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Antecipando a Geração de 70, em que os “conflitos políticos que começaram nos últimos anos da década de 1870 e se estenderam até o início do século XX” (BITTENCOURT, 2004, p. 484) foram travados entre defensores dos métodos sintético ou analítico no ensino da leitura, as querelas entre o português António Castilho e os brasileiros Valdetaro e Costa Azevedo, na década de 1850, e ainda entre Alencar e José Castilho, na década de 1860, estavam marcadas por posicionamentos políticos que se misturavam às questões metodológicas do ensino da leitura, da escrita e do projeto de constituição de uma língua.

Segundo Bittencourt (2004), no final do Império encontravam-se mais conceitualmente definidos os seguidores do método analítico para a alfabetização, em oposição ao usual método sintético, representando a posição dos grupos de educadores defensores de uma escola laica. Os seguidores do método analítico eram, em sua maioria, republicanos, com o discurso voltado para uma democratização do saber escolar e, contrários ao espírito tradicional de educação, cujo ensino era calcado em métodos da Igreja.

Tal debate, que englobava um caráter pedagógico da metodologia da alfabetização entre o espírito tradicional da educação contrário ao espírito de democratização política que caminharia entre a “república dos sábios” (BOTO, 2012, p. 71) e que foi demarcado na história da educação brasileira no final do Império, compareceu nas décadas de 1850 e 1860 nas representações dos intelectuais que atuavam na instrução pública brasileira. A oposição a Castilho em solo brasileiro em 1855 passou pela defesa da consolidação de um projeto de independência de Portugal, uma filiação a outras matrizes como a francesa e ainda pela circulação de ideais que fomentavam um espírito republicano.

Os desdobramentos da veneração que o poeta português dedicou a D. Pedro I desde o período do miguelismo em Portugal, na década de 1820, com sua filiação partidária acérrima ao regime liberal constitucional cartista português, levaram a embates com os republicanos Costa Azevedo e Francisco Crispiniano Valdetaro. Castilho era em território português um monárquico ligado à Carta Constitucional, porém era um opositor ao constitucionalismo brasileiro por defender a volta do Imperador.

Após a abdicação de D. Pedro I, em 1831, os irmãos Castilho tornaram-se adeptos do movimento da Restauração, momento em que José Feliciano de Castilho redigiu um jornal cartista denominado A Restauração (1842-1846). Os restauradores

Castilho declararam-se partidários de D. Pedro I do Brasil e, apesar de serem constitucionalistas em terreno português, na política brasileira, tornaram-se oposicionistas ao liberalismo em suas faces moderadas e exaltadas, por colarem-se à figura de um imperador após sua abdicação em 1831 e por defender a sucessão do trono a D. Pedro II do Brasil após a morte de seu pai em 1834.

Segundo descrito nas Memórias de Castilho, o poeta português destinava uma espécie de fascinação a D. Pedro I do Brasil, para os cartistas o Libertador, e defendia que seu filho D. Pedro II deveria assumir “pela força incontestável da hereditariedade, um prestígio não menos singular” (CASTILHO, 1896, v.43, p. 630).

A partir dos estudos de Guimarães (2014), observa-se uma dicotomia entre o conceito de Reustauração em territórios português e brasileiro; enquanto na ex-colônia o termo restauradores era utilizado para designar àqueles que defendiam a volta do estatuto colonial e de “um ethos político ligado ao ‘Antigo regime', já em Portugal, indicava os partidários do liberalismo e da carta constitucional” (GONÇALVES, 2012:43).

Se no Brasil os restauradores ao defenderem a volta do Imperador são colocados em oposição ao constitucionalismo, D. Pedro, em Portugal, é visto como figura central da luta constitucional. Assim esclarece: Após o “7 de Abril”, esses setores serão vistos como defensores do retorno do Primeiro Imperador, o que significava opor-se ao liberalismo e ao constitucionalismo. O mesmo Imperador que em Portugal, já como D. Pedro IV, enfrentará uma guerra civil para que um regime constitucional fosse vitorioso e o absolutismo extirpado em definitivo. (GONÇALVES, 2012, p. 43)

Dessa forma, D. Pedro I representava para os liberais brasileiros o retrocesso diante das conquistas liberais e de seus atos vistos como despóticos, enquanto em Portugal era considerado figura central da luta constitucional contra seu irmão D. Miguel. Nesse momento de instabilidade de um Brasil recém-independente, que engendrava diferentes propostas de organização de Estado, liberais exaltados44, moderados e caramurus deixaram registrados, dentre outras fontes, nas páginas do periódico A Aurora Fluminense, seus ataques e defesas.

44 Ao citar a distinção feita por Paulo Pereira de Castro entre dois grupos na facção política denominada

“liberal exaltada”, Guimarães (2013) afirma que os “liberais puros” como seguidores das ideias de Thomas Jefferson, como Borges da Fonseca e Teófilo Otoni, e os “agitadores”, a exemplo de Cipriano Barata e Ezequiel Dias Correia que, “tocando nos ressentimentos ‘de classe e de raça’, apontavam para a instituição de uma nova ordem social no país” (GUIMARÃES, 2013, p. 106).

A oposição a D. Pedro I, feita por esse periódico, é desenvolvida através do compromisso moderado. Na perspectiva d’Aurora, as recentes experiências mostravam que “não é assassinando e matando, que as doutrinas da liberdade têm feito a conquista do mundo civilizado”. O curso de ação que o periódico escolhia mostra a defesa dos moderados pelo justo meio, princípio aristotélico, utilizado pelos doutrinários franceses da Restauração (GUIMARÃES, TESE, p. 40).

O periódico A Aurora Fluminense foi fundado pelo médico Francisco Crispiniano Valdetaro (1805-1862), com José Apolinário Pereira de Morais e José Francisco Xavier Sigaud que atuou como revisor no primeiro periódico médico brasileiro, em 1827.

Dr. José Francisco Xavier Sigaud foi responsável pela fundação do primeiro periódico médico brasileiro em 1827, que ostentava o extenso título de “O Propagador das Sciencias Medicas ou Anaes de Medicina”, Fundou o jornal da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, intitulado “O Semanário de Saúde Pública”, lançado em 3 de janeiro de 1831, do qual foi o editor até 1835. Em 1835, aliou-se novamente a seu amigo Plancher para editar o “Diario de Saude ou Ephemerides das sciencias medicas e naturaes do Brazil”, que existiu até 1836 – tendo como companheiros de redação o médico Francisco de Paula Cândido e Francisco Crispiniano Valdetaro, médico e professor das princesas filhas de D. Pedro II (Site da Academia Nacional de Medicina45).

Evaristo da Veiga comprou o jornal A Aurora Fluminense de Valdetaro e passou a ser seu editor, e como adepto do liberalismo em sua face moderadora, segundo Guimarães (2013), em seus discursos políticos encontravam-se presentes a antinomia moderação/radicalização há um bom tempo, apresentando inclusive uma fala reparadora no contexto das crises de 1829 entre D. Pedro I e o Poder Legislativo. O periódico A Aurora Fluminense combatia os ministros e o projeto político de D. Pedro I.

Nada de jacobinismo de qualquer que seja a cor. Nada de excessos. A linha está traçada: é a da Constituição que se jurou no dia 25 de março. Nada de alterações que a desfigurem e lhe façam perder a virgindade [...] Os verdadeiros moderados são aqueles que detestam toda a espécie de excessos, toda a espécie de tirania ou de jacobinismo que ela esteja nas mãos de um ou na de muitos (AURORA FLUMINENSE46, 1829, apud GUIMARÃES, 2013, p. 113-114).

Dessa forma, segundo Guimarães (2013), os liberais moderados temiam o

45 Disponível em: <http://www.anm.org.br/conteudo_view.asp?id=484>. Acesso em: 29 out. 2016. 46 Aurora Fluminense, n.276. Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1829.

retorno do autoritarismo do antigo monarca, porém, para segurar com firmeza as rédeas políticas, propunham novos mecanismos de controle social reconhecendo o aprimoramento das instituições pela via da reforma de modo gradual e em um ritmo marcado pelas próprias circunstâncias históricas que o Brasil se encontrava. Tornava-se necessário entre os liberais moderados “preservar dentro das condições da modernidade as velhas opiniões e as antigas regras de vida que havia permitido o desabrochar da civilização e dos costumes” (BURKE47, 1833, p. 40 apud GUIMARÃES, 2013, p. 120). As querelas entre os moderados e os restauradores adentraram os periódicos brasileiros. Segundo Guimarães (2013), no início de 1832 os restauradores começaram a se reorganizar fundando a Sociedade Conservadora e também o jornal O Caramuru. Observa-se na edição de 1832 a defesa política por parte dos caramurus da restauração do trono de D. Pedro II após a morte de seu pai, tecendo críticas aos moderados da Arurora fluminense que vislumbravam projetos denunciados pelos caramurus como republicanos.

Quanto ao arrancar o Sceptro ao Imperador: nessa parte é menor o crime de restauradores, do que dos federalistas de má fé como a Aurora: aqueles, revocando o ex Imperador davam ao Sr. D. Pedro II o direito de suceder, por morte de seu Augusto Pai, no Trono do Brasil; estes preparam Repúblicas miseráveis, ou Ditaduras tirânicas que arrancarão o Sceptro ao Imperador por uma vez, então lhe dariam o projetado pontapé com que um deles se expressou! (O CARAMURU, 1832, p. 5).

Segundo Silva (2012), o periódico A Aurora Fluminense colocou-se como folha da oposição, combatendo as práticas absolutistas do governo, assim como todas as formas de opressão, costumes e ideias ligadas a tal postura política. No momento do golpe miguelista no cenário português, o periódico adotou uma postura de vigilância do sistema implantado com a Carta de 1824, defensora de reformas em todos os campos da vida social, em conformidade com ele próprio.

47 Edmund Burke. Reflexions sur la révolution de France. Paris: Hachette, 1989, p. XIII (Colection

Se a força do absolutismo ainda se fazia sentir, como na dissolução da Constituinte de 1823, nem por isso, amedrontou os liberais presentes na imprensa e na Assembléia Geral Legislativa, reaberta em 1826. Se os absolutistas, mais próximos de D. Pedro I estavam no poder, não exerceram o domínio total em virtude da onda libertadora, que pedia contas de seus atos (SILVA, 2012, p. 43).

Com Valdetaro à frente desse periódico, comparecia o sentimento antilusitano a partir do combate aos despotismos diversos e “denúncias às medidas arbitrárias, ilegais e, portanto, despóticas, dos ministérios de D. Pedro I” (SILVA, 2012, p. 80). O sentimento de veneração que Castilho dedicava a D. Pedro I do Brasil, considerando-o o Libertador em períodos sombrios do terrorismo miguelista, e seu apoio ao movimento cartista, que culminou na interrupção do golpe de D. Miguel, não eram compartilhados pelos brasileiros que se tornaram vigilantes contra qualquer tentativa de recolonização.

A Aurora Fluminense criticou a intromissão do governo brasileiro no período miguelista português, principalmente na política de auxílio aos emigrados, pois para os editores liberais moderados o perigo de uma recolonização era latente.

A Aurora criticava, sobretudo, as grandes somas despendidas com o auxílio aos emigrados liberais portugueses, censurando o ministro responsável, Sr. Itabaiana, por agir “contra a Lei do Orçamento, que lhe marca todas as cotas para o dispêndio anual e o seu objeto” e era confeccionada na Câmara dos Deputados. Alegava ainda, ser importuna a vinda de refugiados portugueses para engrossarem as fileiras brasileiras, pois o “ferimento de divisões”, que daí se seguiria, acordaria “ódios e desconfianças mal extintas”. Os ódios e desconfianças mal extintas referiam-se ao receio da recolonização do Brasil por Portugal. Ribeiro analisou os conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado e identificou no final de 1822, uma incerteza com relação à concretude da independência proclamada por D. Pedro e ao mesmo tempo, a constituição dos portugueses em inimigos, que seriam taxados de absolutistas e tirânicos (SILVA, 2012, p. 37).

Os editores do periódico A Aurora Fluminense conceituraram os restauradores caramurus como antirrevolucionários, implantando em seus leitores o receio de esses sujeitos, como inimigos da nação brasileira, virem buscar estabelecer a ordem anterior à abdicação.

A Aurora Fluminense parecia não ter dúvidas de que os caramurus sustentavam um projeto restaurador. Para os moderados, os agentes de D. Pedro desejavam voltar à condição anterior ao “7 de Abril” para reaver seus privilégios. Os caramurus também foram apelidados pela Aurora de “antirrevolucionários”, devido à crítica que faziam da Abdicação, e foram até mesmo nomeados de “recolonizadores”. Com essa última denominação, o periódico formulava a memória do português colonizador e despótico, sendo seu exemplo maior D. Pedro I. A imagem política do português “inimigo da Nação” também foi construída no interior das críticas aos restauradores feitas pela Aurora. As críticas mais incisivas partiram do grupo exaltado, mas podemos encontrá-las no periódico moderado (SILVA, 2012, p. 80).

Para os moderados, o principal objetivo dos restauradores era o retorno ao absolutismo, chegando a ser comparados em suas estratégias com os miguelistas. O periódico A Aurora Fluminense registrou tal semelhança a partir de “uma generalização capaz de enquadrar todos aqueles que aderiam às correntes conservadoras a uma suposição comum: todos defenderiam o retorno dos excessos do passado, como o despotismo exercido por um monarca ilegítimo” (SILVA, 2012, p. 84).

A autobiografia de Christiano Benedicto Ottoni, declarado inimigo da instituição monárquica, foi elaborada em 1870 e editada pelo Senado Federal brasileiro no ano de 2014, e apresentava o cenário da aliança política entre os vencedores moderados ou monarquistas e os exaltados ou democratas no ato da abdicação em 1831, bem como suas alianças em 1834 no combate aos desejos da restauração de D. Pedro I. Segundo o autor, os moderados, “que se mostravam tíbios quanto a reformas da Constituição, vendo erguer-se um partido que abertamente pleiteava a restauração de D. Pedro I, assustados, se fizeram um pouco mais democratas, afagavam os exaltados e os chamavam em auxílio da situação” (OTTONI, 2014, p. 47).

A radicalização dessa aliança alterou-se após a morte de D. Pedro I, alterando a cisão entre liberais moderados e exaltados.

Morto D. Pedro I tudo aqui começou a barulhar-se, e a reação contra as conquistas liberais recrutou logo bons contiguentes: 1º) toda a gente da restauração que perdera o objeto; 2º) todos os corcundas que se tinham unido aos moderados e não subiram postos; 3º) todos os descontentes por qualquer motivo (OTTONI, 2014, p. 67).

Mattos (1994) incluiu o nome de Teófilo Ottoni, irmão de Benedicto Ottoni, na lista dos progressistas ou liberais que travaram acirradas discussões com os arautos da nova orientação regressista. Para Mattos, os irmãos Ottoni opunham-se aos detentores

de uma força “formada embora por velhas figuras, em parte — ao declarar que fora liberal, e que agora tornava-se regressista para poder melhor servir à sociedade que corria risco ‘pela desorganização e pela anarquia’”. (MATTOS, 1994, p. 132).

Mattos conceitua como tempo saquarema esse estado de conservadores fluminenses que buscavam efetivar proposições regressistas, comandadas pela trindade saquarema, que “constituiria o núcleo do grupo que deu forma e expressão à força que, entre os últimos anos do Período Regencial e o renascer liberal dos anos sessenta, não só alterou os rumos da ‘Ação’ mas sobretudo imprimiu o tom e definiu o conteúdo do Estado imperial” (MATTOS, 1994, p. 102).

Os irmãos Ottoni lutaram contra o perigo iminente da força reacionária que visava “endeusar o imperador, curvar-se a todos os seus caprichos para conservar indefinidamente as lantejoulas do poder” (OTTONI, 2014, p. 67) com os radicais que vislumbravam o projeto republicano “para quem a monarquia constitucional (…) tinha de ser uma espécie de ‘república’” (SILVA, 2014, p. 32).

Ao lado dos irmãos Ottoni, José de Alencar foi considerado progressista por denunciar a “presença ainda avassaladora do elemento português, visto como absolutista e recolonizador, e que emprestava o colorido a ‘Restauração dos Saquaremas’” (MATTOS, 1994, p. 132).

Nesse contexto de alianças, Mattos (1994) apresenta a diferenciação entre os projetos liberais que se empenharam tanto em marcar sua diferença com relação aos regressistas quanto em dissociar o princípio democrático do conteúdo republicano. “Moderados ou modernos, uns; exaltados ou antigos, outros. A presença da plebe desunia os exaltados, pois a associação entre Liberdade e Igualdade entre os homens livres tornava tênues os limites entre a Revolução de cunho republicano e a Desordem” (MATTOS, 1994, p. 128).

Havia também entre os exaltados alguns movimentos que procuravam

aproveitar em benefício de suas posições as pressões que a plebe exercia sobre a já mencionada tênue linha que limitava a Liberdade, propondo medidas logo consideradas “revolucionárias” e de “fundo anárquico”, como o plano do Grande Fateusim Nacional. Por isso mesmo, mais do que Exaltados, eram vistos como Republicanos (MATTOS, 1994, p. 129).

parte a “trindade saquarema” deram “forma aos três mundos e empenharam-se em conservá-los, ao empenhar seus ideais e suas forças na ‘consolidação monárquica’” (MATTOS, 1994, p. 118). Esses fundadores e consolidadores tinham “os olhos na Europa e os pés na América — eis o segredo da trajetória de individuação de uma classe, e, que se revestia da forma de construção de um ‘Corpo político’ soberano” (MATTOS, 1994, p. 119).

Pensando na “construção da Teia com os fios da civilização” (MATTOS, 1994, p. 259), os que dominavam e pretendiam dirigir o Império brasileiro lançavam as bases para, ao lado de medidas estritamente políticas, criarem imagens,

logo traduzidas em ações, objetivando a preservação da coesão de seu conteúdo — um território unificado, num contintente sem comoções, a sua continuidade — na figura do imperador, e na coexistência fraterna dos seus elementos constitutivos — a misciegenação e a confraternização racial” (MATTOS, 1994, p. 120-121).

Norbert Elias (1993) utiliza-se do termo configuração para referir-se à formação social baseada na interdependência entre os indivíduos. Cada ação individual dependeria de uma série de outras, que por sua vez modificariam a própria figura do grupo social. Elias demonstra que a estrutura do comportamento civilizado está inter-relacionada com a organização social, sob a forma de Estado, a qual determina uma profunda evolução no sentimento de vergonha e de constrangimento, exigido para a convivência social.

A construção de um Estado brasileiro passava pela elaboração de uma teia tecida com os fios da civilização e da interdependência entre os indivíduos, em uma lógica em que muitos eram deixados “de fora”.

Uma lógica que deixava “de fora” aqueles que construíram esse tempo, como condição essencial para que a sociedade buscasse numa “ordem natural” a resposta à questão que formulara sobre a sua instituição e trajetória. Assim, quanto mais os Saquaremas transoformavam suas intenções em ações, tanto mais deveriam ser entendidas como naturais as diferenças e hierarquias entre os homens livres (MATTOS, 1994, p. 273).

Defensores de D. Pedro I desde sua luta contra seu irmão Miguel, chegando a ter vários de sua família exilados, passando pelas defesas de restauração de D. Pedro I e mostrando proximidade e admiração a D. Pedro II no Império brasileiro, os irmãos Castilho colaram-se à monarquia criticando os republicanos brasileiros. Ao retratar os

conflitos do segundo reinado, que culminaram na queda da monarquia constitucional pela proclamação da República, as Memórias de Castilho descreveu a indignação com o destino de D. Pedro II: “Ninguém ousará insinuar que o senhor D. Pedro II deixasse, um momento sequer, de cumprir os seus deveres paternais de Imperador zeloso. Insurgir-se, pois contra ele, desrespeitá-lo, exilá-lo, foi parricídio pra que não há perdão” (CASTILHO, 1902, v.49, p. 177).

Defendendo a permanência do poder nas mãos de D. Pedro II, afirmaram que apesar de cada nação ter o direito indiscutível de se reger como melhor entender, nenhuma sociedade pode “vilipendiar os seus dirigentes, quando eles são, como foi sempre o senhor D. Pedro II, mantenedores leais e dedicados dos altos ditames do Direito público, protetores do trabalho, magistrado cultos e de boa-fé, servidores, numa palavra, do Povo entre quem nasceram” (CASTILHO, 1902, v.49, p. 175). Ainda na defesa da restauração, reclamam que

os sublevados brasileiros, não só calcaram aos pés, sem melindre e sem pudor, os princípios mais sagraços, não só atraiçoaram seus juramentos à Monarquia, mas pela insólita e desbragada maneira, mataram o elemento monárquico, e assassinaram o Imperador” (CASTILHO, 1902, v.49, p. 175).

Nas Memórias de Castilho, Júlio defende as acusações que seu pai António Castiho recebia devido à amizade com D. Pedro II. Para ele, não se tratava de adulações, afirmando que “Castiho em nada dependeu nunca de Sua Majestade; o Imperador recebeu a dedicatória do Camões, e fez a Castilho Oficial da Ordem da Rosa; nada mais; fê-lo Grã-Cruz e Castiho declinou essa honra” (CASTILHO, 1900, v.47, p. 164). Ainda no relato é destacado que o imperador mostrava-se amigo de literatos em geral, porém distinguira Castilho com provas específicas e inequívocas de apreço (CASTILHO, 1902, v.49, p. 57).

Segundo os pormenores dados por José Feliciano de Castilho, e registrados nas Memórias de Castilho, em sua estada no Brasil, António Castilho encontrou-se com o seu admirável D. Pedro II, em 1855.

Conversou muito aquele ilustrado Príncipe com o poeta e seu irmão, pediu muitas notícias de Portugal, interessou-se em saber o que

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