertissement.

A maioria das transcrições acima dizem respeito à obra Memórias Póstumas de

Brás Cubas. Em Quincas Borba, há exemplos bastante elucidativos sobre o tema do ennui:

Em casa, ao despentear-se, Sofia falou daquele sarau como de uma coisa enfadonha. Bocejava, doíam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição dela. Se lhe doíam as pernas é porque dançara muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, teria morrido de tédio. E ia tirando os grampos, deitando-os num vaso de cristal; os cabelos caíam-lhe aos poucos sobre os ombros, mal cobertos pela camisola de cambraia. Palha, por trás dela, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sofia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era plácido. Concordou que não valsava mal. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 91). [grifo da autora]

(...) O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réu no júri. Não havia divertimento algum público, festa nem sermão. Nada.

Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas, à toa, lendo as tabuletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropelo de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, por quê? Não achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrair, e que o distraía deveras; mas havia aqui horas de um tédio mortal. (MACHADO DE ASSIS, 2004, pp. 103-104). [grifo da autora

Tédio por dentro e por fora. Nada em que espraiasse a vista e descansasse a alma. Sofia meteu a alma em um caixão de cedro, encerrou o de cedro no caixão de chumbo do dia, e deixou-se estar sinceramente defunta. Não sabia que os defuntos pensam, que um enxame de noções novas vem substituir as velhas, e que eles saem criticando o mundo como os espectadores saem do teatro criticando a peça e os atores. A defunta sentiu que algumas noções e sensações continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida comum, — a carta da véspera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria. (MACHADO DE ASSIS, 2004, pp. 177-178). [grifo da autora]

(...) A gestação ia cheia de tédios, de dores, de incômodos que ela ocultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço à criaturinha futura. Acolhia o mal com resignação, — se não é que o agasalhava com alegria, — uma vez que era a condição da vinda do fruto. Fazia cordialmente o ofício da espécie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazaré: ‘Eu sou a serva do Senhor: faça-se em mim a sua vontade’. (MACHADO DE ASSIS, 2004, pp. 187-188). [grifo da autora]

(...) A mesma política não lhe dava matéria aos discursos de outrora. No escritório, quando via Rubião assomar à porta, fazia um gesto de impaciência, que sofreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia- se em conjeturas, se lhe escapara alguma ofensa, por descuido, — ou se começava a aborrecê-lo. E para desfazer o tédio ou o ressentimento, falava macio, risonho, abrindo longas pausas respeitosas, à espera que ele dissesse qualquer coisa. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 198). [grifo da autora]

Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janelas, muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preocupações do dia, os tédios, os ressentimentos, este uma dívida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias de amigo. Cada miséria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento durava um relâmpago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços suntuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao Céu a parte que lhe coube, — amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcáçar fantasmagórico. (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 204). [grifo da autora]

Eram belos, e na primeira noite que os levou nus a um baile, não creio que houvesse iguais na cidade, nem os seus, leitora, que eram então de menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no mármore, donde vieram, ou nas mãos do divino escultor. Eram os mais belos da noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse, quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios; concordou logo comigo. (MACHADO DE ASSIS, 2009, p. 178). [grifo da autora]

O ennui aparece nos mais diversos ambientes: no lar, o espaço em que a mulher desenvolve a maior parte de suas atividades, acomete o sexo feminino; Camacho (um parasita da política, que sonhava em ser ministro, viu em Rubião a grande oportunidade de subir socialmente) se entedia com a presença de Rubião que, ao ser tratado com tanta frieza, se pergunta o que fizera ao outro para ser tão mal recebido; em Maria Benedita, grávida, o ennui se mescla ao incômodo da gravidez; as pessoas pertencentes às classes populares se apegam à loucura de Rubião para esquecer seus tédios; já em Bentinho, que se incomoda de ver que os homens cobiçam os braços de Capitu, confessa a Escobar seus tédios e, aqui, a palavra liga-se ao sentido de aborrecimento. Por conseguinte, tudo o que se percebe é que o ennui assombra o ser humano e, em Machado de Assis, ele surge no seio de qualquer classe social. E isso tem ressonância com que Pascal escreveu na Seção II, maço n. 136, p. 389: “Pouca coisa nos consola uma vez que pouca coisa nos aflige” (“Peu de chose nous console parce que peu de chose nous aflige”).

Ao se elencarem as vezes em que a palavra “tédio” aparece nas três obras, depreende-se que ela foi empregada mais frequentemente nas obras Memórias Póstumas

de Brás Cubas e Quincas Borba. No primeiro, o tédio se refere ao ser humano não

produtivo, que é Brás Cubas; em Quincas Borba, aos personagens Rubião e Sofia. Em

Dom Casmurro, o termo surge apenas duas vezes e só uma merece atenção e observação,

conforme é constatado na transcrição acima. Por conseguinte, podem-se depreender alguns pontos. Entre eles, é que o tédio assola todas as classes sociais, embora na presente tese, é a classe mais abastada que sofre mais frequentemente deste mal. Quando, no capítulo CLXXXIX da obra Quincas Borba, as pessoas paravam o que estavam fazendo, suspendendo, entre outros, os tédios, para ver Rubião passar, parando, murmurando, sempre

envolvido naquele véu, através do qual todas as coisas eram outras, contrárias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de reposteiro. Rubião seguia direito à sala do trono, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminável, cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes, — e por entre alabardeiros, altos e robustos (p. 204),

Machado de Assis descreveu pessoas pertencentes às classes populares. Por conseguinte, é possível depreender dois pontos: o ennui pode acometer qualquer pessoa (a que produz e a que não produz) e a universalização de Machado de Assis, que, seja afastando-se da ideologia dominante, ora aproximando-se da mesma, teve um modo peculiar de ver a condição humana, discorreu sobre burgueses, escravos, funcionários, proprietários, agregados, jornalistas, advogados e perscrutou a psicologia de seus personagens, cuja alma também não deixava de refletir o movimento histórico ao qual pertencem.

Colocando-se estrategicamente distante das convenções culturais do seu tempo (cf. Bosi), Machado de Assis, ao trabalhar sua visão universalista sobre a espécie humana e o destino, não restringiu suas personagens à galeria de tipos locais que realistas e naturalistas criaram em suas obras de ficção. Por conseguinte, o escritor se afastou do personagem-tipo, preferido pelos realistas e naturalistas, já que esse personagem é totalmente previsível “no sentido da reprodução da própria identidade pública” (BOSI, 2007, p. 159). Uma vez que o Bruxo do Cosme Velho, ainda segundo o texto de Bosi, não era um cientista social, mas um romancista, criou livremente rasgos individuais, tipos ou pessoas.

Voltando ao ennui, os personagens apresentados se adequam ao conceito que Pascal conferiu ao sentido do termo. Recordando, esse estado da alma vai sempre surgir quando não se tem algo útil para fazer, quando o vazio toma conta da existência humana, obrigando homens e mulheres a correr atrás da fama, poder, sexo, posição social, a fim de não ter que pensar em suas vãs existências.

Urge destacar que não é o propósito aqui afirmar que as mulheres se entediam mais do que os homens porque elas não trabalham. Afinal, o homem machadiano, geralmente, também não trabalha (exceção de Bentinho, principal personagem masculino em Dom Casmurro). Há um trecho do livro de Afrânio Coutinho, A filosofia de Machado

Há pouco trabalho para os que habitam o mundo machadeano (sic). Não há necessidade de trabalhar, poristo (sic) é que nos parece nele uma humanidade enfastiada, a bocejar de tédio e impaciência, e a procurar divertir-se para matar o tempo, à espera de que o tempo a destrua. O trabalho nele não é uma lei natural que a todos obriga, cada qual na sua ordem, esta a explicação do desarvoramento de muitas das suas personagens. Mesmo quando se trabalha, é só como uma coisa secundária sem exercer nenhuma ou quasi (sic) nenhuma influência sôbre (sic) o caráter e a vida dos mesmos. (COUTINHO, 1940, p. 167).

Por conseguinte, além de estabelecer um determinismo sociológico, isto é, lançar mão de um arcabouço social e antropológico, Machado de Assis mostra, por meio de seus personagens, que se estava em um Brasil onde surge o capitalista, que Raymundo Faoro descreve com propriedade e lucidez:

Os capitalistas, ramo da classe proprietária positivamente privilegiada, se determinam pelas diferenças de propriedades, propriedades de terras e escravos, casas de aluguel, apólices e ações. Agrupam-se entre os

rentiers [aqueles que vivem sem trabalhar], que vivem de rendas,

rendas de escravos, de terras, de casas, de créditos e de valores. Mesmo se empresários agrícolas, na realidade do Segundo Reinado, não se desviam para outra classe (a classe especulativa, ou lucrativa), a que tira da aquisição e venda no mercado sua situação econômica. Não é o comércio que os orienta, mas a formação do patrimônio por meio dos excedentes não consumidos. A experiência demonstra que o trânsito entre a classe proprietária e a lucrativa é muito raro: o proprietário, o capitalista tende para o consumo ostentatório ou para a ociosidade, sem que lhe ocorra aplicar seus recursos em empresas comerciais, industriais, ou mesmo agrícolas (como empresas). Distingue-se o apego à tradição e certos traços de educação, tidos como superiores, com modelos hieráticos de conduta social e política. (...) (FAORO, 2001, p. 227).

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