MEDIATION PENALE ET POLITIQUE CRIMINELLE*
B - LES PROCEDURES
Concluída a classificação dos gráficos cartesianos presentes nos livros didáticos de Química, dedicamo-nos à avaliação das relações estabelecidas entre estes gráficos, suas legendas e os textos principais aos quais se referem, nas obras como um todo e, em particular e com atenção especial:
● aos quatro temas cujos capítulos são referentes aos tópicos mais amplamente ilustrados com gráficos cartesianos nos livros didáticos estudados;
● aos gráficos e temas que poderiam, paradigmaticamente, mostrar as conclusões obtidas de nosso trabalho analítico anterior;
● aos gráficos e temas que geraram interesse especial pela diversidade de abordagens pelos autores.
Como já mencionado, para Eco (1991b), do ponto de vista da Semiótica, gráficos, legendas e texto relacionado são signos diferentes, que interagem entre si. As relações entre tais signos se estabelecem mais fortemente pela introdução, no texto, de índices como “veja o gráfico 5”, ou “gráfico da variação da entalpia ao longo do tempo, ao lado”. Resultados obtidos por pesquisadores da área, como Martins (1997) e Carneiro (1997), indicam a grande importância da presença de referências às representações visuais no texto principal, algo que, segundo estes mesmos pesquisadores, é, muitas vezes, negligenciado pelos autores dos livros. Desta forma, a investigação das condições ou situações em que os gráficos cartesianos surgem nos livros didáticos de Química pode servir de subsídio para a produção de livros que utilizem índices, textos e gráficos que mais favoreçam o aprendizado.
Para a análise semiótica desses gráficos, também fizemos uso de categorias e variáveis que não são facilmente quantificáveis. Belmiro (2000), por exemplo, lembra ser possível classificar as imagens em pelo menos dois tipos: usadas em livros didáticos ou feitas especialmente para os livros. Cada um destes tipos de gráficos possui suas características. As diferenças entre estes dois tipos de gráficos têm origem primeira na recontextualização, ou seja, na reconstrução do discurso científico pelos educadores em Ciências, como discutimos na
Introdução deste trabalho. As conseqüências desta recontextualização nos gráficos também foi
alvo de discussões analíticas.
De Jiménez e Perales (2001) e Perales e Jiménez (2002), observamos os classificadores utilizados na caracterização da função específica desempenhada pelo gráfico de acordo com o texto ao qual se refere. Embora os autores tenham desenvolvido tais classificadores com base na teoria de modelos mentais de Johnson-Laird (1983), é possível perceber uma faceta social em tais classificadores, o que permitiu, ao menos, orientar-nos no processo de avaliação da intenção do autor com o uso de um dado gráfico em comparação com os seus possíveis usos por professores e alunos. São eles: evocação de uma experiência cotidiana; definição de um novo termo em seu contexto teórico; aplicação, que consolida ou estende uma definição; descrição de fatos ou acontecimentos não-cotidianos e não-familiares ao leitor; interpretação de conceitos teóricos para descrever relações; e problematização, que põe à prova as idéias dos alunos e fomenta a curiosidade. Tais classificadores auxiliam na precisa localização de uma imagem em relação à seqüência didática em que aparece a ilustração. Em nosso caso, poucos foram os capítulos em que os gráficos apareceram em abundância tal que cobrissem todas estas funções específicas, o que também evidencia a reserva com que estes classificadores foram utilizados por nós.
Perales e Jiménez (2002), em seu trabalho referenciado pela Análise de Conteúdo, abordada neste trabalho no capítulo Referenciais teóricos, consideram haver seis categorias de
análise para imagens, já mencionadas no item 1.11: função da seqüência didática em que aparecem; iconicidade; funcionalidade; relação com o texto principal; etiquetas verbais, ou seja, textos incluídos nas imagens; conteúdo científico que as sustenta. Embora o referencial dos autores não seja comum com o referencial utilizado por nós, as categorias propostas têm relação direta com o estudo dos sinais, com a Semiótica. Esta lista de categorias nos guiou na análise, de forma a não nos esquecermos de nenhum aspecto semiótico relacionado aos gráficos. A análise apresentada a seguir contempla todas estas categorias.
Nas seções 3.6 e 3.7, foram expostos princípios que regeram a análise semiótica aqui realizada, de Hodge e Kress (1988), Lemke (1990), Duval (1999), Roth, Bowen e Masciotra (2002), entre outros. Agora, vamos tratar de alguns outros aspectos práticos da metodologia da pesquisa, complementando o que já foi exposto naquelas seções.
Como já se mencionou na seção 3.7, Kress e van Leeuwen classificam as representações visuais como narrativas ou conceituais, sendo que estas últimas podem representar processos classificatórios, analíticos ou simbólicos. Os processos analíticos, nos quais haveria um Portador e seus respectivos Atributos Possessivos, e aos quais os gráficos comumente se associam, podem ser classificados como pertencentes a variadas categorias, não necessariamente excludentes. Tais categorias podem ser observadas na Figura 7 a seguir, adaptada do esquema observado na página 107 de Kress e van Leeuwen (1996).
Figura 7 – Estruturas analíticas imagéticas. Reprodução traduzida de Kress e van Leeuwen (1996)
Algumas destas categorias de processos analíticos são destacadas, com suas respectivas descrições. É possível notar que parte delas concordam com as categorias de classificação expostas na seção anterior.
● Processos analíticos não-estruturados: um conjunto não-ordenado de atributos possessivos é interpretado como um conjunto de partes de um todo, sendo que este último não é representado.
● Processos analíticos temporais: um conjunto de atributos possessivos é ordenado em uma linha temporal e interpretado como um conjunto de estágios sucessivos de um processo desdobrado temporalmente.
● Processos analíticos exaustivos: o portador é retratado como se fosse composto por um certo número de atributos possessivos, e a estrutura é interpretada como se mostrasse todas as partes que constituem o inteiro.
● Exatidão topográfica dimensional: o portador e os atributos possessivos de um processo analítico estão dispostos em escala.
● Exatidão topográfica quantitativa: o tamanho dos atributos possessivos em um processo analítico representa precisamente o número ou algum outro atributo quantitativo dos atributos possessivos.
● Exatidão topológica: o portador e os atributos possessivos de um processo analítico não estão dispostos em escala, mas a forma como encontram-se interconectados está descrita com exatidão.
Martins (1997), como já mencionamos, afirma que estas categorias de classificação propostas por Kress e van Leeuwen (1996) formam um conjunto com bom potencial para análises de livros didáticos de Ciências, não por permitir a classificação das estruturas, mas por possibilitar a representação, discussão e exposição das relações conceituais que se estabelecem entre as entidades representadas nos materiais didáticos. Aqui, além de classificar as estruturas segundo descritores adaptados de outros autores que já fizeram uso do referencial sócio- semiótico, como descrito na seção anterior, também discutimos e explicitamos as referidas relações conceituais.
Também já foi dito, embora, aqui, caiba um reforço da citação de Lemke (1990), de que as análises realizadas sob o referencial sócio-semiótico têm base nos próprios registros gravados, e não em conceitos semióticos como os classificadores sugeridos por Kress e van Leeuwen (1996), entre outros. Tais conceitos são apenas abstrações, padrões compartilhados pelas fontes de signos, os quais servem de guia para as análises sócio-semióticas. Isto posto, seguiremos com as análises propriamente ditas.