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CHAPITRE VII : QUANTIFICATION DE LA RUGOSITE

4. INTERPRETATION DES RESULTATS D'ESSAIS

4.2. Profilométrie sur dalles

Os movimentos sociais em Ceilândia sempre estiveram ligados ao contexto político do resto do país. Conforme já foi descrito no histórico, a “cidade-satélite” surgiu para erradi- car invasões, entre as quais se destaca a Vila do IAPI. Esta ainda existia durante o regime mi- litar, apesar da repressão aos movimentos de resistência organizados. No início da década de 70, a “mão-de-ferro” do governo militar não permitia a formação de organizações populares, menos ainda as que contrapunham à ordem estipulada.

A manutenção destes núcleos populares, vivendo em condições precárias de sobrevi- vência, conforme descrição dos jornais da época (ANEXO D11), e próximos ao Poder Fede- ral, não convinha aos interesses da linha dura do poder de então nem aos ideários de preserva- ção do Plano Piloto e do seu planejamento original.

Segundo Luís de Pinedo, a intenção original de deixar Brasília com sua vocação uni- camente administrativa vai esbarrar na natureza da mão-de-obra que aqui surgiu:

A intenção original da capital federal, a de ser uma cidade unicamente administrativa, isolada do resto do complexo processo de urbanização por que passava o país nas décadas de 50 e 60, vai esbarrar com essa realidade que, através da divisão territorial do trabalho e do processo mi- gratório intenso, vai jogar abaixo essas pretensões. Assim, a divisão social do trabalho é intro- duzida em Brasília através da mão-de-obra rural, que rapidamente se proletarizou, formando uma massa de 126 mil habitantes em pouco mais de três anos. Este fato obrigou a Novacap a admitir a existência de cidades-satélites, mesmo antes do término das obras.67

Pinedo prossegue acerca do papel da “cidades-satélites” nas relações de trabalho e mercado:

A partir daí, encerra-se o ciclo iniciado com a construção de Brasília (Plano-Piloto e cidades- satélites), quando a sobrevivência física e intacta do Plano-Piloto só seria possível com a cons- trução de cidades-satélites que funcionassem como amortecedores das relações de mercado so- bre o Plano-Piloto.68

O governo militar vai optar por lidar com estas contradições agindo, de um lado, co- mo assistencialista às demandas da população e, de outro, através da força para a contenção de movimentos de trabalhadores. Nair Bicalho relata em seu trabalho sobre a cidade livre, em 1966, casos de emprego da força para impedir manifestações.

A eficiência e rapidez na transferência dos primeiros moradores são prova da inten- ção dos militares no controle sobre o avanço do crescimento demográfico próximo ao PP.

67

QUINTO JR., Luiz de Pinedo; IWAKAMI, Luiza Naomi. O Canteiro de obras. In: PAVIANI, Aldo (org.). A

conquista da cidade. 2. ed. Brasília: Edunb, 1998. p. 72.

Os movimentos dos operários que vieram para a construção de Brasília e que lutaram para fixarem-se no DF deram origem às primeiras oito “cidades-satélites”. Com o advento da ditadura militar, esses movimentos tiveram de mudar sua estratégia enquanto organização reivindicatória. Eles deixaram de atuar com ações de protestos, através de manifestações os- tensivas, para uma silenciosa desobediência civil, através da persistência em permanecer na capital do país, ocupando áreas não designadas para fins de habitações populares.

A lógica que motivava esse movimento era a de que, após emprestar sua força de trabalho para a construção da cidade, seria justo aqui se instalarem definitivamente. E, como resultado dessa estratégia, houve o crescimento dessas invasões, contando com o apoio de setores ligados às Igrejas.

Esses setores religiosos assumiram o papel de representantes dessa população na es- fera governamental. Apesar de esse apoio ter um caráter assistencialista, contribuiu, contudo, para a luta por melhores condições de vida e sua manutenção.

Por outro lado, também, tornou-se do interesse do governo militar a mão-de-obra desses migrantes, visto que a intenção de manter Brasília como capital do país exigiu que a cidade fosse concluída, o que aqueceu o setor da construção civil. Quinto Jr. e Iwakami falam sobre essa fase, ligando-a a uma mudança das relações de trabalho e sua influência nas inva- sões e na expansão urbana do DF:

O [...] período, que começou em 1971, caracteriza-se pela consolidação das tendências iniciadas com a penetração das relações de mercado, por meio da divisão social do trabalho. Nele se pro- picia a difusão de “invasões” e cidades-satélites, configurando-se como elementos estruturado- res da nova capital, resultante, por sua vez, da consolidação do fator de aglomeração no espaço urbano.69

Como resultado desse processo de “aglomeração urbana”, que levou a um aumento considerável das favelas próximas ao Plano Piloto, o governo militar através do GDF apresen- ta a intenção de construir Ceilândia. Representando, com isso, o atendimento, pelas autorida- des de então, da vontade dessa população mais pobre de permanecer no DF.

Contudo a escolha de uma área mais afastada para a construção da nova “cidade” e o controle coercitivo sobre as organizações sociais denunciam a intenção do governo militar de segregar essa população em relação ao centro de Brasília. Ao mesmo tempo em que satisfazia a população com a aquisição do lote, usava esse “benefício” como artifício para diminuir os

69 QUINTO JR., Luiz de Pinedo; IWAKAMI, Luiza Naomi. O Canteiro de obras. In: PAVIANI, Aldo (org.). A

movimentos de oposição. E ainda aproveitava para explorar a mão-de-obra ofertada por essas comunidades, que pela grande oferta gerava baixos salários.

Somente com o período de redemocratização, final da década de 70 até meados dos anos 80, houve um efetivo revigoramento dos movimentos populares. E os moradores de Cei- lândia puderam, através dos movimentos organizados em associações de moradores ou de inquilinos — um deles intitulado de “os incansáveis da Ceilândia” — ver atendidas suas rei- vindicações por melhores condições de moradia.

Nos subitens abaixo, será definido melhor o papel de cada setor da organização po- pular que envolveu a história desta “satélite”.

6.2.1 A influência de setores das Igrejas cristãs nos movimentos sociais

A Igreja esteve presente e atuante nos movimentos sociais de Ceilândia. Conforme já foi descrito, antes mesmo de as primeiras famílias chegarem, os lotes das Igrejas já haviam sido distribuídos. (ANEXO D13)

As Igrejas aqui relatadas são de origem cristã, estando entre estas a Católica, as Pro- testantes e a Espírita Kardecista.

Logo no primeiro momento da implantação de Ceilândia, o cadastramento e a mu- dança das primeiras famílias contaram com participação ativa dessas Igrejas, atuantes no DF de então. Elas é que se tornaram as intermediárias entre a sociedade e o GDF, através de seus representantes clericais.

Os primeiros censos foram organizados pelas paróquias católicas. Seus salões eram cedidos para reuniões de moradores, onde tratavam dos problemas da comunidade.

Do final da década de 70 até meados da de 80, grande parte dos párocos católicos e- ram vinculados de alguma forma ao movimento da teoria da libertação. Alguns chegaram a ajudar a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em Ceilândia. Ao mesmo tempo tinham também padres conservadores e contrários à entrada da esfera política nas ações da Igreja, apesar de isso ser também um posicionamento político com grande reflexo na comunidade. E foi esta posição política que tem prevalecido de meados de 80 até hoje, nas paróquias Católi- cas desta Região Administrativa.

Atualmente as Igrejas Evangélicas têm-se multiplicado muito na região, seguindo uma tendência nacional. A atuação dos setores dessas Igrejas apresenta características de uma participação mais conservadora nos movimentos populares de Ceilândia.

São ações movidas por objetivos assistencialistas. Em relação à postura política, elas se organizam em torno de seus próprios bispos, elegendo-os para cargos públicos. Basicamen- te nas esferas legislativas, onde hoje constituem até uma bancada própria, demonstrando forte organização para se fazer representar institucionalmente.

De modo geral, o papel dessas Igrejas serviu e tem servido como amortecedor dos conflitos entre o Estado e a população. Mesmo quando os padres se postavam contrários às ações do Estado, eles assumiam o papel mais de mediadores do que de combatentes.

Em 2000, segundo dados do GDF, Ceilândia contava com 13 Igrejas Católicas, 50% instaladas desde o início da “cidade”, e 174 Evangélicas, dessas 90% estabelecidas a partir da década de 90. Apesar da grande diferença numérica entre Católicas e Evangélicas, a primeira ainda mantém maior influência sobre a população. Talvez por sua atuação na história da cida- de. Essa diferença em números de unidades, também não significa uma maior influência das Evangélicas, pois para cada uma delas a quantidade de fiéis e bem inferior a das paróquias Católicas. Uma paróquia Católica configura-se numa delimitação de área em relação a um número X de moradores, normalmente na casa dos milhares. Já as igrejas evangélicas não obedecem a uma circunscrição territorial, mas a um ideário ligado diretamente a um pastor e seus fiéis, que normalmente têm ficado na das centenas. Esses índices aparentemente demons- tram um aumento significativo da influência da Igreja Evangélica na “cidade”, mas não uma supremacia desta sobre a Católica.

6.2.2 Movimento dos trabalhadores

Temos poucos exemplos de categorias profissionais organizadas advindas de Ceilân- dia, contudo uma das lideranças políticas atuais foi a do líder dos vigilantes, vindo do Sindica- to dos Vigilantes de Brasília, que tinha seu maior contingente nos moradores de Ceilândia.

Outro movimento grande de trabalhadores deu-se com o dos professores, que, apesar de nas décadas de 70 e 80 não ter grande número de profissionais morando nessa “satélite”, tinha o segundo maior contingente do DF, atuando justamente lá. E é da presença dos movi- mentos grevistas dessa categoria, e de sua influência sobre a juventude em formação, que con- tamos com a forte iniciação dos movimentos de esquerda na comunidade. (ANEXO D36)

Os estudantes, apesar de não comporem necessariamente uma classe trabalhadora, viam-se, contudo, com a categoria e organizaram alguns movimentos como o de reivindicação de melhores condições físicas das escolas, em apoio aos professores nos movimentos de 1977.

Como na cidade não havia grande potencial de empregabilidade, a maioria dos traba- lhadores atuava no PP, suas demandas ocorriam com os patrões lá. Talvez por isso seja mais difícil de encontrar este movimento organizado na própria “cidade”.

Hoje já existem organizações de trabalhadores, principalmente de feiras livres, mas o trabalho não conseguiu estabelecer contato para entrevista ou coleta de outro tipo de docu- mentação histórica.

6.2.3 Associação de moradores

Foi no movimento de moradores que mais tivemos a presença da atuação da comuni- dade em busca da solução para seus problemas.

Mara Resende estudou o movimento dos inquilinos de Ceilândia, onde descreve a organização que estes adquiriram para reivindicar o direito a lotes, chegando a ser os respon- sáveis pela criação de expansões, como a do Setor O. Além de assumirem a responsabilidade de gerir junto com o governo a formulação do cadastro dos moradores que seriam beneficia- dos por lotes.

Se bem que esta foi também uma estratégia do governo para desacreditar o movi- mento e se resguardar da deficiência na distribuição dos lotes. Mas ao mesmo tempo foi um reconhecimento pelo GDF da importância legítima desse movimento na comunidade.

6.2.4 Partidos políticos

O PT e o PMDB são os dois maiores partidos com penetração na área.

A história do PT confunde-se na Ceilândia com os próprios movimentos de trabalha- dores, da Igreja Católica vinculada à teoria da libertação e, principalmente, dos “incansáveis da Ceilândia”, o maior e mais duradouro movimento de moradores da região, e possivelmente de todo o DF.

Das lideranças desses movimentos é que surgiram os formadores do Partido dos Tra- balhadores na cidade. A ideologia da não exploração e a conscientização da própria explora- ção tornaram o partido atraente para esta população.

Já o PMDB surge das lideranças, como já relatado, que encontraram vínculos com o próprio governo. Tornando-se porta-voz deste na população e se destacando pelo atendimento das reivindicações mais imediatistas. Sendo atribuído a ele, pela própria comunidade, o suces- so no atendimento pelo GDF dessas demandas.

Pela particularidade das preferências político-partidárias de Ceilândia e Samambaia, trataremos, no capítulo 4, desse tema, correlacionando as duas cidades e enfocando o papel que elas têm no perfil político da relação destas cidades com o GDF.

6.2.5 Participação política

Conforme já citado anteriormente, Ceilândia é o segundo maior colégio eleitoral do DF, menor apenas que o PP. E, por seu histórico de atuação política, foi reduto dos movimen- tos da esquerda durante a década de 80.

Movimentos estes fundados a partir da insatisfação e do descrédito com as ações dos sucessivos governos, ações estas que não resolviam de fato os problemas da “cidade”, só cria- vam ações paliativas. Em tais movimentos temos a presença, como organizador, do Partido dos Trabalhadores.

Contudo também fez parte da história dos movimentos sociais de Ceilândia uma for- te atuação de movimentos assistencialistas vinculados, quer diretamente, quer indiretamente ao governo. Foi uma região que construiu muitas lideranças a partir de suas atuações junto com o GDF. Como o caso da atual vice-governadora do DF, Maria Abadia, deputada distrital eleita e reeleita várias vezes consecutivas, que começou sua atuação política como assistente social nesta “cidade-satélite”, na década de 70, e que ainda tem lá seu reduto eleitoral.

(ANEXO D31)

Por isso temos uma divisão político-partidária forte na “cidade”. Lá muitas lideran- ças do PT foram criadas, caso de Chico Vigilante, líder sindical na década de 80, um dos pri- meiros deputados eleitos para a Câmara Federal como representante de Brasília, e atual depu- tado distrital. E ainda o movimento dos professores vinculados ao sindicato, historicamente de esquerda. De outro lado, temos uma forte influência de setores conservadores da política de estado.

Estas duas correntes estão presentes e com muita força. Durante as eleições, observa- se a força e o radicalismo que muitos partidários assumem, bem como a divisão política pelas cores, espalhadas pela cidade.