Partie I : La situation sociolinguistique de l’Afrique de l’Ouest
Partie 4 : Analyse des données
4.3 Les attitudes aux langues
4.3.1 Les attitudes envers les langues africaines
Se por um lado Francolim é o risível, de outro, Major Saulo é aquele que ri, e o faz com constância; isso é demasiadamente frisado na narrativa. O riso assume emblemática significação na caracterização desta personagem, pois, como confirma o narrador, ele era aquele “(...) que ria, sempre ria – riso grosso, quando irado; riso fino,
94 Nikolai Gógol, Teatro Completo, São Paulo: Ed. 34, 2009. 95 Vladímir Propp, Comicidade e riso, São Paulo: Ática, 1992, p. 17.
quando alegre; e riso mudo, de normal.” Mesmo em termos quantitativos é relevante notificar. Os índices indicativos do riso do Major são recorrentes e se reportam exclusivamente a ele. Para mensurar, são exatamente sete “há-há”, mais quatro “Hô-hô” e um “Hó-hó”, computando, ao longo do enredo, mais de dezexpressões onomatopaicas que precisam o riso e suas gradações, como risada, gargalhada. Sem contar que nas ausências mais diretas dessas expressões fica a cargo do narrador aludir ao fato: “O Major dera de taca no parapeito, muitas vezes (...) enchendo o barrigão de riso.” (14) Para concluir, ainda se acresce com as falas das personagens em que a matéria aparece referenciada, como esta, quando Major Saulo tenta convencer João Manico de que o burrinho é uma boa montaria. Diz ele, “(...) vocês [João Manico e o burro] vão indo tão bem, tão sem confusão...” É na réplica do vaqueiro que se assevera a jocosidade e o escárnio do proprietário, presumidos pelo leitor, certamente, mas só confirmados na declaração do vaqueiro: “(...) Eu sei que o senhor está se rindo é por saúde sua, não é por debochar de mim...” (32)
Mesmo sendo o que ri, o próprio Major Saulo pode ser risível, em determinados momentos, mas, nesses casos, sempre pelo grotesco, como revelam as passagens: “(...) Major Saulo parou, pensando, com um dedo enérgico, rodante dentro do nariz”; ou ainda na citação de a pouco: “(...) enchendo o barrigão de riso.” No primeiro excerto, se há um riso, ele surge do estranhamento, podendo ser acompanhado de certo sentimento desconcertante de asco, de nojo. O exagero da barriga do Major não chega a ganhar proporções fantásticas, limitando a ser a reprodução disforme da natureza de um corpo, dentro daquilo que se considera o possível real. Entretanto parece que há certo traço realçando as dimensões do ventre. Estaria num meio termo em que o autor “(...) com algum propósito especial, aumenta a deformação de seu objeto, mas
procede de modo tão análogo ao da natureza que o original continua sendo reconhecível”96.
A despeito de toda essa expansividade do riso, há ocasiões, entretanto, em que ele pode se exasperar e chofrar um “cala a boca” a Francolim. O vínculo entre os dois oscila em meio a circunstâncias de galhofa, com o patrão ridicularizando o vaqueiro ou, noutro extremo, repreendendo-o. Nestes eventos, entretanto, nem mesmo a gravidade da recriminação deixa de se produzir efeitos risíveis. Tanto se divertindo ou se exasperando com o empregado, de uma como de outra situação, sobreleva-se a violência que permeia a relação dos dois. A assimetria do vínculo de poder estabelecido dá prerrogativa, por exemplo, ao Major, porque é patrão, de ridicularizar e repreender o subalterno.
Se “Francolim não se contém”, e por isso recebe o “cala boca” do fazendeiro, o mesmo não acontece com Sebastião, o capataz. Este, ao que parece, aprendera a se calar frente ao superior, quando vê que o momento não é apropriado. A ponto de dizer algo, Sebastião contém-se, não ousa manifestar-se, pois percebe, “a tempo”, que pode incomodar o patrão: “Ia dizer qualquer coisa, mas fechou a boca a
tempo, porque o Major Saulo continuava olhando para a aglomeração de bois.” (grifo meu) Essas marcas sugerem que Sebastião tem o discernimento, a maleabilidade de que fala BERGSON, e que, justamente, falta em Francolim. O capataz aprendeu a se calar,
quando a situação exige, sobretudo nesse caso em que o proprietário olha “a aglomeração de bois”; esta, certamente, mais importante, na ordem dos interesses do proprietário, que a fala de um pobre vaqueiro. O capataz arguto, atento, “maleável”, diferentemente de Francolim, se autocensura, antes que o patrão o faça.
Em contrapartida ao “cala boca”, determinadas falas são autorizadas, solicitadas e até bem vindas, não recebendo reprovação do Major. Ao que parece são aquelas das quais ele pode tirar algum proveito prático, utilitário: as portadoras de informações sobre os acontecimentos entre os vaqueiros, como é o caso dos “mexericos” de Francolim, ou quando portam saberes utilitários para a melhor aplicação do trabalho (conhecimento sobre o gado e sobre as condições da natureza), o que implica em melhor e maior aproveitamento da produção, ampliando-se com isso as possibilidades de ganhos e lucros, o que se reverte finalmente na “substância final, o dinheiro”.97 Mesma ética é vista em outras personagens de narrativas posteriores do
autor. Para citar apenas uma, esta de Grande Sertão: Veredas, Ricardão: “(...) rico, dono de fazenda, somente vivia pensando em lucros, querendo dinheiro e ajuntando (...) bruto comercial.”
Na fazenda da Tampa, quando o assunto é o bovino, o homem do Major é Zé-Grande: para “a sabença do gado, ele é o melhor vaqueiro da Tampa, homem ledor de todos os sestros e nequícias do bicho boi.” (21) E é dele que o Major arranca informações necessárias sobre o gado; ele ordena ao vaqueiro: “— Agora, que é que há e que é que não há, Zé-Grande?” (22) Nesses casos, o empregado pode mesmo contradizer o patrão quando este se engana sobre o assunto: “— É inteiro... Não, é roncolho. Mas bonito como um bicho de Deus!...”, diz o Major, e Zé-Grande contrapõe- se: “— É só de longe, seu Major. De perto, ele é de cor mais trivial...” (23) Ainda acerca das questões da natureza Major Saulo é novamente contradito, desta vez pelo capataz Sebastião: “— Estou vendo que o vau agora está pior do que o resto. Melhor era distorcer mais para baixo, onde deve de estar dando mais pé...” / “— Pé já não dá
97 Expressão extraída da novela “Buriti”, in: Guimarães Rosa, Corpo de Baile, Rio de Janeiro: Nova
mesmo, em lugar nenhum, seô Major. E está desbarrancando, lá na outra beirada, e não tem saidor... Melhor por aqui mesmo, patrão.” (31)
A “ação interessada”98 do Major Saulo vai além do que se refere aos bens
materiais, estendendo-se aos bens simbólicos e do espírito. Assim, as falas podem ser bem vindas também quando fontes de prazer, como são os “causos” contados pelo vaqueiro Raymundão. Ao que, o patrão revela sua satisfação: “Você me deu boa prosa e companhia...” Mas se são coisas tristes é melhor não comentar, sabem os vaqueiros, e um deles aconselha: melhor “mudar de contar coisas tristes, que seu Major não gosta...” (22) E se o fazendeiro permite alguma “frouxidão” entre os homens é porque, argumenta ele, “se eles [os vaqueiros] têm seu divertimento, ficam mais marinheiros, na hora de fazer força...” (33-34), como quem diz, que para mandar e explorar a força de trabalho “não é só com força, é com jeito”. Esta expressão aparece na voz do vaqueiro Badu ao enfrentar o boi bravo, mas é ideia que permeia todo o conto e também o livro como um todo, assumindo diferentes sentidos. As ações interessadas do proprietário, extrapolando a esfera material, revelam o tratamento reificado que ele dispensa às relações humanas.
Esse panorama revela certa “especialização” de tarefas diárias da fazenda, remetendo, em alguma medida, à divisão do trabalho. Com isso, se poderia pensar no enredo constituído no fragmento de um dia, sendo o “dia” um fragmento da semana de trabalho e remetendo, justamente, à ideia de fragmentação, já que é essa a ideia da especialização: fragmentar (as tarefas, o tempo). É importante lembrar o significado da fragmentação das atividades e do tempo que se radicalizam em certo modelo de produção, sendo o dia uma dessas unidades mínimas de tempo, de jornada, de trabalho.
98 A expressão, entre aspas porque segue o mesmo teor de sentido utilizado por RONCARI, ainda será
retomada em discussões posteriores, onde será melhor explorada no contexto do conto. Luiz Roncari, “Patriarcalismo e dionisismo no santuário do Buriti Bom, in: Marli Fantini (Org.), A poética migrante de
Se por um lado Francolim é esse ser que, para usar expressão vulgar, “não se enxerga”, Major Saulo, entretanto, parece estar bem consciente de sua condição de patrão e também da de subordinado do empregado, podendo, por isso, tirar vantagens das situações. Na contraposição, o proprietário, percebendo isso, joga com essa especificidade do caráter de Francolim. Sem ainda julgar nesse momento suas intenções (ou seja, o espírito prático e utilitarista), o que fica sugerido nas entrelinhas do texto é que ele alimenta os devaneios do subalterno, aliciando a simpatia do empregado com qualificações do tipo: “(...) mulato mestre meu secretário”; “sujeito meu de confiança”; “Você é meu camarada de confiança”, “Galopa comigo, que é para o povo do lugar ver que o meu secretário é você...” (43). Propositadamente ou não, com essa atitude Major Saulo infla o ego de Francolim. Enquanto os vaqueiros não dão crédito ao colega – e o mesmo pode ocorrer com o leitor, pois este é bem avisado pelo narrador sobre a condição da personagem – Major Saulo, na contracorrente, o trata nestes termos, dando a entender que o tem na mais alta importância.
Ora, não seria o patrão o enganado da história! As suspeitas acerca de suas intenções aparecem, desenvolvem-se e, no final, podem ser confirmadas pelas ligações lógicas que se pode estabelecer de suas falas e atitudes. Ao que parece, ele conhece a situação e age fingidamente. Age com diplomacia para extrair e tirar proveito daquilo que o subalterno realiza com competência: fazer mexericos, levar e trazer informações acerca dos acontecimentos entre os outros vaqueiros, bajular o patrão, ser “olho e ouvido, andando longe”. Assim, Francolim , além de espécie de moleque de recados, é a garantia do patrão de saber dos acontecimentos entre os vaqueiros, como confirma os trechos: “Chega Francolim, de galope, com um recado do Major para Sebastião” ou “Ele foi por uma banda e vai voltar por outra, e vem me contar paçoca de novidades,
tudo o que os vaqueiros estão conversando e fazendo, ou deixando de fazer.” Era a forma do patrão “ver tudo de longe” o que acontecia nos domínios da propriedade.
A ambiguidade das ações do fazendeiro desponta pelo artifício narrativo explorado pelo narrador. Este, irresistivelmente, aparentando não querer, quer pô-lo a nu. E nisto há uma tensão: há uma força que o impede de fazê-lo, ao menos aberta ou despudoradamente.