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“…paradójicamente en la era tecnológica del mundo que los burgueses llaman moderno, la cultura masificada recurre y propaga cotidianamente los mitos remozados de la era maquinista” (DORFMAN e MATTELART, 1978).

Autores aqui já mencionados como Serres, Lévy , McLuhan e Morin, têm concluído que no nosso tempo, a divisa entre o natural e o artificial em nossos corpos é cada vez mais imprecisa. Objetos estéticos como os silicones, objetos médicos como as próteses e objetos cognitivos como os computadores, cada vez aprofundam e integram mais a sua simbiose conosco. Também os nossos corpos respondem crescentemente às imagens da engenharia comercial e a pressão competitiva global. Trocamos nossos órgãos e as suas funções por coisas externas e “inteligentes” que melhoram nosso desempenho, sejam fármacos para não sentir cansaço ou dor, sejam cirurgias ou dietas para nos ver como é desejado, sejam computadores ou celulares para organizar e fazer tudo aquilo que cognitivamente seria impossível de realizar sem apoio externo. As nossas memórias ficaram espalhadas em múltiplos lugares intangíveis, as nossas faculdades foram entregues às diversas máquinas, a

nossa atenção fica disputada nos numerosos écrans disponibilizados ao nosso redor pelo mercado. A confusão entre o natural e o artificial mobilizada pelo marketing e a Indústria Cultural, impulsiona o desejo e urgência dos povos “periféricos” para ser incluídos no consumo de bens informatizados.

Na sua análise sobre o Pato Donald da Disney, Dorfman e Mattelart (DORFMAN e MATTELART, 1978) advertem que o perigo central da Indústria Cultural para os países da “Periferia” é que ela representa e atua os sonhos e o sonhar dos EUA sobre si mesmos. É o jeito em que o “Centro” espera que a “Periferia” represente sua própria realidade e se pense, para salvação própria, que é a mesma salvação do “Centro”. Presa nesse espalhar tecnológico- cultural, a “Periferia” persiste em utilizar representações externas para pensar, expressar e agir a sua realidade, deformando a conexão com seu contexto, história e interesses. As populações da “Periferia” vivem um sonho emprestado, que leva para uma realidade alheia que se traduz em políticas e técnicas defasadas e fracassadas, encobertas pela propaganda, os relatórios técnicos incompreensíveis, a demagogia, ou a naturalização do “destino de fracasso” dos subdesenvolvidos.

Frente às realidades evidentes da “Periferia”, pobreza, injustiça, abandono, corrupção, Dorfman e Mattelart percebem que a estratégia discursiva da narrativa globalizante é concluir que não existe outro lugar para fugir mais que “o abrigo da tecnologia”. Os problemas sociais ficam definidos como resíduo marginal dos problemas tecnológicos e, assim, o mito da redenção técnica vai sendo reforçado e espalhado pela mediática política e a mediática do entretenimento. Duas narrativas, tecnologia e salvação, conotadas na mesma discursiva: a marcha para a Sociedade da Informação como única solução possível. Infelizmente, as novidades tecnológicas passam, tudo se movimenta, mas nada muda.

Mattelart (MATTELART, 1998) relata que desde a década de 1980 e em consonância com a desregulamentação internacional das telecomunicações, iniciou-se a mudança dos

conceitos utilizados na construção da narrativa do “mundo das redes”. Novos jargões foram importados a partir da pesquisa técnica e operacional para descrever uma nova era. Termos cuja origem nem questionamos, cedidos pelo idioma Inglês para descrever a noção de "globalização" e desempenhar um papel-chave na semântica desta nova realidade. A nova imagem do planeta é de uma rede cada vez mais ligada e plugada a uma lógica universal, na qual encaixa toda noção de informação e comunicação. Sob essa imagem, a globalização é uma simplificação de uma ordem tecnológica, econômica e informacional que bem pouco fez pela solução dos problemas de poder e dominação pré-existentes.

Vários imaginários suportam esta narrativa global e são descritos por Mattelart (MATTELART, 2000b):

 Um ambiente de “utopia social” que elevou o conceito “Global” a status de senso comum quando referir ao futuro do planeta. Nasce o “messianismo empreendedor”, que percebe a atividade de negócios como uma força transnacional, benéfica e poderosa para banir os grandes problemas da humanidade. O fluxo livre de informação torna-se sinônimo de justiça e igualdade entre os povos.

 O imaginário da “planetização”, surgido na década de 1960 na estratégia militar dos EUA que tratava à URSS como “inimigo global” e definia o mundo como seu teatro de operações. McLuhan contribuiu neste imaginário com sua fala sobre a “Aldeia Global” que se tornou clichê nas mídias. O cenário da Guerra Fria entre as duas superpotências incluía comunidades, sítios e culturas inimaginados ao longo da terra, mas articulados como os quadros de um tabuleiro de xadrez.

 Uma visão de “Administração Unificada do Planeta”, que surge da situação de confronto múltiplo, simultâneo e espalhado após da II Guerra Mundial, e que precisou do desenvolvimento de escritórios de “Assuntos Globais” nas potências e de entidades de regulação mundial como as Nações Unidas ou a ITU.

 O novo alinhamento global dos poderosos no G7-G8, enquanto os países periféricos tentam contrapor agremiações próprias de pouco impacto como os “Não Alinhados”. A dinâmica de Norte-Sul que polarizava o mundo virou o choque Global-Local, encarnado em movimentos separatistas ou extremismos religiosos.

 Frente às crises que borbulham no planeta, os diagnósticos dos países desenvolvidos indicam unanimemente que a solução está nas TIC sob o slogan “Pense global, atue local” (Think global, Act local).

 Nasce uma visão instrumental da cultura, que aponta entender como comercializar mercadorias ocidentais em distintas culturas forâneas e atingir a padronização universal das marcas, publicidades e a cultura das massas. A criação de exércitos de consumidores transnacionais, também chamado de McDonaldização da cultura.

 Os EUA trocam de estratégia para o Soft Power e a realização dos seus objetivos internacionais por meio da cooptação e não da coerção.

 Em articulação com a mudança para o Soft Power, os EUA criam a doutrina de liderança tecnológica.