2. Concepts préliminaires
2.2. La simulation-optimisation classique
2.2.3. Principales techniques de simulation-optimisation
O pensamento internacional a respeito da segurança internacional se disseminou através de dois dispositivos de segurança: o dispositivo Guerra Total e o dispositivo Guerra Fria. Cada um deles constituiu e foi constituído por discursos e práticas específicas sobre concepções de segurança internacional. Cada um deles constitui e foi constituído por diferentes discursos e práticas articulados em torno de regimes de verdade particulares. Vimos nos Capítulos 1, 2 e 3 como estes dispositivos se constituíram e como se sobrepuseram ao longo do século 20. Como já deixamos claro, não houve rupturas claras e definitivas entre os dois dispositivos. Eles se reforçam e se sobrepõem. Suas funções e acionamentos dependem dos contextos. Vimos também como as noções de loucura e extinção não são conceitos, mas sim referentes a partir dos quais discursos sobre segurança internacional são articulados e causam efeitos de verdade. Loucura e extinção se articulam através dos discursos da tragédia colocada em prática pelas guerras, pelas guerras entre estados que histórica e tradicionalmente significam pontos de ruptura para a civilização ocidental. As guerras servem como marcos temporais a partir dos quais a civilização ocidental representa sua história. A história ocidental é marcada pela tragédia, pelo renascimento "depois da tragédia". A tragédia maior da civilização são as guerras entre estados. A disciplina de Relações Internacionais funcionou, em grande medida, como vimos, como lócus de problematização e de reconhecimento dessas tragédias guerreiras e como lócus de pensamento responsável pela solução dessas tragédias, articulando um pensamento racional capaz de por fim às tragédias. A função normativa das RI, portanto, desde a década de 1910, foi articular um pensamento acadêmico e racional sobre as guerras de modo a curar
160 essa corrupção do progresso humano através da racionalidade política responsável de homens-de-estado (soldados e diplomatas) atuando heroicamente no cenário internacional em defesa de populações e da própria civilização humana. Essa função normativa das Relações Internacionais servia, em contrapartida, estrategicamente, de modo a legitimar e sustentar relações de dominação entre estados e populações, apresentando líderes mundiais como agentes responsáveis e capazes de garantir paz e segurança ao mundo, agindo racionalmente dentro dos limites e possibilidades éticas disponíveis. Suas responsabilidades se chocavam, obviamente, com a irresponsabilidade dos demais líderes mundiais que não agiam de forma racional.
O mundo internacional fora assim representado como uma arena hobbesiana na qual o homem era o lobo do homem ou, melhor ainda: uma arena em que homens responsáveis e racionais poderiam ser lobos de homens que agissem irresponsável e irracionalmente. "Nós" somos homens racionais e responsáveis; "Eles" são irracionais e irresponsáveis. "Nós" devemos usar a ciência internacional ao nosso dispor para melhor compreendermos e agirmos num mundo internacional perigoso, inseguro e no qual há outros homens dispostos a destruir o que "nós" conquistamos. Nessa constituição binária de identidades internacionais que se chocam constantemente e que constituem nesse mesmo processo o que se toma como "mundo internacional", a ação racional e responsável deve respeitar os limites e possibilidade da ação política. No dispositivo Guerra Total, constituído logo após a Primeira Guerra Mundial, a guerra significou a loucura de se levar nações inteiras à destruição em nome de interesses nacionais mesquinhos. A loucura se situava precisamente na irracionalidade da guerra de conquista. Os escritos de autores liberais e realistas disseminaram esta irracionalidade de diferentes formas, mas todos concordavam que a guerra naquele momento se situava no limite da ação política racional e que seu uso colocaria em grave risco as populações. A função dos intelectuais de RI e da disciplina que acabava de nascer era autorizar esse modo de pensar e de delimitar as verdades que poderiam ser ditas a respeito das ameaças internacionais. Delimitar o que poderia ser pensado sobre o mundo internacional em termos de guerra e paz; em termos de segurança e insegurança. Estar seguro significava não estar em guerra. A ausência de guerra significava a garantia da paz. A paz era, portanto, um estado negativo: a ausência de guerra.
Mas o mundo internacional sendo uma arena de conflito e de insegurança eterna, na qual não existe a garantia de uma "harmonia de interesses" entre os diferentes estados; uma arena caracterizada pelo "dilema de segurança" sintetizado por John Herz, a
161 racionalidade política não pode se guiar pela racionalidade privada ou, ainda, a ética política terá de obedecer a critérios éticos diferentes daqueles da ética privada. Como a paz absoluta kantiana significaria também a ausência absoluta de guerra, essa paz absoluta ou eterna seria inviável. Não há valores universais compartilhados pelos diferentes estados que sirvam como garantia de uma situação de paz eterna. Como consequência, a ação ética e racional de cada estado deveria ser sempre relativa à política internacional e ao jogo de forças dessa política. Assim, a guerra seria sempre uma possibilidade entre os estados. A política deveria acessar seu meio mais característico de ação: a violência. Essa herança germânica das Relações Internacionais quanto ao universo político – tanto de Max Weber, como de Friedrich Meinecke e Carl Schmitt – delimita a ação política internacional impondo os limites da violência racional.
politics operates with a quite specific means, namely power, backed up by the use of violence377;
[If] a statesman feels himself obliged by 'necessity of state' to violate law and ethics, he can still feel himself morally justified at the bar of his own conscience, if in doing so he has, according to his own personal conviction, thought first of the good of the state entrusted to his care. Thus the realm of values is capable of shedding an ennobling light far into the inmost recesses of problematical conduct. […]. Thus all conduct prompted by raison d'état
fluctuates continually back and forth between light and dark378. (nossos
itálicos).
The specific political distinction to which political actions and motives can be reduced is that between friend and enemy"; [E, portanto…] "The friend, enemy, and combat concepts receive their real meaning precisely because they refer to the real possibility of physical killing. War follows from enmity. War is the existential negation of the enemy. It is the most extreme consequence of enmity. It does not have to be common, normal, something ideal or desirable. But it must nevertheless remain a real possibility for as long as the concept of the enemy remains valid379. (itálicos no original).
A tragédia das Relações Internacionais entre 1910 e 1945, no dispositivo Guerra Total, era a tragédia da guerra para estados e populações, mantendo-se como remédio pernicioso, mas necessário à política internacional. Na interpretação de Terry Eagleton, é essa continuidade do "pernicioso" na ação trágica utilitarista que funciona como uma de suas marcas: "O 'valor de troca' da ação [trágica], a vida renovada a que ela pode levar, não tem permissão para anular seu 'valor de uso'"380. Por mais que se prometa tratar-se de uma guerra para por fim a
377 WEBER, Max. The profession and vocation of politics [1919]. In: ______. Political writings. Cambridge:
Cambridge UP, 2005, pp.357.
378 MEINECKE, Friedrich. Op. cit., 1988, p.6.
379 SCHMITT, Carl. Op. cit., 1996, pp.26 e 33, respecitvamente. 380 EAGLETON, Terry. Op. cit., 2012, p.72.
162 todas as guerras, isso não anula a vitimação em massa e a barbárie dos atos em nome de certa racionalidade política.
Contudo, com as bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki e com a consequente nuclearização da política internacional nas décadas seguintes, o dispositivo Guerra Total se reestruturou. Já não era mais possível a instrumentalidade da guerra. A guerra tornara-se um fenômeno trágico que ameaçava não apenas a existência de estados e populações isoladas, mas tornara-se um risco à extinção da vida na Terra. A guerra que havia sido aceita como um "instrumento essencial da política e como um teste de virilidade do estado"381 passara a ser um risco à vida. Assim se manifestara Hans J. Morgenthau em sua
mais famosa obra e que se tornaria o maior clássico de RI do século 20. Em 1949, quando a URSS ainda não possuía armas nucleares, Morgenthau afirmara que uma vez disponíveis pelos soviéticos, já não importaria a quantidade de armas, pois apenas um número limitado delas seria suficiente para destruir a capacidade militar dos Estados Unidos382. Na edição de
1985 de Politics among nations – no ápice da Segunda Guerra Fria – Morgenthau asseverava que "nuclear weapons are instruments of indiscriminate mass destruction and can therefore not be used for rational purposes. They can be used to deter a war by threatening total destruction; but they cannot be used to fight a war in a rational manner"383 (nossos
itálicos).
Essa percepção era compartilhada para além da disciplina de RI por outros intelectuais. Em um de seus mais notáveis livros, Hannah Arendt dissertou sobre a violência no século 20 e sobre seus limites e usos. As conclusões de Arendt sobre as armas nucleares iam na mesma direção das de Morgenthau: "O desenvolvimento técnico dos implementos da violência alcançou agora o ponto que nenhum objetivo político poderia presumivelmente corresponder ao seu potencial de destruição, ou justificar seu uso efetivo no conflito armado" (nossos itálicos):
Assim, a guerra – desde tempos imemoriais, árbitro último e implacável em disputas internacionais – perdeu muito de sua eficiência e quase todo seu fascínio. O jogo de xadrez 'apocalíptico' entre as superpotências, quer dizer, aqueles que manobram no mais alto plano de nossa civilização, está sendo jogado de acordo com a regra de que 'se alguém 'vencer', é o fim
para ambos' [M.A.D.]. Trata-se de um jogo que não apresenta qualquer semelhança com quaisquer jogos de guerra que o precederam. O seu objetivo 'racional' é a dissuasão, não a vitória, e a corrida armamentista,
como não é mais uma preparação para a guerra, só pode ser justificada sob
381 BURNS, Arthur Robert. The treatment of enemy powers. In: MORGENTHAU, Hans J. (Edit.). Peace,
security and the United Nations. Chicago: Chicago UP, 1946, p.27.
382 MORGENTHAU, Hans J. Op. cit., 1949, p.319. 383 MORGENTHAU, Hans. Op. cit., 2006, p.135.
163 o princípio de quem mais e mais dissuasão é a melhor garantia para a paz.
Não há como nos desembaraçar da óbvia insanidade desta posição (nossos
itálicos)384.
O signo da tragédia, dos discursos de tragédia na segurança internacional, já não era apenas a loucura de líderes irresponsáveis, mas a possibilidade ainda mais insana de extinção humana e de toda a vida na Terra. O acrônimo M.A.D. (Destruição Mútua Assegurada, em inglês) não registrava apenas uma loucura que poderia ser curada por mais uma tragédia, como se a tragédia pudesse ser redentora e catártica. A loucura da lógica M.A.D. era a loucura da extinção, uma loucura absoluta. O espectro da ação política racional teria de descartar a guerra nuclear como possibilidade política caso a existência humana tivesse de ser preservada. O espectro da ação política racional teria de pensar em outra ética internacional; uma ética diferente da ética guerreira que considerava a guerra como a prima ratio.
Terminada a Guerra Fria, a Guerra Fria mundana, o embate público entre o capitalismo e o socialismo, parecia que o espectro da ação política racional poderia ser restaurado e rearticulado. A "vitória" do mundo capitalista e uma possível aliança entre a Rússia e o ocidente na caça de ditadores sanguinários e irresponsáveis (como no caso da guerra contra Saddam Hussein) e na solução de crises humanitárias e de guerras civis parecia factível e possível. Mas ambas possibilidades logo se mostraram ilusórias.
Até o Onze de Setembro a política internacional pareceu órfã de inimigos. O ocidente não conseguia identificar quais eram os verdadeiros desafios internacionais e como seriam articuladas as novas ameaças. Vimos como, na disciplina de RI, o interregno permaneceu ligado aos mesmos discursos tradicionais da Guerra Fria – com a exceção de obras pós-estruturalistas e de teoria crítica que trouxeram verdadeiras contribuições. As implicações desse atavismo teórico e metodológico para a disciplina foi a incapacidade de se pensar para fora dos cânones tradicionais novas possibilidades políticas e de emancipação. Em certa medida, o problema do terrorismo permaneceu velado ainda nesse período devido ao dispositivo que ainda dominava a disciplina e a imaginação política das Relações Internacionais.
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