Partie I : La situation sociolinguistique de l’Afrique de l’Ouest
Partie 2 : Cadre théorique
2.6 Problématique et objectifs de recherche
De fábula simples (o que não quer dizer sem complexidade de trama)75, a ação do conto se desenvolve na cesura de um dia, compreendendo, portanto, uma jornada de trabalho, das “seis da manhã à meia-noite”, como esclarece o narrador. Em terceira pessoa, narra-se o percurso realizado por um grupo de onze vaqueiros, comandados pelo patrão, na condução de uma boiada; a comitiva vai da fazenda ao arraial, ponto este de onde o gado seria transportado, por trem, até o destino final: o
75Simultaneamente “causos” vão sendo narrados pelos vaqueiros, formando uma camada paralela de
histórias ao lado do enredo central, e assim uma camada de leitura da obra. Tudo sem deixar, no entanto, de amalgamarem-se entre si, produzindo sentidos, causos e fio narrativo central.
abate. Para esquematizar, reduzindo muito sumariamente todos os recursos narrativos construídos e elaborados pelo autor, aqui apenas para efeito desta demonstração, a ação do conto, definida como “o percurso seguido pelas personagens através das sucessivas situações”76, coincide também com a realização de um percurso propriamente dito: a
trajetória que os vaqueiros perfazem: a saída da fazenda, o trajeto até o arraial e o retorno ao ponto inicial, a mesma fazenda. Basicamente, o enredo se perfaz na estrada.
A partir desse momento, apresento e desenvolvo o que ficou há pouco anunciado como “jogo de categorias contrapostas”. O conjunto de elementos em contraposição será divisa norteadora da exegese do conto “O burrinho pedrês”. A maneira como eles se articulam entre si ganham relevância para a análise, pois produzem sentidos decisivos nas interpretações. Ademais, na forma como são estabelecidos os jogos de oposição, fica configurado, em alguns deles, um dos procedimentos básicos de produção de comicidade: aquele que se apóia no jogo de contrários.
O recorte narrativo, recaindo sobre a organização da propriedade fundiária em seu processo de trabalho e produção, pressupõe-se o binômio: proprietário – trabalhadores. No conto, configurado pelas personagens: Major Saulo (o patrão) e um grupo de vaqueiros (trabalhadores). Nas sinuosidades dessa relação bilateral (patrão/empregado), observa-se a assimetria própria das funções sociais estabelecidas nesse contexto. Na elaboração narrativa, isso vai reverberar num emblemático procedimento de articulação de pólos. E o veio principal desse sistema de contrastes é balizado pelo par Major Saulo, o fazendeiro, e Francolim, um dos vaqueiros.
A polarização capital está dada pelo vínculo social constituído nessa ordem de mando: patrão / empregado. A partir dessa dicotomia fundante, passa-se a criar no
interior do enredo um jogo de oposições que tem como foco o âmbito dessa relação e se desenvolve pontuada por uma profusão de outros antagonismos subjacentes. Para tanto, o autor dispõe do emblemático campo semântico dos termos ‘grande’ (gordo) versus ‘pequeno’ (magro), atribuídos respectivamente ao par mencionado, configurando o veio principal desse esquema. De um lado, posiciona-se Major Saulo, proprietário e patrão, assim descrito: “corpulento, quase um obeso”. Da mesma forma, toda ordem de coisas relativas a ele é marcada pela ideia de tamanho e peso. A propriedade é a “Fazenda da Tampa, onde tudo era enorme e despropositado: três mil alqueires de terra, toda em pastos.” (grifo meu) Acrescenta-se ainda a produção da fazenda, o gado, esperando nos “currais, de todos os tamanhos (...) Dois ou três deles mexiam, de tanto boi” (11). E, ao abrir as porteiras dos currais, saem deles as “Quatrocentas e muitas reses, lotação de dois trens de bois”, que vertem-se como o “jacto de uma represa.” Além das que seriam transportadas neste dia, esperando “Nos pastos de engorda, ainda havia milhares”. O universo concernente ao patrão, como se evidencia, conjuga o aspecto físico do proprietário a suas posses: o latifúndio e o gado.
Do lado oposto estão os vaqueiros, dentre eles, Francolim, assim qualificado – e o mais justo seria dizer desqualificado: “Caniço de magro, com um boné de jóquei no crânio”77. No retrato esboçado pelo narrador, a imagem que resta é a da própria
caveira. Nesse pólo, Francolim aparece sem maiores complementos (pois destituído de posses, obviamente). Ainda nesse mesmo lado, corroboram outras personagens secundárias, como João Manico, dito “o mais leviano”. Embora haja uma ambiguidade no termo leviano, com a própria palavra aparecendo em itálico no texto do autor, ela
77É curioso o predicativo “caniço” atribuído a Francolim. Para essa caracterização, talvez seja importante
observar a nota de Flávio R. Kothe, em seu estudo acerca do herói, em que ele compara os três tipos de heróis a espécies de árvores; cito-a: “O herói trágico é um carvalho em que caem os decisivos raios do destino; o herói épico é o grande pinheiro indicador dos caminhos da história: nenhum deles tem a sabedoria dos caniços. O pícaro é o caniço que se dobra aos ventos para conseguir sobreviver: nele o que pensa é o estômago.” (O herói, p. 14, grifo meu)
remete também à acepção de “leve”; já o segundo nome, “Manico”, guarda íntimo parentesco com “nanico”. Os termos se afinam no campo semântico do que é diminuto. Para firmar com mais um exemplo, há ainda outro vaqueiro, Leofredo, a quem é atribuída a pecha de “magrelo”.
Assim como a boiada gorda reitera o pólo em que se encontra o proprietário, alguns animais, pela magreza, também reforçam, em contrapartida, o campo em que se encontram os vaqueiros. Com isso verifica-se que os sentidos são reforçados se considerado ainda o domínio dos animais. Inicialmente, o burrinho, qualificado assim, no diminutivo, já no título do texto e reiterado ao longo do enredo, a imagem é reforçada pelo adjetivo “miúdo” logo na primeira linha do conto: “Era um burrinho pedrês, miúdo (...)”. Além do mais, num certo sentido, o próprio animal, o “burro”, é emblema do que é ínfimo: menor dos equinos, entretanto muito resistente ao porte de cargas, e por isso mesmo rebaixado pelo peso de fardos que lhe são impostos. Essa condição do animal dá origem à contundente imagem revelada pela expressão idiomática “burro-de-carga”; ele é símbolo da própria humildade. Na epígrafe de abertura do conto, há ainda a referência paradoxal, num dos versos da estrofe dita proveniente de “uma cantiga, solene, da roça”, e provavelmente aludindo ao animal, é assim mencionado: ele [burro] “vai carregado de algodão”. Estão aí combinadas, a um só tempo, ideias contrapostas: peso (“carregado”) e leveza (“algodão”). A ilustração de POTY preparada para a edição do livro é contundente e reveladora: nos traços do
desenho, pouco ou quase nada se vê do burro, submerso à carga, ao fardo que tem de carregar. Expõe-se, assim, todo o dilaceramento da condição (desumana?) cruel em que se encontra o animal no mundo dos homens, no mundo do trabalho, em que lhe resta apenas exaurir-se como “burro de carga”:
No que concerne à boiada, há significativa articulação do binômio gordo/magro. Originalmente, os bois são comprados magros, já que mais baratos ou são capturados pelos vaqueiros nos ermos campos do sertão, em estado selvagem: “(...) nos meados da seca (...) os boiadeiros tinham de espalhar-se em direção aos longínquos centros de cria, para comprar e arrebanhar gado magro.” (18). Assim, magros, correlacionam-se com os vaqueiros que os capturam, ficando nesse respectivo pólo; depois, levados aos pastos da fazenda, engordados, passam agora aos domínios do patrão e, portanto, ao pólo oposto correspondente; gordos, tornam-se definitivamente posse do fazendeiro.