A fase de coleta de dados foi organizada em duas etapas: imersão no campo, com a realização de entrevistas, e a pesquisa documental. Como bem explica Sampieri, Collado e Lucio (2013, p. 416) “as etapas são, na verdade, ações que realizamos para atingir os objetivos da pesquisa e responder as perguntas do estudo e que se justapõem”.
A pesquisa documental foi realizada no decorrer da Tese, conforme se encontravam documentos de ordem legal (leis e decretos) na Internet referentes às secretarias e notícias divulgadas pelas prefeituras. Outros documentos foram coletados em campo, diretamente com os atores públicos. A pesquisa documental serviu principalmente para identificação dos eventos críticos assim como descrição das atividades das secretarias.
As entrevistas foram realizadas nos meses de março, abril e outubro de 2018. Considerou-se o fato de 2018 ser um ano eleitoral e alguns atores públicos investigados estariam concorrendo a cargos políticos. Portanto, esses atores foram investigados nos meses de março e abril. A imersão da pesquisadora em campo foi fundamental para ter contato com
a realidade investigada. Ambas as secretarias, SEDA-REC e onde funcionava a antiga SEDA- POA (atual CDA da SMAMS), foram visitadas, assim como os hospitais gerenciados por elas: o Hospital Veterinário do Recife (HVR) e a Unidade de Saúde Animal Vitória (USAV).
A pesquisadora foi inicialmente a Recife, devido a uma questão de proximidade geográfica, ficando 3 dias em campo durante o mês de março de 2018 e 2 dias em outubro de 2018. Já em Porto Alegre, a presença em campo foi durante 5 dias do mês de abril de 2018 e a pesquisadora acompanhou o trabalho dos protetores no Parque da Redenção, uma política chamada BrechoCão oferecida pela antiga SEDA-POA e continuada com a CDA. Já em Recife o CVA também foi visitado uma vez que as primeiras políticas de controle populacional realizadas pela SEDA-REC fizeram uso desse espaço. A intenção era que a pesquisadora pudesse conhecer as políticas implementadas assim como o espaço onde eram realizadas e fazer contatos para entrevistar os atores públicos, os protetores e tutores.
Para atender cada objetivo específico apresentado na introdução, foram consideradas as técnicas de coleta de dados e as fontes descritas no Quadro 10.
Quadro 10 – Objetivos específicos, técnicas de coleta e fontes
Objetivos específicos Técnicas de coleta Fontes
Descrever o contexto social e político em que as políticas para cães e gatos surgiram nos dois municípios. Pesquisa documental, entrevistas semiestruturadas e abertas. Documentos, atores públicos, protetores e tutores. Analisar como os atores públicos influenciaram a
adoção de políticas para animais domésticos
Entrevistas semiestruturadas e abertas.
Atores públicos e protetores. Identificar quais características inovadoras das
políticas influenciaram sua adoção pelo município.
Entrevistas semiestruturadas e abertas.
Atores públicos, protetores e tutores.
Fonte: Elaboração própria.
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas e abertas durante a imersão da pesquisadora em campo, totalizando 53 entrevistas: 8 com atores públicos (ex-secretários, secretários atuais, coordenadores etc.); 25 com tutores de animais e 20 com protetores (pessoas que resgatam animais de rua para disponibilizá-los para adoção), conforme detalhado na Tabela 12.
Tabela 12 – Entrevistas realizadas em Recife e Porto Alegre
Município Tipo de entrevistado
Nº de entrevistados
Tempo de entrevistas por tipo de entrevistado
Total por município Tempo total Mês da coleta Recife Ator Público 3 4:56:04 24 10:29:14 Mar./2018 Abr./2018 Out./2018 Tutores 14 1:55:29 Protetores 7 3:37:41 Porto Alegre Ator Público 5 4:12:44 29 9:52:38 Abr./2018 Tutores 11 1:14:53 Protetores 13 4:25:01
Cada um dos entrevistados recebeu um código. Por exemplo: AP01-REC significa Ator Público 01 do Recife; T01-REC significa Tutor 01 do Recife; e P01-Recife significa Protetor 01 do Recife. Se for AP01-POA, significa Ator Público 01 de Porto Alegre e assim por diante.
Das oito entrevistas realizadas com atores públicos, três foram entrevistas abertas. De acordo com Sampieri, Collado e Lucio (2013, p. 426) as entrevistas abertas “se baseiam em um roteiro geral de conteúdo e o entrevistador tem toda a flexibilidade para trabalhar com elas”. Não só o pesquisador tem flexibilidade, mas os entrevistados possuem maior liberdade para falar sobre os pontos que julgam mais relevantes.
As entrevistas abertas foram utilizadas com atores públicos que não estavam previstos de serem entrevistados em campo e/ou que durante o processo da entrevista conduziram mais a entrevista com suas impressões do que foram conduzidos pelas perguntas da pesquisadora. Enquanto pesquisadora em formação, entende-se que este último caso ocorra na pesquisa qualitativa porque entrevistador e entrevistado influenciam-se mutuamente. Ao chegar em cada espaço e ao conhecer cada pessoa, o pesquisador compreende seu papel principal na coleta de dados, mas também reconhece a unicidade de cada entrevistado, como bem explica Bardin (2011):
O técnico, habituado a trabalhar com material verbal produzido por entrevistas – quer seja investigador, analista de conteúdo, psicoterapeuta –, depressa compreende que cada entrevista se constrói segundo uma lógica específica. Apoiando os temas, conservando-os (manifestando-os ou escondendo-os), há uma organização subjacente, uma espécie de calculismo, afetivo e cognitivo, muitas vezes inconsciente na medida em que a entrevista é mais um discurso espontâneo do que um discurso preparado (BARDIN, 2011, p. 96).
Em campo, foi possível conhecer novas pessoas que tinham muito a dizer sobre o objeto de estudo por meio de suas experiências. Desse modo, algumas pessoas naturalmente falaram sobre suas experiências e novas informações e perguntas foram surgindo. Sem dúvida, essas foram as entrevistas mais ricas devido ao fato de os atores terem muito a falar sobre experiências que a pesquisadora não imaginava encontrar e por isso tais perguntas não estavam no roteiro semiestruturado. Essa situação particular ocorreu com três atores públicos: dois de Porto Alegre e um do Recife.
As entrevistas semiestruturadas foram utilizadas com atores públicos e usuários da política e totalizaram 53: 5 com atores públicos e 45 com protetores e tutores. “As entrevistas semiestruturadas se baseiam em um roteiro de assuntos ou perguntas e o entrevistador tem a
liberdade de fazer outras perguntas para precisar conceitos ou obter mais informações sobre os temas desejados” (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2013, 426). Os roteiros utilizados nas entrevistas encontram-se no Apêndice E.
A maioria das entrevistas ocorreu em campo. Os atores públicos foram entrevistados na estrutura administrativa em que trabalhavam ou nos hospitais, com exceção de um ator público que por morar em Belo Horizonte optou por WhatsApp. Os tutores foram entrevistados nos hospitais enquanto aguardavam atendimento clínico ou cirúrgico para os seus animais. Por fim, os protetores do Recife foram entrevistados no hospital, com exceção de quatro protetores que foram entrevistados via WhatsApp ou Skype; e os protetores de Porto Alegre foram entrevistados no BrechoCão ou na USAV.
O tempo de entrevista variou bastante, sendo maior entre os atores públicos e menor entre os tutores, conforme se observa naTabela 13.
Tabela 13 – Tempo de entrevista por tipo de entrevistado
Cidade Tipo de entrevistado Menor tempo Maior tempo
Recife Atores Públicos 01:11:16 02:03:24 Protetores 00:09:19 00:53:42 Tutores 00:03:23 00:17:28 Porto Alegre Atores Públicos 00:37:00 01:06:54 Protetores 00:07:28 00:36:06 Tutores 00:03:09 00:12:12
Fonte: Dados da pesquisa (2018).
Essa variação nos tempos de entrevista pode ter várias justificativas. Os atores públicos concederam entrevistas em seus locais de trabalho e a maioria teve seu horário previamente marcado. Os protetores entrevistados em campo eram pessoas com história na causa animal, com bastante informações sobre as políticas e mais articulados na fala. Os tutores estavam sempre com seus animais doentes aguardando atendimento, além da maioria estar usando o serviço nos hospitais pela primeira vez e serem tímidos.
Apesar dessa variação, já era notável a repetição de alguns temas pelos entrevistados, atingindo assim o fenômeno da saturação, quando “a partir de certo número de respostas ou entrevistas, a temática repete-se, fornecendo cada vez menos novidades” (BARDIN, 2011, p. 119). Importante ressaltar que todas as entrevistas foram gravadas a fim de garantir a melhor qualidade e confiabilidade dos dados.