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No decorrer do trabalho foi possível perceber as possibilidades quanto às aplicações da tecnologia digital móvel e internet em projetos que envolvem educação e a participação ativa de alunos na construção dos temas transversais.

É preciso considerar a existência de um paradoxo entre a rotina escolar – e mesmo pessoal de alunos e professores – e a percepção sobre como a internet afeta o modo de se construir relações e o chamado capital social. Vivemos, desde há muito tempo, organizados em estruturas de redes sociais e grupos formados por motivos e interesse variados - mas com finalidades semelhantes: criação e fortalecimento de identidade e sensação de pertencimento e até mesmo sobrevivência (MAFESOLI, 1987). Não obstante essa estrutura de “teia de relacionamentos”, organizadas também como a base da formação comunitária, a percepção e a organização do cotidiano ainda são fundamentalmente lineares.

Na sistematização cartesiana da percepção ocidental da realidade, tudo é “enfileirado”, colocado em ordem sequencial, esta, por sua vez, parece obedecer ao eixo tempo-espaço tal como nós utilizamos para organizar o pensamento. Essa percepção vem moldando o cotidiano há milênios, desde a escrita à disposição temporal dos afazeres à noção de hierarquia e organogramas de trabalho.

Esse modelo de organização parece ter impactado na formação dos sistemas escolares, especialmente se se considerar a necessidade de atender ao aumento da demanda por educação a partir dos séculos XVIII. Há uma estruturação intrínseca à isso que transborda para o modo como se trabalha com a informação e conhecimento.

O trabalho em questão aponta para algumas mudanças que precisam ser consideradas ao se pensar no uso de estratégias de ensino e aprendizado com a utilização de Tecnologias de Informação e Comunicação como tv móvel, internet e dispositivos portáteis.

A primeira delas talvez esteja no impacto das mídias digitais e da internet na obtenção de informação: na pesquisa, a rede mundial de computadores aparece como o segundo meio mais comum para se encontrar notícias, estando muito à frente da mídia impressa e do rádio somados. Outra percepção importante para o foco desta pesquisa é o canal Youtube ter sido apontado por 77,78% dos entrevistados como o meio mais procurado para se assistir a vídeos em detrimento da televisão, mesmo ela ainda sendo

apontada como mais frequente no acesso diário e na obtenção de notícias. Os resultados citando o Youtube mostram um dado fundamental para se compreender o uso das TICs atualmente que decorre da evolução do conceito de web 1.0 para web 2.0, isto é, a passagem da simples busca da informação para o a navegação cuja característica possui foco no compartilhamento de informações com base no capital social dos usuários. A questão do capital social também surge na citação do Facebook como a principal rede social digital utilizada pelos entrevistados, com 76,56% (redes como o Tumblr, Twitter e outras somaram os restantes 13,44% das citações).

Com tais informações e o fato de mais de 70% dos alunos terem citado o uso diário de aparelhos celulares com acesso à internet ou do tipo smartphone e apontarem dispositivos móveis (notebooks, smartphones e tablets) como os preferidos para acessar a internet, é possível pensar que o desenvolvimento de projetos em educação utilizando práticas de televisão digital móvel, interação entre usuários e o conceito web 2.0 ampliam significativamente as possibilidades dentro e fora de sala aula.

Para o desenvolvimento e aprimoramento de projetos semelhantes é preciso ampliar o escopo da pesquisa a fim de contemplar outras questões, como a de capacitação de professores para o trabalho com o uso de vídeo e internet; a disponibilidade de equipamento para produção dos vídeos e a formação de multiplicadores nas próprias escolas para ampliação do trabalho.

É necessário também pensar em variáveis capazes de afetar outros projetos na área, como o acesso à tecnologias como dispositivos móveis e/ou portáteis, computadores e até mesmo acesso à internet. No espectro da educação no Brasil é possível perceber que tais fatores são bastante díspares em termos regionais e socioeconômicos: em 2011, pesquisa mostrava que na média brasileira 31% dos municípios possuía simultaneamente energia elétrica, computador com acesso a internet, aparelho de DVD, televisor em cores e máquina de lavar (CONVERGÊNCIA DIGITAL, 2012). Se considerados os lares com estes recursos, excluindo o computador e acesso à rede, o percentual subia para 34%. Regionalmente, a diferença é ainda maior: nas regiões Norte e Nordeste o índice para todos os equipamentos presentes nos lares era respectivamente de 16% e 15,2% dos lares, enquanto no Sul e Sudeste os números eram de 38,7% e 38,2%. A mesma pesquisa apontou que em 2011 55% dos domicílios brasileiros não possuíam computador e em 62% não havia acesso à internet. Na área rural, o índice de casas sem acesso à rede era de 90% e embora na classe A o acesso

chegasse a 97%, entre as classes D e E ele era de 5% (CONVERGÊNCIA DIGITAL, 2012).

Levando em conta a situação nas escolas públicas de Ensino Fundamental, em 2011 dados do INEP mostraram que apenas 42,6% delas possuíam acesso à internet e 55,9% não dispunham de laboratórios de informática. O menor índice de acesso estava também nas regiões Norte (18,7%) e Nordeste (25,3%). Em termos nacionais, o acesso móvel era mais disseminado: 79,5% dos estudantes declararam contar com dispositivos móveis para acesso à internet (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2012).

Em termos locais da pesquisa foi possível perceber que as condições de uso e acesso da tecnologia foram bastante favoráveis ao projeto. No entanto, é preciso destacar o fato de que ao transferir a participação dos alunos para o contraturno houve uma redução considerável no número de participantes. Durante as reuniões anteriores à mudança e nos encontros subsequentes a percepção sobre isso apontou vários prováveis motivos – desde a dificuldade dos alunos em incluir outro compromisso (com o projeto) aos que já possuíam; a falta de interesse nas atividades; o foco no uso do acesso móvel e de vídeos direcionado apenas para fins de entretenimento.

Não obstante, as atividades desenvolvidas com o grupo que se manteve no projeto mostraram-se bastante produtivas. Os encontros foram marcados por discussões e decisões coletivas a respeito das pautas para as entrevistas; eventuais dificuldades para organizar a produção ou mesmo detalhes técnicos eram solucionados com participação de todos os envolvidos.

Desse modo, o presente trabalho não pretende ter apresentado um provável único modelo – ou o mais adequado - para a utilização de televisão móvel digital como recurso no apoio à educação, mas haver apontado as possibilidades para que isso se torne realidade.

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