Nilsa Padilha INSUMOS = R$ 232,50 INSUMOS = R$ 1.140,90 Rancho Mercado Bolsa Família LEITE E QUEIJO = 3.300 litros/ano Feira R$ 5.520,00/ano Frutas 0,4 ha Mandioca + batata doce 0,27 ha Abóbora, feijão, amendoim 0,27 ha Feira e PAA = R$ 1444,72 Autoconsumo = R$ 2.226 Hortaliças 0,1 ha Feira e PAA = R$ 16.618,00 Artesanato e processados venda direta = R$ 2.360,00 INSUMOS = R$ 265,00 Vacas pastagem de inverno 0,27 ha Suplementos e sanidade= R$276,00/ano Trabalho fora da UPA
Parcela de Produção
Produção total (kg) Área (ha) Produtividade (kg/ha) Hortaliças 4700 0,1 47.000 Frutas 640 0,4 1.600 Feijão/amendoim 702 0,27 2.600 Mandioca e batata doce 4185 0,27 15.500
Quadro 02: Produtividade por parcela de produção. Fonte: COPTEC, 2013. Elaborado pelos autores.
A comercialização é feita diretamente pelo agricultor nos condomínios vizinhos ao assentamento por meio de sua carroça, além da venda ao mercado institucional via o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Os itens que compõem os custos de produção são sementes, adubo orgânico (cama de aviário), mão de obra (capinas manuais), serviço mecanizado (hora máquina), ração (vaca e cavalo). Os custos do sistema de produção em questão são considerados baixos se comparados ao montante financeiro gestado pela UPA, conforme pode ser visto na tabela abaixo; o fato se deve, provavelmente, ao sistema tecnológico adotado que está baseado na agroecologia. Nesse sentido, a utilização de insumos é pequena e em grande parte fabricada no próprio lote.
A unidade de produção possui poucos maquinários e equipamentos, a maioria das atividades são manuais e realizadas por mão de obra própria.
Parcela de
produção Itens de custo
Custo de produção (R$/ano)
Hortaliças
horas máquina, horas homem, adubo organico (cama de aviário), semente, substrato para mudas, fertilizante organico, embalagens
622,43
Frutas horas homem, adubo orgânico (cama de aviário),
embalagens 295,47
Feijão/amendoim horas máquina, horas homem, adubo orgânico
(cama de aviário), semente, embalagens 232,46
Mandioca e batata doce
horas máquina, horas homem, adubo orgânico
(cama de aviário) 223,01
Quadro 03: Custos de produção por parcela de produção. Fonte: COPTEC, 2013. Elaborado pelos autores.
Resultados econômicos e análise da UOP
Após a coleta de dados e preenchimento das planilhas, a equipe de ATES realizou operações de cálculos com base no modelo do Valor Agregado. “O valor agregado é uma medida que procura distinguir a geração de bens e serviços da sua distribuição entre os diferentes agentes que participam da produção”. (Neumann e Fialho, 2006). Esse modelo considera o Valor Agregado Líquido (VAL) como a diferença entre a Produção Bruta (PB), o Consumo Intermediário (CI) e a Depreciação (D)20.
A partir do cálculo do VAL pode-se chegar à Renda Agrícola (RA) do agricultor, bem como a Renda Total (RT). A RA é a diferença entre o VAL e a Distribuição do Valor Agregado (DVA)21. O VAL é a riqueza gerada pela UPA, no entanto, nem toda riqueza é apropriada pelos agricultores, uma parte é distribuída no pagamento de juros, impostos, arrendamento (quando é o caso). A produtividade do trabalho é expressa pelo coeficiente do VAL e a Unidade de Trabalho Humano (UTH).
A partir do modelo do Valor Agregado é possível determinar a eficiência técnica do sistema através do coeficiente do VAL e a superfície de área útil (SAU), ou seja, pode-se chegar a produtividade técnica do sistema.
O valor da UTH da UPA em questão foi de 1,5, de acordo com as informações da família, o esposo dedica cem por cento do seu tempo para a atividade agrícola enquanto que a esposa ocupa parte do seu tempo com atividades fora da UPA e nos afazeres domésticos, assim lhe foi conferido 50 % do tempo ao trabalho agrícola. A SAU é a diferença entre a área total da UPA (14 ha) e a área não utilizada para atividade agrícola, que no caso refere-se ao local da moradia, com 0,2 hectares; portanto, a SAU é de 13,8 ha. Segue abaixo tabela com os principais indicadores da Unidade de Observação Pedagógica de Hortaliças e policultivos.
20 Produção Bruta (PB) é expressa pelo valor monetário da produção física gerada exclusivamente pela UPA
durante um ciclo de produção. Compõe a PB somente o valor dos produtos e serviços finais, tais como: a produção vendida; a produção estocada; a produção consumida pela família; a produção destinada ao pagamento de serviços a terceiros; a variação do rebanho animal, a remuneração de serviços prestados para terceiros. Consumo Intermediário (CI) é expresso pelo valor dos bens e serviços consumidos no decorrer do ciclo de produção, tais como: sementes, agroquímicos, combustíveis, despesas com a manutenção de máquinas e instalações, corretivos, alimentação animal, transportes, etc. Os serviços considerados no CI são apenas aqueles que compreendem o consumo de bens materiais durante a execução de uma determinada tarefa, não incluindo, portanto, os salários. Depreciação (D) corresponde à fração de valor dos meios de produção que não são integralmente consumidos do decorrer de um ciclo produtivo. (Neumann e Fialho, 2006, p. 62)
21 DVA são os juros pagos aos bancos ou outros agentes financeiros, salários pagos aos trabalhadores
Indicadores de referência UOP Hortaliças e Policultivos UTH 1,50 SAU 14,00 PB total 27.466,44 CI total 2.513,22 VAB total 24.953,22 Dep 696,80 VAL 24.406,42 DVA 482,52 Renda agrícola 23.923,90 Renda Total 28.771,90 PB/SAU 2.004,85 CI/SAU 183,45 VAB/SAU 1.821,40 VAB/dia/UTH 45,58 PB/CI 10,93 Dep/SAL 50,86 Renda agrícola/UTH/mês 1.226,87
Tabela 01: indicadores da UPA. Fonte: COPTEC, 2013.
A tabela 01, com dados econômicos referentes ao ano agrícola de 2012-2013, resume os principais indicadores. Podemos observar que a superfície de área útil (SAU) é 14,00 ha, no entanto a família utiliza apenas 1,34 ha, já que o restante está em pousio. Esse é um dado interessante, pois expressa a intensificação do trabalho (elevado uso da força de trabalho família) em uma área muito pequena, onde são aplicados pouquíssimos recursos externos. A família tem ainda a possibilidade de expandir a sua atividade agropecuária caso decida utilizar a área que atualmente encontra-se em pousio.
Se comparada ao salário mínimo a renda agrícola mensal por unidade de trabalho é superior. No entanto, a situação da família é relativamente frágil, tendo em vista que o sistema está consolidado a partir do trabalho manual intensivo e a família não tem filhos ou outros membros que possam contribuir com mão de obra. N. P. reclama pelo fato de precisar dedica tanto tempo ao trabalho pesado na lavoura.
Socialização
Após a construção dos indicadores de referencia a equipe técnica socializou e discutiu os resultados com a família, que se apropriou do mecanismo de anotação diária dos seus gastos e as suas entradas.
Outro nível de socialização se deu entre os assentamentos da região metropolitana em que houve a apresentação das UOPs construídas na região e discussão dos resultados. Foram apresentados e comparados os sistemas de produção de hortaliças, hortaliças e policultivos, arroz orgânico, arroz convencional e leite durante encontro de famílias assentadas.
Considerações finais
A experiência apresentada da UOP de Hortaliças e Policultivos buscou relatar o processo de construção entre os diversos profissionais da ATES e os agricultores. Dessa forma, foram destacas algumas motivações para a adoção dessa ferramenta de assessoria técnica bem como a sua implementação prática na UPA dos agricultores E. K. e N. P. Dentre as motivações destacamos a necessidade de se fazer avançar em um programa de assessoria técnica capaz de compreender em maior profundidade os sistemas de produção dos agricultores assentados. O estudo da UOP de Hortaliças e Policultivos da família em questão permitiu compreender a gestão familiar de um casal de camponeses com manejo ecológico da produção, bem como suas tomadas de decisões, suas potencialidades e seus dilemas.
Como potencialidades da sua forma de gestão destacamos a preocupação com o autossustento, os gastos reduzidos com consumo intermediário e depreciação de maquinários, características que se assemelham ao campesinato e garantem um equilíbrio econômico do sistema. Por outro lado, um dos dilemas da família está na escassez de mão de obra, tendo em vista que a gestão adotada por eles é altamente exigente em força de trabalho, e a família não têm sucessores até o momento.
A experiência das UOP’s proposta pelo Programa de ATES se apresentou como uma possibilidade de inovar a ação da assessoria técnica em áreas de reforma agrária na medida em que permite conhecer no detalhe a UPA, as decisões da família, a forma de gestão adotada e sua relação com o entorno. Ao mesmo tempo em que exige da extensão rural métodos capazes de dialogar com os agricultores, nos quais as assimetrias de conhecimento e de poder sejam superadas, deixando no passado as metodologias de viés difusionistas.
REFERÊNCIAS
COOPERATIVA DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS TECNICOS, COPTEC. Unidade de
Observação Pedagógica da família E. K. e N. P. Viamão, 2013.
DALBIANCO, V. P.; NEUMANN, P. S. Rumo da ATES no RS: em Direção à Constituição de um Sistema Descentralizado? In: DIESEL et al Extensão Rural no Contexto do
Pluralismo Institucional. Reflexões a partir dos serviços de ATES nos assentamentos da reforma agrária no RS. Editora Unijuí, Ijuí, 2012.
DIEL, Ricardo. Gerenciamento de recursos hídricos: um estudo de caso no assentamento
Filhos de Sepé, Viamão (RS) / Florianópolis, 2011. Dissertação de Mestrado, UFSC.
NEUMANN, P. S.; DALBIANCO, V. P. Reforma Agrária e a Atuação do Estado na Oferta de Serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural para Assentados. In: DIESEL et al
Extensão Rural no Contexto do Pluralismo Institucional. Reflexões a partir dos serviços de ATES nos assentamentos da reforma agrária no RS. Editora Unijuí, Ijuí, 2012.