A noção de que existiriam determinados grupos sociais que compartilham valores diversos daqueles socialmente aceitos, motivou pesquisas que permitiriam o desenvolvimento de um novo olhar acerca da criminalidade. Aos poucos foram surgindo correntes teóricas que buscaram na cultura a explicação para o comportamento criminoso do indivíduo.
Na década de 50, desenvolveu-se, ainda em um contexto de urbanização, outra corrente que ao criar o contraste entre o gueto e as áreas residenciais dos colarinhos brancos e dos homens de negócio, colocou em crise a ideologia igualitária no plano material. Por se tornar claro que a classe condiciona o acesso à cultura, a igualdade no nível da cultura foi posta em questão, tornando a subcultura o tema central dessa nova corrente da sociologia criminal (DIAS & ANDRADE, 1992).
Considerada no viés da criminologia culturalista, a teoria da subcultura delinquente tem como principal expoente Albert Cohen. Ele identificou a presença de subculturas criminosas nos agrupamentos juvenis conhecidos como gangs, fornecendo a versão mais completa de uma teoria culturalista da delinquência. A teoria surgiu nos Estados Unidos, procurando responder aos problemas que emergiam das minorias da sociedade (COHEN, 1987; DIAS & ANDRADE, 1992).
Cohen concebe como uma gang aqueles grupos de adolescentes e jovens nos quais havia certa organização hierárquica, uma estabilidade temporal, ou seja, o grupo não era apenas uma reunião espontânea de um aglomerado de pessoas, além de existir determinadas formas para a admissão – ritos de passagem, dentre outros. Cohen entendia a subcultura delinquente como a resposta coletiva da gang juvenil à frustração em matéria de status. A denominada subcultura criminosa presente nestes grupos juvenis era tratada como um conjunto de códigos compartilhados que surgiam da interação entre determinados jovens que passavam por situações sociais parecidos. Ou seja, segundo essa corrente, o delito resulta da interiorização e da obediência a um código moral ou cultural que torna a delinquência dominadora, da mesma forma que acontece com o comportamento dentro da lei – a delinquência seria a adesão a um sistema de crenças e valores (AZEVEDO, 2000).
A formação grupal seria creditada ao papel exercido pelo agrupamento como uma resolução para problemas de adaptação vividos pelos adolescentes diante de uma cultura dominante. Dessa maneira, os grupos desprivilegiados utilizavam outras formas para suas metas, visto que os meios convencionais não estavam à disposição e, com isso, torna-se visível um recorte de classe, já que a formação coletiva baseava-se em um modelo de
estratificação social, o que é inovador em relação às perspectivas da ecologia criminal e da investigando a delinquência de adolescentes e jovens das classes baixas, conclui que a integração do jovem a uma cultura delinquente se dá em função de não conseguir o que almeja por vias legais (DIAS & ANDRADE,1992).
Segundo Azevedo (2000), esse conflito cultural dá-se quando o adolescente e jovem se identifica com aspectos da classe média – eficiência, responsabilidade individual, racionalidade, poupança, emprego do tempo livre e, ao mesmo tempo, interioriza os valores da classe a que pertence – força física e coletivismo. Vale considerar, reforçando o enfoque de classe dessa perspectiva, como Cohen analisa a diferença entre os adolescentes e jovens das classes populares e médias, mostrando como efetivamente pode ocorrer o reconhecimento da classe média pela classe popular por meio da escola, considerando que são entre elas que os contrastes e as diferenças se tornam maiores, pelo fato de se espelharem na ideologia democratizante e meritocrática da sociedade.
Na sua obra Delinquente Boys: the Culture of the Gang, Cohen toma como norte o jovem masculino, oriundos de famílias proletárias, em uma sociedade patriarcal, como responsável pelo provimento dos meios necessários à sobrevivência da família. Ainda, descreve as características das gangs juvenis podendo ser expressivos ou não utilitários – quando o crime não envolvesse a aquisição de um bem economicamente inalcançável pelos meios legítimos, produzindo, no entanto, prazer em sua simples prática ou, ainda, como um teste ou no intuito de adquirir a respeitabilidade junto ao grupo; maliciosos – crimes como simples perturbações à ordem moral alheia; negativistas – condutas criminosas praticadas simplesmente para violar a cultura geral dominante ou hegemônica; variáveis – quando não fosse possível identificar uma certa prática delitiva perpetrada por aquele grupo de jovens; hedonistas – quando o crime é praticado como mera resposta a um determinado estímulo ou por mero impulso; constitutivos da autonomia do grupo – quando serviam para reforçar a autonomia, independência ou identidade do grupo relativamente a outros grupos de jovens ou às instituições representativas da cultura dominante como a escola, a família, igreja, etc (COHEN, 1987; DIAS & ANDRADE, 1992).
Ainda, para Cohen, a escola abre-se a todos, e nela todos são avaliados conforme os padrões estabelecidos. Simplesmente, os filhos da classe média sofrem a socialização e interação escolar como um prolongamento da sua educação familiar; por outro lado, para os adolescentes das classes trabalhadoras a aculturação na escola implica a desaculturação da sua socialização familiar, os critérios de seleção e distribuição de status, manipulados pelos professores, são critérios da classe média (AZEVEDO, 2000).
Além disso, Albert Cohen destaca três alternativas para o adolescente frente ao conflito com a cultura geral. Primeiramente, o jovem pode superar-se – ou seja, buscar formas socialmente compartilhadas, por meio de sacrifícios e de uma competição que saberia injusta; conformar-se com sua condição – seguindo os mesmos passos de sua família e conformando- se em ser um jovem trabalhador; ou, ainda, encontrar abrigo e apoio do agrupamento juvenil – por meio da renúncia à cultura geral e à convivência em um grupo que a despreza, vivendo com regras opostas à da maioria das pessoas (DIAS e ANDRADE, 1992).