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Chapter 8 Product Summary

Nas cartas enviadas por António Castilho à sua mulher foram relatados detalhes de sua estada no Brasil para a ministração do curso que visava propagar o seu método para o ensino da leitura. Uma minuciosa análise dessa correspondência pedagógica é imprescindível na busca por respostas aos diversos questionamentos levantados durante essa pesquisa.

Nas falas de António Castilho, observa-se que o Brasil já possuía, desde 1834, um Método de leitura — caracterizado por ele como uma espécie de redução dos siste- mas pedagógicos do francês Jacotot e do português Travassos —, elaborado pelo brasi- leiro Costa Azevedo, que motivou intrigas e repulsa ao Método português.

Dois traquinas literários com muita basófia, num discurso muito so- brecarregado de encômios a mim, como escritor e poeta, e muito re- vestidos de fórmulas hipócritas, procuraram suscitar (e com efeito suscitaram) uma cizânia de nacionalidade chocha, dizendo que tam- bém havia aqui, impresso, há vinte e um anos, um Método de leitura, coisa grande, feito por um grande homem, em quem a maior parte deles mesmos nua ouvira falar, chamado José da Costa Azevedo; que decerto não teria tirado dele o meu, mas que me havia com ele encon- trado; que por aquele método se aprendia em seis meses, como se po- dia ver num colégio desta cidade, etc, etc, etc... (CASTELO- BRANCO, 1975, p. 286).

António Castilho caracterizou de forma pejorativa o autor do método brasileiro José da Costa Azevedo e seu seguidor Francisco Crispiniano Valdetaro39 como plagiá- rios de Jacotot.

O do seu plagiário Costa, ninguém o segue no Império; não o conhe- cem aqueles mesmos que falam dele; e o tal colégio que se apontava, e que pertence a um Fulano Valdetaro, ensina por uma modificação feita pelo mesmo Valdetaro ao mesmo Costa, mas leva nos para dar maus ledores. Estes dois oradores de tão insigne tarefa fizeram-me perder a cabeça em duas lições. Afinal já levavam para lá clientes, para lhes darem apoiados; era insuportável. Trunquei ali o Curso, di- zendo-lhe o porquê muito francamente (CASTELO-BRANCO, 1975, p. 287).

No cruzamento entre essas fontes, depara-se com o desabafo de António Castilho diante da presença de professores com grande prestígio em solo brasileiro, como Valde- taro, que estava a cargo da instrução da princesa, fato esse que deixa grandes questiona- mentos: Será que a princesa teria a cargo de sua instrução um professor “possuidor de uma escola de maus ledores”, como António Castilho assim descrevera Valdetaro? Será que o método apropriado de Jacotot era mesmo desconhecido até por quem o praticava, conforme as falas de António Castilho? Vários desses questionamentos justificam a ne- cessidade desta pesquisa no campo da Historiografia da educação brasileira.

O sujeito caracterizado por António Castilho como plagiário era José da Costa Azevedo (1791-1860), primeiro diretor e organizador da Escola Normal de Niterói40; “um patrício notabilíssimo olvidado pela ingratidão ou ignorância dos nossos

39 Valdetaro nasceu em 1805, no Rio de Janeiro, onde faleceu em 10/1/1862, e foi professor da princesa

Isabel Cristina, filha do Imperador D. Pedro II do Brasil (CALMON, 1941).

40A Escola Normal de Niterói foi a primeira do Brasil e da América, sendo instituída através do Ato no

10, de 1o de abril de 1835, da Assembleia Legislativa da Província do Rio de Janeiro, sancionada em 4 de

abril pelo presidente da Província Joaquim José Rodrigues Torres, depois visconde de Itaboraí (NOGUEIRA, 1938, p. 28).

contemporâneos” (NOGUEIRA, 1938, p. 28). O tenente-coronel José da Costa Azevedo foi nomeado diretor em 27 de junho de 1835, permanecendo no cargo até 186041.

Costa Azevedo foi considerado pelo presidente da província do Rio de Janeiro, Joaquim José Rodrigues Torres, um cidadão com conhecimentos especiais para dirigir o ensino público a quem deveria ser entregue a “inspeção e fiscalização de todas as escolas primárias da Província” com o objetivo de “dar-lhes a mais conveniente direção” (RIO DE JANEIRO, RELATÓRIO, 1835, p. 3).

No decreto no 10, de 1835, referente à criação da Escola Normal, o presidente da província do Rio de Janeiro sancionou, no segundo artigo, as matérias e modos de ensino.

A mesma Escola será regida por hum Director, que ensinará. Primo: a ler e escrever pelo método Lancasteriano, cujos princípios theoricos e práticos explicará. Segundo: as quatro operações de Arithmetica, quebrados, decimaes e proporções. Tertio: noções geraes de Geometria theocrica e pratica. Quarto: Grammatica de Língua Nacional. Quinto: elementos de Geographia. Sexto: os princípios de Moral Christã, e da Religião do Estado (Decreto no 10, de 1835). Ao trabalhar as relações de poder na Escola Normal da província do Rio de Ja- neiro no projeto de ação política de Joaquim José Rodrigues Torres (1835-1840), Con- ceição (2012) abordou algumas funções desempenhadas por Costa Azevedo:

personagem este que estava à frente inclusive tanto dos pedidos de exames públicos de seleção para o cargo de efetivo de Miguel Joa- quim da Cunha e João Rodarte da Gama Lobo, quanto da expulsão de Albino Alves de Azevedo, atuando assim também como um poderoso agente do estado no microespaço escolar (...). A medida de “dar aos professores as instruções necessárias; [e] exigir deles todas as infor- mações convenientes”, através da precisa vigilância do Tenente Coro- nel Jozé da Costa Azevedo, seria uma ação “indispensável para con- seguir fim tão importante (CONCEIÇÃO, 2002, p. 8-9).

Costa Azevedo foi por vários anos diretor da Escola Normal e o único professor dessa instituição lecionando em todas as cadeiras. Esse fato só foi revertido a partir da reforma em 1848, gerada pela Lei no 402, de 27 de maio de 1846, quando foram solici- tados novos professores.

41 Segundo consta nos relatos do site do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, José da Costa

Azevedo ficou no cargo de diretor até o ano de sua morte <http://infoiepic.xpg.uol.com.br/historia.htm>. Acesso em: 20 nov. 2016

Antes da reforma, era um só professor encarregado de dar toda a instrucção aos candidatos ao magisterio; não havia tempo prescripto para a duração do curso da escola normal; nem se apuravão bem as disposições, talento e moralidade dos que pretendião estudar como pensionistas da província obrigando-se a servir ao depois como pro- fessores (NOGUEIRA, 1938, p. 49).

A formação desse diretor e único professor de diferentes cadeiras da Escola Normal deu-se na Academia Militar, onde recebeu o grau de doutor em matemática e ciências naturais. As fontes localizadas na Biblioteca Nacional, na seção de Obras Raras demonstraram a intimidade de Costa Azevedo com a matéria relacionada a cálculo. O documento datado década de 1830 tratava da explicação de Cálculo Diferencial de la Caille, por José da Costa Azevedo, conforme apresenta a Imagem 6.

IMAGEM 6 – ‘Cálculo Diferencial de La Caille’ explicado por José da Costa Azevedo

Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Divisão de Manuscritos (1-47,09,010).

Como registro dessa atuação do primeiro diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro, Nogueira (1938, p. 38) apresentou o termo de admissão lavrado do próprio pu- nho de José da Costa Azevedo assinando a matrícula da admissão do primeiro aluno, em 1835, dentre os 21 alunos matriculados.

Para além dessa função de diretor da Escola Normal, fiscal dos professores que foram sendo admitidos na escola, cidadão habilitado para formar através da instrução

primária, Costa Azevedo atuou na produção de impresso pedagógico. Esse termo será utilizado de acordo com a conceituação de Antonio Batista e Ana Maria Galvão (2009). Nogueira (1938) registrou a solicitação em que o presidente da província Paulino Soares de Souza mandou distribuir para os alunos da Escola Normal e para todos os professores da província o Manual do Professor Primário, escrito por um francês e tra- duzido por Costa Azevedo.

O documento (b), mostra o cálculo da despesa da impressão e enca- dernação de uma obra, (*) que o Tenente Coronel Costa Azevedo se propõe traduzir para uso da Escola; à da impressão de suas lições de Aritmética e Gramática da Língua Nacional aos discípulos dela; e o que pode custar a gravura e estampa dos quadros de caligrafia (NO- GUEIRA, 1938, p. 37-8).

IMAGEM 7 – Autógrafo da 1a matrícula na E. Normal cuja letra é de Costa Azevedo

Fonte: NOGUEIRA (1838, p. 38).

Para além da tradução de obras francesas, Costa Azevedo produziu um material para as lições da instrução elementar, denominado Lições de ler, conforme mostra a Imagem 8, dedicado às suas filhas Maria Joanna e Maria Julia e composto de 52 lições para a alfabetização das crianças.

Tal material foi adotado pela Sociedade da Instrução Elementar42 do Rio de Ja- neiro e colocado em prática na Escola dessa Sociedade, na qual Costa Azevedo era di- retor.

A segunda Sociedade de Instrução que temos a falar, como uma das mais interessantes, é a Sociedade de Instrução elementar (...) O método que ela tem adotado, é do atual Diretor o Sr. José da Costa Azevedo; e é a este método, e a esta sábia Direção, a quem se deve a justa celebri- dade de que já goza esta Aula; e quem quiser pôr-se melhor ao fato da excelência deste método pode consultar os Mapas estatísticos desta Es- cola, publicados pelo seu Diretor (CORREIO OFFICIAL, 1836, edição 81).

IMAGEM 8 – Capa do impresso Lições de ler de autoria de Costa Azevedo

Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Obras Gerais (IV-132,3,44).

A notícia impressa no Correio Oficial do Rio de Janeiro aponta a existência de mapas estatísticos adotados no Colégio de Instrução Elementar, presidido por Costa Azevedo. Desses Mapas Estatísticos, foram localizados o oitavo e o nono mapas, apre- sentados ao Conselho da Associação, em 1835.

42 A Sociedade presidia o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido na rua do Lavradio, 17. As

disciplinas lecionadas da instrução primária compreendiam “leitura e ortografia, caligrafia, noções de ideologia e de gramática geral, aritmética, religião do Estado”; a instrução elementar compreendia “álgebra e geometria elementar, geografia e cronologia, história universal, noções de retórica e de poética, filosofia, escrituração mercantil: a língua latina, a grega, a francesa, a inglesa, e a alemã: dança, música e desenho” (ALMANAK, 1847, p. 266).

Tais mapas têm informações sobre o cotidiano da Escola da Sociedade de Ins- trução Elementar do Rio de Janeiro. Essa Sociedade foi citada na matéria veiculada no jornal A Aurora Fluminense43.

Temos já Colégios organizados com um bom sistema e aonde se pro- porcionam aos meninos toda as disciplinas liberais. Mas a maior parte das escolas do ensino primário acham-se ainda num estado de atraso que nos injuria e pode dizer-se que pouco ou nada se tem curado do aperfeiçoamento dos métodos. A este respeito, é com um verdadeiro sentimento de gratidão que temos de falar nos desvelos e ilustração com que o Sr. José da Costa Azevedo presidiu a Escola da Sociedade de Instrução Elementar no Rio de Janeiro, e dirige hoje a Escola Nor- mal da província, na Cidade de Nitherói. Se são exatas as informações que temos de pessoas sisudas, desejaríamos que os nossos mestres do ensino primário fossem uma vez por outra visitar aquele estabeleci- mento, e ali aprendessem a afastar-se dos defeitos da nossa velha ro- tina (A Aurora Fluminense. Rio de Janeiro, quarta feira, 16 de dezem- bro de 1835, n.1132).

A Imagem 9 apresenta a capa do oitavo e nono Mappas Estatisticos da Escola da Sociedade de Instrucção Elementar do Rio de Janeiro, de autoria do professor José da Costa Azevedo e editado pela Tiprografia Nacional no ano de 1837.

IMAGEM 9 - Oitavo e nono ‘Mapas Estatístico da Escola da Sociedade da Instrucção Elementar do Rio de Janeiro’

Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Seção de obras gerais (V.261, 1, 1, N-7 e 8).

43 Segundo Patroclo (2014), o jornal A Aurora Fluminense, fundado em 1827, tinha uma postura crítica

As imagens 10 e 11 apresentam listas de despesas com materiais para a Escola Normal de Niterói nos anos de 1839 e 1840, e ainda a despesa com o pagamento do diretor José da Costa Azevedo. Por meio da análise dessa tabela, surge o seguinte questionamento: Os 12 exemplares das Lições de ler e os 12 Mapas estatísticos solicitados e que constaram como despesas no relatório do presidente de província do Rio de Janeiro (1839) referiam-se aos escritos de Costa Azevedo?

A Sociedade da Instrução do Rio de Janeiro teve seu trabalho elogiado em relatório oficial, sendo destacada como “sociedade onde se acham reunidas todas as capacidades literárias do país, trabalhando há mais de 10 anos para melhorar a forma do ensino, e seu sistema deverá, por ordem superior, ser adotado como modelo para todas as escolas” (RIO DE JANEIRO, Relatório da Instrução Pública, 1854, p. 40).

IMAGEM 10 – Solicitação de materiais para a Escola Normal de Niterói (1839-1840)

Fonte: Rio de Janeiro, Relatório do presidente da Província (1839).

No Oitavo Mappa Estatistico da Escola da Sociedade de Instrucção Elementar do Rio de Janeiro estavam apresentadas as despesas financeiras que a escola teve desde o dia do seu estabelecimento até outubro de 1835, contando a impressão de 544

diferentes números dos Mapas Estatísticos para circulação, dentre outros inúmeros materiais como traslados, livros etc.

Supõe-se que esses mapas eram utilizados na formação de professores quando faziam uso das Lições de ler propostas por Costa Azevedo e na Escola da Sociedade de Instrucção Elementar do Rio de Janeiro porque, pela análise limitada do oitavo e nono volumes, se observa um detalhamento de disciplina do corpo docente e discente, pres- tação de contas da Sociedade, e o passo a passo das lições propostas em sua obra.

Os oitavo e nono mapas, publicados em 1835, apresentavam lições de caligrafia e ortografia. Supõe-se tratar de um acréscimo ao impresso Lições de ler, publicado em 1832, e que estava restrito às lições de leitura.

Os impressos de Costa Azevedo como as Lições de ler e Mapas Estatísticos não circularam somente na Escola da Sociedade de Instrucção Elementar do Rio de Janeiro. Nogueira (1938) apresentou a circulação desses impressos em um educandário particu- lar, com a dotação orçamentária do ano de 1839-1840, na qual estavam discriminadas as despesas, incluindo a aquisição de Lições de ler e os tais Mapas Estatísticos. Eram as fontes necessárias na pesquisa para indicar uma possibilidade de circulação dos ma- teriais escritos por Costa Azevedo.

Funcionava o educandário em casa particular, e a dotação orçamentá- ria atinente ao exercício de 1839-1840 prescrevia: 36$000 anuais, ou sejam 30$000 mensais de aluguel; consertos e reparos de utensílios, 50$000; doze exemplares das Lições de Leitura, 12$000; doze das Li- ções de ler, 7$000; doze dos Mapas Estatísticos, de Costa Azevedo, 42$000 (...) (NOGUEIRA, 1938, p. 43).

A gratidão registrada no jornal ao trabalho de Costa Azevedo é justificada quando se verifica o nome de um dos fundadores do jornal, Francisco Crispiniano Val- detaro, o mesmo que faria António Castilho “perder a cabeça em duas lições” (CAS- TELO-BRANCO, 1975). Tratava-se de um republicano, antilusófono e defensor do mé- todo analítico enaltecedor do trabalho de seu companheiro. Na descrição de Nogueira (1938), observa-se a recusa de Costa Azevedo por convites imperiais.

Conta-se que nunca estivera nos paços imperiais, a despeito de sua prosápia social e de D. Pedro II por vezes assistir-lhe às lições e de o reputar individualidade de larga erudição. E apesar de jamais em par- tidos políticos ou em pleitos eleitorais se envolver, ofereceram-lhe al- tas funções no Império (NOGUEIRA, 1938, p. 28).

IMAGEM 11 – Despesas com a Escola da Sociedade da Instrucção Elementar do Rio de Janeiro apresentada no Oitavo Mapa Estatístico

Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – Seção de obras gerais (V.261, 1, 1, N-7 e 8).

Pensando nessa disputa entre os métodos de ensino, analisou-se que a grande discussão entre os dois métodos de matrizes analítica e sintética não era explicada estritamente por razões didáticas, sendo acrescida de conflitos políticos que tiveram início ainda no primeiro reinado, passando pelo período regencial e pelo segundo reinado no Império brasileiro.

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